AGENDA CULTURAL

17.1.18

Eleições de 2018. Cuidado com a pós-verdade

Benito Mussolini
Hélio Consolaro*

Não sei caro leitor se deparou com a palavra pós-verdade, se não sabe o que é, não perdeu nada, mas é bom tomar conhecimento para não ser enganado por um novo tipo de jornalismo. Não é aquele que mente, mas que é panfletário, faz um discurso para determinado segmento político.

Segundo Oxford Dictionaries, departamento da universidade de Oxford, trata-se de um substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. A representante maior do jornalismo pós-verdade são as revistas noticiosas, como a Veja.

Nas redes sociais, por exemplo, a palavra é usada por quem avalia que a verdade está perdendo importância no debate político. Por exemplo: o boato amplamente divulgado de que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump não vale menos do que as fontes confiáveis que negaram esta história.


Mas tudo tem a sua história, a pós-verdade tem raízes antigas. A república brasileira criou a imagem de Tiradentes semelhante à de Jesus Cristo crucificado para que caísse nas graças da população brasileira. 

“Independência ou Morte” de 1888, quadro do pintor Pedro Américo, retrata um jovem Dom Pedro I a erguer a sua espada a 7 de Setembro de 1822, nas margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Trata-se de uma imagem pintada, inventada. 
Independência ou Morte, quadro de Pedro Américo
Machado de Assis tinha o cabelo pixaim, era afrodescendente, fundador da Academia Araçatubense de Letras, admirado pela intelectualidade branca do Rio de Janeiro. Não houve dúvida, dúvida, embranqueceram as suas fotos, até em comercial da Caixa Econômica em 2011.
Machado de Assis branqueado
Machado de Assis - natural










Mas isso não é exclusividade brasileira. Uma foto de Abraham Lincoln na sede do congresso americano em Washington, com pose de estadista, tem só a cabeça dele, o corpo é de outra pessoa. 
Na imagem à esquerda, só a cabeça pertencia a Lincoln. Foi colocada sobre foto de Calhoun (à direita) 
Numa foto, na antiga União Soviética, Lênin discursando com a presença de de Trótski. Tiraram este porque ele havia caído em desgraça com os líderes da Revolução Russa. 

Na fotografia à esquerda, a figura de Trótski (de quepe, na imagem à direita) foi apagada
Mussolini montado num cavalo, todo valentão, ergue a espada, mas o animal estava sendo segurado no cabresto por um tratador, tirando toda a galhardia do ditador. Não houve dúvida, tiraram da foto o tratador.
Mussolini posa de valentão (à esquerda), mas não mostra o tratador que segurava o cavalo (à direita)
E assim, caminha humanidade. Atualmente, com as redes sociais, a pós-verdade, que é um panfleto, está em evidência. Já recebi foto de João Dória como roqueiro, consumindo maconha. Produção de um site especialista em "fake new". Não divulguei, é mentira, montagem.

Cuidado, caro leitor, para não ser um inocente útil de um dos lados. Neste ano, temos eleições.  

LEIA MAIS: 
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42172146?SThisFB

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras 

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