Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP
A Santa Casa de Misericórdia de Araçatuba completará em 20/03/2027
100 anos. Vou me atrever a escrever alguma coisa, mais como cidadão, usuário,
pois o finado médico Oscar Gurjão Cotrim me livrou do apêndice infeccionado em
1963 no prédio antigo da SC. Eu tinha 15 anos.
Não havia INSS e nem SUS, ou pagava-se à vista ou era
atendido pela misericórdia da casa santa, uma dependência popularmente chamada
de “salão”. Onde pobre quase indigente era internado.
Meus pais que eram pobres brancos não quiseram largar o
filho recém-operado naquele quarto sem paredes. Pediu socorro ao patrão, Waldemar Alves, o
mesmo que deu nome a uma avenida na cidade. Deu certo. E foi pagando mensalmente
as despesas hospitalares. E a Santa Casa foi crescendo na vertical, era quase o
único hospital da cidade, havia também a Maternidade Santa Teresinha e o Hospital
São Sebastião.
Até um certo tempo, um grupo de freiras exercia seu
ministério, a enfermagem, no hospital. Eram chamadas de “irmãs de caridade”.
Por causa disso, para a população, o hospital era coisa da igreja católica.
Santa Casa é um legado da colonização portuguesa. No
Brasil, as primeiras foram da cidade de Olinda e Santos. Hoje temos 2.500. De
onde vinha dinheiro para sua manutenção? Não se cobrava tanto imposto naquela época,
então a assistência social era feita pela igreja católica que incentivava os endinheirados
a fazer suas doações.
Atualmente, são hospitais públicos, mas não
governamentais, que prestam serviços ao Sistema Único de Saúde. Mas para chegar
ao que estamos agora, houve muita luta. Até foi feita campanha de arrecadação,
através de recolhimento de uma taxa pela conta luz.
Há muitas ruas de Araçatuba com nome de gente, homenagem
a pessoas que fizeram alguma coisa pela cidade. O nome Manuel Pereira Mil Homens,
está numa rua que passa ao lado do Mercadão Municipal. Então, ele foi
presidente da assembleia de criação da Santa Casa Araçatuba em 20/03/1927.
O chefe da mesa diretora da Santa Casa sempre se chamou
“provedor”. Era o cara que provê, abastece, providencia
dinheiro que saía, com seu prestígio, buscar dinheiro na cidade, nas entidades
governamentais, empresas para a Santa Casa de Araçatuba. Certamente, a entidade
fará alguma publicação contando sua história nos detalhes no século de
existência. Essa saga não pode ser esquecida.
Os abastados e os remediados ajudam, os pobres alugam o seu trabalho, cobram proteção. De um jeito ou de outro todos os cidadãos ajudam a pôr a Santa Casa para funcionar 24 horas por dia. É uma santidade coletiva.












