Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP
Vamos nos colocar na linha do tempo. Na minha infância, me
lembro bem daquela caneta que esfregava em nosso antebraço, fazendo riscos na
pele, e depois, às vezes, virava uma bolha pustulenta. Aquilo deixava uma
cicatriz. Era a vacina antivariólica. A primeira de todas. Moleque que
vivia descalço, estrepando o pé na rua ou nas estradas, precisava tomar a
vacina (injeção) antitetânica.
Naquela época, na minha infância, a expectativa de vida do
brasileiro era viver 45,5 anos. Meu avô morreu velho para caramba, 60 anos. À
medida que surgiram novas vacinas, implantaram rede de água e esgoto nas
cidades, a média foi aumentando. Hoje é 76,6, eu estou na lambujem, com 77
anos. Minha relação de vacinas, que carrego na carteira, é quilométrica.
Naquela época, ter cachorro era mais uma prática rural, E
ninguém ficava nesse agarramento com os animais. Os homens usavam os chutes
para enxotá-los, enquanto as mulheres tratavam-nos na vassourada. Eram todos
comedores de resto, nada de ração e outros exageros.
Nome de gente em cachorro era heresia. Merecia um sermão do
padre. Presente, Duque, Lola, Totó, Lorde, Pingo, Chico, Rex, Princesa eram os
nomes antigos. Bob, Fred, Billy, Mel, Belinha, Flora, Floquinho são os nomes
mais modernos.
Cachorro bravo era posto na corrente. Nada de centro de
zoonose, havia mesmo uma carrocinha da Prefeitura que recolhia os caninos de
rua, sem dono. Se deixasse escapar para a rua, o totó era laçado e posto na
carrocinha.
Enquanto hoje, há a caridade de resgatar cães abandonados,
com feiras públicas, na minha meninice, os cães eram recolhidos e mortos,
eutanásia geral. Um prazinho para pagar multa e retirar o cachorro.
A vida vai mudando conforme as novas realidades, se a gente
se preocupa tanto com os cães, certamente nos preocupamos com os humanos. Mas
há gente que se apega tanto ao cachorro porque se desiludiu com os humanos.
CACHORRO ORELHA
O Orelha era para ser mais um cachorro de rua (agora é
comunitário), um vira-lata morto, mas Deus escreve certo nas linhas tortas da
história, de repente virou um caso nacional. Vítima eloquente da violência
contra a vida. A indignação geral diante do exemplo de Orelha empoderou os
idealistas.
Tais fatos ocorreram em Santa Catarina, a UF (estado) mais
branco e o mais bolsonarista do Brasil. "Mera coincidência, Consa!",
disse meu amigo. Esse pessoal é arrogante. Qualquer aperto, foge para os
Estados Unidos. Agora, nem o Trump querem-nos por lá. Leia o noticiário
Nacional, caro leitor.







