AGENDA CULTURAL

9.7.24

Soldados sendo artistas

 

Jean Oliveira
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

No dia 4 de julho de 2024, quinta-feira, quem passasse pela rua General Glicério de Araçatuba, defronte ao Centro Cultural Thathi (antigo Cine Pedutti) estranharia a presença de tantas viaturas da Polícia Militar do Estado de São Paulo. E ao fundo, lá de dentro, uma voz masculina cantando Boate Azul.  

Quem foi homenagear os 50 anos da Banda Regimental de Música do CPI 10, Araçatuba, com a presença do Corpo Musical da Polícia Militar do Estado de São Paulo, pensou que fosse encontrar dobrados ou músicas apenas orquestras. Foi muito diferente, apenas músicas populares que foram cantadas com a plateia.  

Cover de Elvis Presley

Militares fardados cantaram como verdadeiros artistas. Executaram músicas de filmes, depois uma sequência de Tim Maia que, com certeza, em sua vida, fugira da polícia, foi homenageado. Roupa Nova. Várias músicas sertanejas, e para disfarçar que a coisa era séria, cantou-se uma música gospel. E a plateia ia ao delírio.

Uma apresentação especial comoveu os presentes, uma performance de Elvis Presley, chegando a ser um cover. Nessa apresentação, o militar se fantasiou como o cantor norte-americano, sem farda. Distribuiu lenços mil para a plateia, como fazia o verdadeiro Elvis. E para não fugir ao padrão, um dos cantores pediram para que todos acendessem a lanterna de seus celulares.  

Durante o espetáculo, em vez de armas de fogo, os soldados traziam a punho instrumentos musicais em seus estojos. Pareciam soldados brincando de criança. Ficou provado que a paz é possível.

Certamente, o militar da banda, do corpo musical, já tinha essa formação quando se engajou, coube ao comandante separar o bloco de quem sabia tocar algum instrumento e formar uma corporação musical. 

Aqueles militares músicos não perseguem bandidos nas ruas, só extraordinariamente. Ser músico é até uma forma de o soldado se proteger da violência da ação policial, ficar nos serviços administrativos

No teatro Thathi, foi um palco de êxtase, onde todos riam, felizes, corporação e plateia, como exemplo de que a utopia da pacificação é possível. Havia muita gente da família militar presente, mas não era só. Eu e a Fátima estávamos lá para ouvir música.

Está provado de que a arte humaniza a pessoa, deixa-a mais sensível, abre as portas do emocional. Policiais são pessoas que não podem se contaminadas pelo ódio.


 

8.7.24

Aniversário chique


Portal de entrada

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Estive num aniversário cinco estrelas em Adamantina de alguém (Ariadne) da família de Fátima Florentino.
Quando me falaram que seria num hotel, e terminada a festa, os convidados iam para seus aposentos, fiquei admirado (por conta do convidado). Como dizem os descamisados: quem é rico caga longe.
O susto maior foi o nome do hotel: ABAPURU. Nome de uma pintura da modernista Tarsila do Amaral. A hospedaria era mesmo diferente, até no nome.
Mirante
Os parabéns foram cantados na abertura da festa, assim cada convidado poderia ir na hora que quisesse e até fazer roda de samba. O último convidado foi para o quarto às três horas da madrugada. Houve banda.
O hotel é de um casal de dentistas, com gestão da Sulema Mustafá. Com o nome do hotel quis prestigiar o Brasil. O hotel é um verdadeiro clube de campo, tem até lagoa para pescaria e animais como pavão, carneiro, galinha de Angola. Turismo rural.

3.7.24

A neblina tomou conta da cidade


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

A certeza é fatal. O que me encanta é a incerteza. A neblina torna as coisas maravilhosas. OSCAR WILDE

A neblina tomou conta da cidade. As nuvens baixaram ao rés do chão. Não se via a um metro do nariz. O próximo passo é uma incerteza.  

Assim foi terça-feira, 02/07/2024. Era dia da Sandra ajeitar a casa, veio de Bis, estava apavorada com o nevoeiro. A cada acelerada vinha o desconhecido, apesar de ser um caminho rotineiro.

A namorada também reclamou, pelo zap, de que Araçatuba parecia Londres, ou São Paulo no tempo da neblina. Eu respondi que o tempo sombrio me assanha a inspiração, é romântico. Até ouvi o lobo uivar.

No meu tempo de menino, ir à escola, a pé, andando vários quilômetros por estradas, cruzando a neblina, era uma aventura. As recomendações maternas redobravam.

A neblina vem nos lembrar que os humanos ainda somos natureza, põe no mesmo nível  o lobo e o homem, contesta o cristianismo que quer esconder o nosso lado animal. Deus está em tudo, é também natureza. 

A neblina não é uma enchente do Rio Grande do Sul que quis nos educar na dor. Ela nos traz solitários para dentro da nuvem rala, é um acolhimento, dizendo que nós somos parte dela. 

Estranho é caminhar na densa névoa:
Solitária está cada planta ou pedra,
Nenhum arbusto enxerga o seu vizinho,
Cada um está só. HERMANN HESSE
   

30.6.24

Cido Sério com Lula e Alckmin - reivindicações para Araçatuba



CIDO É APENAS PRÉ-CANDIDATO A PREFEITO E JÁ ESTÁ BUSCANDO COISAS PARA ARAÇATUBA 
Cido Sério e sua namorada Keller Cordioli acompanharam a agenda do Presidente Lula em SP, onde ele anúnciou a construção da universidade Unifesp na zona Leste, e o hospital universitário e metrô na zona Sul, Jardim Ângela. E aproveitou para reivindicar uma universidade federal em Araçatuba e apoio para cidade e região.
Foi assim que agiu quando foi prefeito, para instalar a faculdade de medicina em Araçatuba (UniSalesiano).



27.6.24

Os brasões e a flor-de-lis - Alberto Consolaro

O lírio ou flor-de-lis está presente em muitos brasões como o de Florença e de várias unidades militares pelo mundo

Quando perguntam de onde veio tanta curiosidade, eu “culpo” minha mãe. Antes de sair para visitar alguém, ela discursava sempre dizendo que não era para mexermos nas coisas da casa alheia, não perguntar sobre nada e não atrapalhar a conversa dos adultos.

Parece que isso desencadeou uma vontade enorme de saber de tudo o que consigo. Até hoje olho vitrines, assisto programas em pé e fico analisando as coisas com os olhos e ouvidos, mas com as mãos cruzadas atrás do corpo.

Na simplicidade da pobreza, quando alguma coisa vinha embrulhada em jornal, era uma maravilha! Cada letra e notícia naquela folha era devorada loucamente. Não havia internet, as enciclopédias e atlas eram consultados nas bibliotecas públicas.

Algumas coisas ficaram para trás e uma delas foi por que tive, durante 4 anos, uma professora de francês muito chata e implicante chamada Flor de Lis. Então, tudo que tinha flor-de-lis, eu deixava de lado.

Mas, agora, chegou a hora da verdade, de me libertar graças à beleza desta flor como uma das quatro figuras mais populares da heráldica, juntamente com a águia, cruz e o leão. Heráldica é a arte ou ciência que identifica visualmente alguma coisa por meio de brasões de armas ou escudos, criada na França.

FLOR-DE-LIS

O termo “lis” vem do francês e significa lírio ou íris, mas também representa uma forma contraída de “Louis” ou Luís, o príncipe que virou rei Luís VIII e utilizou a flor como símbolo em 1211, ficando como “fleur-de louis”.

A flor-de-lis nos brasões é muito associada à monarquia francesa, ao rei da França e até hoje permanece como um símbolo extraoficial da França, junto com a águia napoleônica. Para os franceses, as três pétalas significam pureza do espírito, luz e perfeição. No entanto, há citações de que a flor-de-lis represente a Santíssima Trindade.

Atualmente muitos logos ou marcas trazem a flor-de-lis como as camisas Dudalina, a Faculdade São Leopoldo Mandic, muitas outras universidades e numerosas unidades militares. O escotismo mundial tem a flor-de-lis como seu maior símbolo por escolha de Baden-Powell, seu fundador.

A flor-de-lis ou o lírio está permeado na cultura francesa, inclusive na culinária. Quando o chef preparava algo muito diferente, com paladar incomum, a realeza premiava-o com uma flor-de-lis de ouro e pedras preciosas, concedendo lhe permissão de chamar com seu nome, aquele prato saboroso.

CAPITAL DO MUNDO

Em época de Olimpíadas em Paris, que é o centro cultural do mundo, é prazeroso refletir a influência da cultura francesa em nossa formação como nação. Por muitos anos, os franceses dominaram parte de nosso território, estabelecendo-se por aqui a França Equinocial, onde hoje é o estado do Maranhão cuja capital São Luís, ainda guarda alguns sinais desta época. Os franceses ainda ficaram um tempo no Rio de Janeiro e somos vizinhos por meio da Guiana Francesa, um território ultramarino.

Não notamos, mas muitas palavras comuns são derivadas do francês como: abajur, boate, balé, batom, bibelô, buquê, butique, bife, champanha, camelô, camionete, carnê, chique, chefe, conhaque, cupom, crochê, dossiê, edredom, filé, garagem, garçom, guichê, guidão, glacê, madame, maionese, maquete, maquilagem, marrom, matinê, menu, omelete, pierrô, purê, raquete, ruge, sabotagem, toalete, vitrine etc.

REFLEXÃO FINAL

Quantos símbolos já passaram pelos seus olhos, com a flor-de-lis no centro e nem notaram. Às vezes exibimos símbolos, marcas e brasões nas roupas, carros e casas e nem sabemos o significado deles. Tomemos cuidado, pois podem passar mensagens com as quais não concordamos, o que não é o caso da flor-de-lis. 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br   

 

25.6.24

Então, Michel Teló na praça Rui Barbosa

dralceu.com.br

Arraía da Solidariedade de 2024

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Michel Teló, que não é nome artístico, é nome mesmo, foi batizado para ser artista. Artista que não faz lambança, não entra em dividida, com pinta de bom moço. "Humilde residência", que era um pagode e foi transformada em balada ao ser gravada, nasceu aqui em Araçatuba, autoria de Tiago Marcelo, Malcolm Lima, Luiz Henrique e Fernando, por isso foi uma das primeiras a ser cantada no show do dia 21 de junho de 2024 na praça Rui Barbosa de Araçatuba. Honraria cumprida.

A praça Rui Barbosa, apelidada de Praça do Boi, pois antigamente os fazendeiros ficavam nelas discutindo o preço da carne, estava depauperada. A sua recuperação foi polêmica, mas o então prefeito Cido Sério (atual PV) encarou o problema e sua reforma (não foi restauração), depois de dois anos, foi entregue em 29 de junho de 2014, cuja administração ficou na esfera da Secretaria Municipal de Cultura. E na época, este cronista era o secretário da pasta. O piso passou do antigo "petit pavè" para o tijolos mais ecológicos, "paver"

Na época, o ciúme que o prefeito Cido Sério tinha da praça era o mesmo que a filha mais moça manifestava no pai. Chegava a impedir o uso mais amplo do logradouro público. Sendo o prefeito Dilador Borges, PSDB, seu sucesso, ele abriu as porteiras da praça Rui Barbosa, chegando às raias da irresponsabilidade.

Na Secretaria Municipal de Cultura, a praça era para ser usada para pequenos shows, tipo retretas com  dominicais com cadeiras para que a terceira idade assistisse ao espetáculo confortavelmente. Pela falta de um parque amplo para passeios, corridas, arborização, o Arraiá da Solidariedade (Fundo Social)  foi tomando a praça com seus grandes eventos, chegando ao show de Michel Teló e grupo Tradição. 

Depois do show, na terça-feira, fui ver a praça Rui Barbosa, o que sobrou do local depois de ela receber Araçatuba e região para ver artista tão famoso a cantar. Não havia espaço para tanto. A escolha do local não fora racional. Apresentei ao local minhas condolências.  

A praça teve seus canteiros pisoteados, transformados em solo sem grama, marrom, na cor do solo. Com cara de quem sofreu uma agressão descomunal. Está na hora de transferir o Arraiá da Solidariedade para lugar mais amplo.

Nesses seis meses restantes da administração Dilador Borges (PSDB) é viável fazer ação intensiva de recuperação, principalmente na vegetação rasteira. Fazer a festa na praça Rui Barbosa, sabendo que seria monstruosa, foi uma ação negativa para o meio ambiente.   


24.6.24

Em 2015, é inaugurado o ATENDE FÁCIL - ARAÇATUBA

Fachada do Atende Fácil

 
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

No fundo da agência do correio do centro da cidade, Rua Oscar Rodrigues Alves, 295, foi sede da Quadra Cinquentenária, inaugurada em 1958, uma espécie de ginásio de esportes da cidade, quando Araçatuba completava 50 anos. O local também foi sede de escola de samba.

A partir de setembro de 2015, inaugurou-se no mesmo local, na administração do prefeito Cido Sério, agora PV, o Atende Fácil, tendo como objetivo centralizar atendimento o cidadão junto à administração municipal. Houve a construção de um novo prédio com aspectos de modernidade.
O investimento total no projeto foi de quase R$ 5,4 milhões. Sendo R$ 2,6 originários do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), transferidos por meio do Programa Nacional de Apoio à Gestão Administrativa e Fiscal dos Municípios Brasileiros, do Governo Federal; e R$ 2,7 mi de recursos próprios do município de Araçatuba. o atual prefeito, Dilador Borges (PSDB), cujo mandato se finda, deu continuidade ao projeto.
Interior do Atende Fácil

O similar ao Atende Fácil é o Poupa Tempo, da administração estadual. O primeiro é gerido pela administração direta da Prefeitura de Araçatuba; o segundo é terceirizado. Uma empresa é que toca o Poupa Tempo.

LEIA MAIS SOBRE A INAUGURAÇÃO DO ATENDE FÁCIL APERTANDO AQUI: https://www.blogdoconsa.com.br/.../no-atende-facil-de...

22.6.24

Se fosse assim? Quantos sobreviveriam - Alberto Consolaro

Ludhmila Hajjar, Professora Titular da USP é prestigiada pela ministra Simone Tebet, a cantora Marisa Monte e a médica Stephanie Rizk


Em entrevista, a professora doutora Ludhmila Hajjar disse que “uma onda de picaretagem assola a medicina no Brasil”. A formação da médica e professora é inquestionável e sua experiência dá um peso muito grande a esta afirmação, além de outras ditas ao longo da sua entrevista ao vivo e por escrito.

Quando a professora Ludhmila diz medicina, também se estende para todas as áreas biomédicas associadas incluindo a odontologia, enfermagem, nutrição, fisioterapia, biomedicina, farmácia e bioquímica etc. O universo deste tipo de conhecimento é o mesmo! Para isso, nem precisa frequentar o meio biomédico, é só ler diariamente os jornais, assistir as televisões abertas e os portais de notícias: é trapaça todos os dias.

Em um livro que também poderia se chamar “E se ...”, em cada capítulo a autora discorre sobre uma possibilidade hipotética, por exemplo, como viveríamos sem geladeira, fazendo várias conjecturas muito interessantes com a situação (Como faríamos sem ... Bárbara Soalheiro. Panda Books). E se vivêssemos sem telefone celular ou sem internet? Seria uma loucura! E reconheçamos que seria muito pior.

A CADA 5 ANOS

A faculdade em que se formou, depois de 5 anos ela não existe mais! Os prédios mudaram, os aparelhos e também os professores e funcionários são outros, em sua maioria. Para quem gosta de nostalgia, esquece! Não dá para voltar à sua querida faculdade e reviver o tempo de outrora, só mesmo em fotos e vídeos. Apenas os formados nas faculdades e que passassem no exame do Conselho Profissional, poderiam exercer a profissão.

Na ciência, todo o conhecimento é renovado completamente em 5 anos. Os conceitos, as verdades, as ideias, as técnicas, os aparelhos e os produtos, incluindo os medicamentos, são quase tudo trocados! Esta é uma das razões que o comprometimento, o apego e a saudade não estão em moda, tudo é muito passageiro e perecível, inclusive todos os tipos de relações humanas.

Muitos, e não são poucos, propõem que tudo que seja estável e duradouro acabe, como por exemplo os cargos de juiz, desembargadores e ministros nos tribunais, até do STF, para que as coisas se renovem e atualizem-se. Como assim são com os professores e outros. E se tudo e todos não tivessem mais a estabilidade, tudo teria que ser periodicamente renovado a cada 5 anos, inclusive os profissionais.

Todas as profissões como o médico, cirurgião dentista, arquiteto e outros, teriam autorização profissional para continuar a exercer, apenas depois de passar a cada 5 anos, por um rigoroso exame de qualificação hiper e ultra controlado pela sociedade: sós os bons passariam e continuariam! Esses exames seriam organizados e de responsabilidade dos conselhos de cada profissão, como a OAB faz tão bem com a advocacia.

DUAS REFLEXÕES FINAIS

“E se ...” assim fosse, poderia haver quantas e tantas faculdades que quisessem, às centenas como acontece hoje com a medicina e a odontologia, e se os alunos não fossem bem formados, não passariam no exame para o exercício profissional. Sobreviveriam apenas as boas faculdades, aquelas com bom índice de aprovação nestes exames. As demais fechariam, pois quais famílias iriam colocar seus filhos nelas?

Os profissionais teriam que estudar sempre para passar a cada 5 anos no exame de renovação para o exercício legal da profissão. Deixariam de existir os profissionais que estudaram apenas na época da faculdade e não renovaram seus conceitos continuadamente. Desta forma, provavelmente haveria uma queda brusca das picaretagens (ou trapaças) que se tem na medicina de hoje, como disse a Professora Doutora Ludhmila, mas também em todas as outras áreas.

Depois de alguns anos com este sistema avaliador instalado, talvez perguntemos uns aos outros: - Como conseguíamos viver sem o controle adequado do exercício profissional minimamente competente? Reflitamos. 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br   


19.6.24

Festas juninas: mundo rural


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

O inverno está começando, mas as festas juninas já estão em andamento. Festejar é sinônimo de se alegrar, comemorar. Já há até a prorrogação: festas julinas.

Antigamente, quando ainda permanecia o lado religioso das festas juninas, católico, era momento de rezar o terço antes da festa, antes dos fogos ao levantar o mastro com a imagem dos três santos: Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho), São Pedro (29 de junho). Tudo isso na zona rural.

Os festejos aconteciam na noite da véspera. Como a estação era tempo de frio, acendiam-se fogueiras, soltavam-se bombinhas, busca-pés, rojões de todas as espécies. Energia elétrica, nem pensar. Faziam parte da cultura católica, havia muitas promessas e superstições. Era nosso mundo rural.

De repente, menino tabaréu morando na cidade, eu me encontrei com a festa junina na escola, bem diferente, tentando imitar a vida do sítio, da fazenda, mais parecia uma quermesse. Passou a ter outro objetivo, como arrecadar fundos para a APM (Associação de Pais e Mestres). 

Como a pluralidade religiosa passou a fazer parte da democracia brasileira, a festa ganhou um caráter popular. Santos esquecidos, costumes preservados, só os evangélicos radicais não participam dela. Passou a ter um caráter de espetáculo, como acontece no Nordeste e vem ganhando este jeito de grande festa  em Araçatuba. 

Hoje há a festa junina de quarteirão, do rancho, da entidade. Aquele negócio de ridicularizar o caipira se vestindo com roupas remendadas está superado, passou a vestir o xadrez, a chita, o chapéu, lembrando o mundo rural que deixamos para trás. 

O cardápio característico é a riqueza da festa junina. Além do atual churrasco, há a pipoca, a canjica, o arroz doce, o amendoim, a dança da quadrilha, a música caipira que às vezes é substituída pela sertaneja e pela gospel, a decoração especial. Mas quem quer festa genuína não deixa de contratar um sanfoneiro.

Há também, quando os organizadores são sofisticados, o casamento: noivo, noiva, padre, padrinhos, pais. Mais humor do que tradição. Noivo fugia com a moça e fora surpreendido pelo pai dela. Retrato de época mesmo, com espingarda e tudo.

Os estudiosos das festas populares defendem que se um país quiser preservar seu folclore e suas festas, precisa modernizá-las. Embalsamá-las é o caminho mais rápido do desaparecimento delas. Seguindo esse caminho, as festas juninas estão vivas.

 

13.6.24

Dicas para ‘"consumir" ciência - Alberto Consolaro

Selecionar o que ler requer critérios e muita seletividade: temos um tsunami literário-científico por dia

O que temos hoje no jornal de domingo é muito mais do que Machado de Assis leu na sua vida. Hoje temos um tsunami por dia de informações que invadem a nossa praia da vida, sem pedir licença. Antes de ler um trabalho em si, eu pulo sete ondas deste tsunami literário.

Tenho que ler 3 trabalhos publicados por dia, o que dá 1095 artigos por ano. Se lesse 1 por dia, seria 365 trabalhos por ano, um número impressionante. Mas, se me chegam dezenas e dezenas de trabalhos por dia, como faço a seleção destes artigos? Desde cedo aprendi a valorizar o meu cérebro e meu tempo e, desde cedo, adotei critérios individuais extraídos da biblioteconomia.

1- Primeiro vejo o título, que deve ser curto e dizer do que se trata. Os títulos longos sugerem falta de objetividade e não tenho tempo para garimpar o objetivo no trabalho. Tenho mais de 50 trabalhos na fila, para selecionar só três e o dia tem 24h.

2- Segundo, vejo se o artigo, pesquisa ou livro tem o nome do autor. Se vier sem autor, eu nem abro e muito menos compro, mesmo se for publicado por uma grande editora, que as vezes disfarçam textos obtidos de forma anônima, com certas pessoas como curadoras, supervisores etc. Com a inteligência artificial, isto vai acontecer mais frequentemente.

3- Terceiro critério é o nome do autor que vale muito, onde trabalha, com quem compartilha suas obras, o que ele já escreveu antes, mas se isso não for me oferecido, caio fora para não perder tempo. Se o autor não for conhecido, o local onde trabalha e a revista e editora pode contar muito se continuo a ler ou não.

4- Quarto, se a revista ou editora não for criteriosa e caprichosa em suas obras, fica difícil acreditar que vai valer a pena ler o trabalho. A fila é enorme na lista de leitura, mas nem sei o local onde fica a editora ou quem é o seu corpo técnico. Às vezes, a editora é famosa e, de tão grande, muito impessoal. Eu prefiro não me arriscar a perder tempo se desconfiar da editora. Tem obra que nem tem prefácio e posfácio.

5- Quinto, o local onde o autor trabalha, a universidade, o instituto e o contexto em que foi escrito é fundamental. Se não constar na primeira página do trabalho estas informações, já estou quase fechando. As vezes é um livro, e não tem essas informações nas páginas que antecedem a folha número 1, que são chamadas de prolegômenos. E nem tem estas informações nas orelhas do livro.

E se a universidade do trabalho não for muito boa nos rankings mundiais, assim mesmo se continua a ler o trabalho? Desde que eu tenha informações fáceis de serem resgatadas sobre ela e seu país sim, mas, frente a mínima dificuldade, prefiro pegar o próximo trabalho da fila.

6- Sexto, quem financiou o trabalho, em que laboratório foi feito, quem forneceu o material? Quem patrocinou o trabalho que avalia um produto ou uma técnica. Se foi o próprio fabricante que financiou ou foi feito em seus laboratórios, fica difícil continuar lendo. Tem outros trabalhos na fila, lembram? São 3 trabalhos que tenho que tirar de 50 ou mais por dia.

7- Sétimo, a língua do trabalho importa? Claro que sim, pois idiomas dificultam a compreensão, por isso geralmente se publica na língua nativa para os nativos e em inglês para os demais. Cada vez mais, os textos são automaticamente traduzidos para o português, o que facilita muito. Fica difícil ler trabalhos na maioria das línguas e entender o contexto.

Depois de passar por esses sete critérios ou ondas do tsunami literário-científico diário, aí sim vou curtir o trabalho lendo o sumário e resumo, curtindo a proposta e checando a metodologia, mas vou mesmo me deliciar na discussão sobre os dados que o autor generosamente nos oferece para que se chegue às conclusões. A leitura tem que fluir naturalmente.

O ceticismo faz parte da ciência, precisamos nos respeitar selecionando o que leremos, poupando os olhos do que veremos e economizando os ouvidos de sons que adentrem para o cérebro.

REFLEXÃO FINAL

Esses critérios eu não aplico apenas nos trabalhos e livros, faço isso em tudo: redes sociais, mensagens e produtos do dia a dia. Se não fizesse isto, acho que, já teria perdido a saúde mental, com o cérebro invadido impiedosamente pela ansiedade que entra sem pedir licença em nossas vidas.

A quem perguntou quais meus critérios para o "consumo" diário da ciência, eu diria que a palavra-chave é a seletividade como o produto da análise crítica e da propriedade de decidir por quais caminho quero ir, sem nunca perder a ternura! 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br