AGENDA CULTURAL

28.10.17

Ser esquecido, mas nem tanto

Hélio Consolaro*


Motorista embriagado esqueceu onde deixou o carro e pediu ajuda à Polícia Militar

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Um veículo Gol, com placa de uma cidade da região de Presidente Prudente, foi abandonado na Rua Monte Carlo entre as ruas Clarismundo de Melo e Salgado Filho, ao lado da Escola Maria Aparecida Balthazar Poço, no Jardim Monte Carlo, em Araçatuba. Depois de vários dias descobriu-se que o motorista não sabia onde havia deixado o carro. A Polícia Militar o localizou e recomendou a remoção para não ser guinchado. 

A notícia por si só tem o seu lado cômico, nem é preciso de muito esforço para rir da situação, mas o cronista tira leite de onça, descobre facetas do fato imperceptíveis pelo leitor.

Em tempos não muito remotos, quando os homens bebiam, em vez de perder o celular, desaparecia a guaiaca**, quantos cavalos arriados foram largados à espera de seu dono. Não fosse alguém para lhe dar água e milho, morria de fome amarrado ao tronco de uma árvore.   

Apesar de bêbado, o motorista foi consciente, em vez de continuar dirigindo, abandonou o carro antes que machucasse alguém com sua direção tresloucada. Certamente, a polícia nem lhe aplicou a multa, apesar de ter confessado que tudo fora provocado por seu estado de embriaguez. Não sei se faria o mesmo, se o carro fosse mais novo, um Corola, por exemplo.

Há muitas histórias de carros esquecidos sem que o dono estivesse bêbado. Aliás, outro dia li uma notícia de que o esquecimento, ser esquecido,  é uma característica dos gênios, pessoas muito inteligentes.

Se essa tese for verdadeira, o saudoso professor Fernando de Almeida Prado, de quem não tive o privilégio de ser aluno, tido como gênio por alunos e por amigos, lecionava Matemática (ciências exatas) no antigo I.E. e, quando em 1967 foi aberta a Faculdade de Filosofia de Penápolis, passou a fazer parte de seu corpo docente devido à sua genialidade. 

Certa noite, voltou da FAFIPE para Araçatuba de carona, largando o seu carro no estacionamento da faculdade. E segundo a lenda, não havia sido a primeira e nem seria a última vez.  

Ser esquecido, mas nem tanto, porque há um esquecimento que é fatal: se esquecer de respirar. Aí, quando for dar por si, estará na unha do capeta ou nos braços do Senhor. 

**Cinto largo de camurça ou couro macio, provido de bolsinhas para guardar dinheiro e objetos miúdos e usado também para o porte de armas.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor.

Um comentário:

Ronaldo Werneck disse...

Olá Hélio! Parabéns pela crônica! Gostaria de dizer que há outras facetas do esquecimento. Uma delas é o Mal de Alzheimer. Começa com esquecimentos simples e vão se aprofundando. Esquecer objetos, compromissos, dar descarga no banheiro, fazer higiene pessoal (banho escovar os dentes, etc) e das refeições (se já comeu ou não) e datas, é o início dela. A doença tende a se desenvolver mais rapidamente a ponto das pessoas esquecerem de quem são os parentes próximos, onde mora e, as vezes, até seu nome. É imperativo que se perceba no início, para começar imediatamente o tratamento. Dessa forma, o período mais severo da doença é empurrado para o final da vida. Não é incomum pessoas passarem anos na cama, tendo de usar fraldas geriátricas ou em modo vegetativo, por anos. Alguns médicos já afirmam que o Mal de Alzheimer é a doença do século XXI. Com o envelhecimento da população e sua expectativa de vida se tornará caso de saúde pública. Para isso o governo tem de criar políticas públicas no combate ao mal de Alzheimer que configura não só uma característica genética de pessoas mais propensas em idade avançada desenvolvê-la, mas pelo modo de vida (tipo de alimentação, sedentarismo ou pouca atividade intelectual de esforço). Fica a dica para uma crônica sobre o Mal de Alzheimer. Forte abraço.