AGENDA CULTURAL

3.5.13

Flores pisoteadas



Hélio Consolaro*

A avó chegou indignada contou ao avô que a filha deles havia feito com o neto: “O Mauricinho está apaixonado por uma Patricinha da classe. A mãe, nossa filha, em vez de cortar isso pela raiz, providenciou uma rosa e ajudou a escrever o cartão que seriam entregues antes de as crianças entrarem em sala de aula. Isso é coisa para uma mãe ensinar?”

O avô ouviu e permaneceu quieto. E a avó, ofegante, continuou a história: “A nossa filha deixou o nosso neto na escola e ficou espiando como iria acontecer a entrega. E o previsto aconteceu. A menina pegou a flor com o bilhete, jogou no chão e pisoteou os dois sem piedade.”

A avó espiou o marido com o rabo do olho, esperando alguma manifestação do avô. E ele continuou mudo e calado, sabendo que alguma coisa ia sobrar-lhe daquela conversa. Continuou sem nenhuma expressão facial de julgamento do fato. E ela continuou a história: “Mauricinho, humilhado perante os colegas, correu ao banheiro da escola e chorou muito”. E ao chegar em casa, comentou com a mãe: “Mãe (e chorou novamente), agora, só vou me apaixonar, quando eu tiver 30 anos!”

Diante do silêncio do avô, continuou: “Uma história linda”. E lascou uma perguntou de chofre: “Que você achou do comportamento de nossa filha? Onde se viu ensinar aquele bebê a namorar!” O avô, diante de tanta insistência, respondeu com evasiva: “Sei lá, não tenho opinião sobre tudo. Hoje se ensina tudo”. Por causa disso, o casal avoengo ficou uma semana sem conversar.

O avô correu ao banheiro e chorou muito.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP 

Um comentário:

arielle monique disse...

nossa que texto lindo ameei.