CHUPAR LARANJA
Não mais apanho laranja no pé como foi na infância, no
pomar, na beira da estrada, agora escolho as frutas na gôndola do supermercado.
Assim é mais fácil na velhice. A minha infância foi
sacrificada. Um rapaz e uma mocinha resolveram se casar, só sabiam capinar,
trabalhar na roça, aí eu venho a furo numa teimosia sem par, só saí no útero
por fórceps.
O casal que parecia desmiolado, formou um professor, um
advogado, um dentista e um doutor em computador. Todos homens. Minha mãe foi
amada por quatro meninos.
Os quatro estão tendo uma boa aposentadoria, dá para eu
comprar laranja Bahia no supermercado. O refluxo não me deixa tomar o porre,
mas vou devagarinho, na medida.
Há leitores que me acompanham meus textos há décadas, e me
perguntam o porquê de eu mudar o meu estilo de escrever, a abordagem dos temas.
Respondo sem fazer rodeios: envelheçi, perdi a fogosidade.
A laranja da Bahia é minha deusa, e noutro dia só havia na
gôndola poucas, judiadas. Insisti, selecionei algumas. Ao chupar uma delas em
casa, quase entrei em êxtase, era a acidez da mocidade transformada em doçura
da velhice.
Não é apenas jogo de palavras, é poesia mesmo.
EDGAR MORIN
Conheço o intelectual francês, mas judeu de origem, pelo pequeno livro "Os sete saberes" (115 páginas). Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, publicado em 2000 pela ONU, cuja leitura fez parte de minha formação para o magistério. Morreu em finais de maio de 2026, com 104 anos. Eu achava que o bom velhinho fosse ficar para semente. Na verdade, deixou plantadas várias sementes em nosso planeta.
PRIMEIRO SABER: as cegueiras do conhecimento: o erro e a
ilusão.
O SEGUNDO SABER: os princípios do conhecimento pertinente.
O TERCEIRO SABER: ensinar a condição humana.
O QUARTO SABER: ensinar a identidade terrena.
O QUINTO SABER: enfrentar as incertezas.
O SEXTO SABER: ensinar a compreensão.
O SÉTIMO SABER: a ética do gênero humano.
O PENSAMENTO COMPLEXO foi a semente mais robusta de Edgar Morin é uma abordagem que defende a interconexão de todos os saberes e critica a fragmentação do conhecimento em disciplinas isoladas. Originado do latim complexus, que significa "aquilo que é tecido em conjunto", o pensamento complexo propõe que a realidade não pode ser compreendida de forma simplista ou dividida em "caixinhas", pois o todo e as partes são interdependentes e se transformam mutuamente.
*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis Itaperuna-RJ






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