AGENDA CULTURAL

20.2.24

Violência não constrói o amor

Presidente Lula na Cúpula da União Africana

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

"Então os covardes genocidas dizem que Lula é persona non grata em Israel. Lula não assassinou mais de 29 mil palestinos – a esmagadora maioria mulheres e crianças", disse ele. "A história acabará por julgar os genocidas como persona non grata para toda a humanidade" - Pepe Escobar, jornalista, correspondente internacional

Este croniqueiro de Araçatuba, interior paulista, se atreve a meter a sua colher de pauna pauta internacional, tentando esclarecer, embora nessa guerra ideológica vença quem tem paixão e não quem tenha razão. 

O presidente Lula não está contra os judeus, nem contra os israelitas, mas combate a ultradireita judaica e israelita. Há milhões  de judeus contra a guerra e não apoiam Netanyahu, que tenta a se manter no poder a qualquer custo. O custo maior quem paga são os palestinos.

Quem tem que pedir desculpas ao mundo e ser punido pelo genocídio praticado são os governantes de Israel. Lula não matou ninguém, apenas promove a paz e quer combater a fome no mundo. A ultradireita não é o mundo.

De retorno de uma missão humanitária no Oriente Médio, Raphael Pitti, médico francês, chefiando uma comitiva, experiente em guerras, afirmou nunca ter visto nada comparável à situação em Gaza. Ele acha que pode ser semelhante à do Gueto de Varsóvia”, onde 380 mil judeus foram amontoados pelos nazistas desde 1940, em condições de vida desumana.

 Quem apoia Netanyahu no Brasil? Os bolsonaristas, a ultradireita, em resumo, os golpistas. A luta é contra os mesmos adversários, que matam e torturam para conquistar o poder ou se manter nele. A Rede Globo quer mesmo é emparedar o Governo Lula para enfraquecê-lo e mandar na governança. 

De onde Lula gritou para o mundo? Não foi da Europa, nem dos Estados Unidos, mas da África, continente de pobres e negros, numa reunião da Cúpula de União Africana, com todos os seus presidentes, que também são contra Netanyahu. 

Benjamin Netanyahu tinha o maior medo de que uma liderança, com moral no mundo dissesse as verdades que Lula disse bem alto para os povos da Terra. O presidente brasileiro está arracando a máscara do líder ultradireitista de Israel.

Quem defenda os princípios pacíficos da ONU é Lula. Quem ultrapassa a linha vermelha construída pelo sangue do povo palestino é Benjamin Netanyahu. Este é a personanon grata da humanidade.

Um país de um povo que tanto sofreu o peso da crueldade praticada pelos nazistas, o governo de um povo tão sofrido não pode cometer as mesmas atrocidades. Precisa ser mesmo chamado de genocida, praticante de um massacre. Hamas cometeu atos terroristas com Israel, mas o povo palestinos não merece ser dizimado por isso. A violência não constrói o amor.  

18.2.24

Dentaduras não causam câncer - Alberto Consolaro

Dentaduras variam quanto a confecção ou manutenção e nenhuma delas tem qualquer relação como causa do câncer bucal

As células se renovam a todo instante, reparando os danos provocados na interação com o ambiente. Batemos, raspamos, sentamo-nos, pressionamos e exigimos fisicamente dos tecidos como na canela, pés e mãos, mas também na boca, nariz, olhos etc.

Os traumatismos não alteram genes, DNA e o metabolismo da proliferação celular. Quando se precisa de um tecido mais rude ou forte para uma função aumentada, ocorrem as respostas adaptativas como a hiperplasia, hipertrofia e metaplasia:

1.Hiperplasia é o aumento do número de células. Quando se usa muito as palmas e as plantas dos pés, aumenta-se a quantidade de células que produzem mais queratina e ficam mais resistentes.

2.Quando a célula não consegue mais proliferar, ela aumenta muito seu tamanho para compensar e suprir a necessidade do momento, como os músculos nos exercícios.

3.O traumatismo pode induzir a mudança da forma e função do tecido. Isto chama metaplasia, uma metamorfose na mesma linhagem tecidual. Se morder muito o lábio, pode aparecer uma mancha branca pelo excesso de queratina para suportar a ação mecânica aumentada.

O traumatismo não gera câncer, ao contrário do que se dizia (opinião) há mais de 60 anos, quando nem se sabia ao certo, como era o núcleo, DNA e os genes. Hoje, isto só tem valor histórico, e nem se fala mais nos centros desenvolvidos e menos ainda, nas publicações da OMS.

SEM CÂNCER

Bem antigamente chegou-se a dizer que os traumatismos das dentaduras provocavam câncer. Que próteses quebradas ou velhas também. Mas, na verdade, cientificamente, não é nada disto. Quando aparecia o câncer na boca, o paciente era fumante ou etilista, e quase sempre a lesão aparecia nas áreas em que a prótese não a protegia destes carcinógenos.

Debaixo da dentadura pode-se ter irritações inflamatórias por traumatismo devido a falta de adaptação de próteses desgastadas pelo uso prolongado, gerando hiperplasias reacionais. Depois de 2 anos, o ideal é refazer, pois desgasta o material e a boca se modifica com os anos.

Ainda debaixo da prótese, podemos ter micoses como a candidose crônica induzida por um fungo que aproveita a região com pouca luz, pouco oxigênio e restos alimentares para proliferarem: é tudo que precisam! O certo é higienizar e deixar a dentadura algumas horas por dia na água, deixando a mucosa “respirando”. A boca precisa descansar, já imaginou usar sapato 24h por dia. Inflama o pé, e a boca também!

SEM RELAÇÃO

Não há nenhum trabalho, em qualquer época ou tipo, que se evidenciou qualquer relação entre dentaduras, quebradas ou não, com o câncer bucal. É importante ressaltar que opinião não é ciência e nem a experiência pessoal. O achismo não tem lugar na ciência. Para ser ciência, tem que ser um trabalho publicado em revista científica conceituada, com metodologia e número de pacientes, controlados e sem opinião.

As causas do câncer bucal são tabaco (inclusive eletrônico), álcool (incluindo os de enxaguantes e todos os tipos de bebidas), HPV, raios solares, substâncias químicas usadas para clarear dentes sem proteger o seu contato com a mucosa bucal, produtos químicos de alimentos como herbicidas, inseticidas, conservantes, hormônios e outros produtos incorporados nos legumes, cereais, carnes etc.

A falta de higiene bucal, de manutenção das próteses com ou sem implantes e as restaurações quebradas, não são causas e nem facilitadoras para o aparecimento do câncer bucal. Vamos ser lógicos: a pessoa que não cuida dos dentes e da boca, é claro que não se importa com os vícios, com a escolha adequada de alimentos e muito menos ainda, com a proteção da mucosa bucal.

REFLEXÃO FINAL

Não dá para conscientizar a higiene da boca, cuidar dos dentes ou trocar a dentadura, com base no medo de ter câncer, pois a ciência não oferece nenhum fundamento para esta afirmação. Cada dia que passa, a média de idade dos pacientes com câncer bucal diminui, atingindo jovens com mais de 35 anos, bom estado dos dentes e da boca como um todo.

Lembrete: o medo afugenta as pessoas e não conscientiza ninguém; quem conscientiza é o conhecimento pleno sobre o assunto, o que nos aproxima da verdade sem mistérios ou ocultismos! 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br    

17.2.24

Beijo não é para qualquer um - Alberto Consolaro

Beijo seguro requer dois critérios: intimidade e seletividade!

Você sabe beijar na boca? Quem lhe disse isso? Como você aprendeu a beijar? O treinamento foi com pedra de gelo, laranja ou manga? E por que será que a maioria das pessoas tem vergonha de mostrar a língua? A língua é essencial no beijar a boca

Em programas milionários de TV, algumas perguntas muito óbvias não são respondidas e o candidato perde milhões. Rapidamente, como proprietários de uma língua e usuários de outras, quantos músculos tem a língua? Claro que vão perguntar para que isto serve e dizer que o importante é usá-la bem. Claro que não, quem conhece sabe usar muito melhor!

 No beijo, a língua usa seus 17 músculos fazendo uma dança de fibras de actina e miosina sob a mucosa macia e aveludada que representa um verdadeiro requinte biológico de superfície. A superfície da língua chega a ser irregular pelas milhares de papilas e sensores neurais que possui e, ao passar pela pele, pode dar a sensação de uma aspereza agridoce.

Se movimenta 23 a 34 músculos da face durante um beijo e outros 112 do corpo. Gasta-se até 100 calorias, afinal são 12 nervos acionados durante um beijo bem dado, quase que numa viagem celestial. Muitas pessoas preferem um beijo de boca a carícias feitas com as mãos, por que os lábios têm 100 a 200 vezes mais sensibilidade do que as pontas dos dedos.

Os lábios e a língua anatomicamente bem preservados são lindos e a maciez dos músculos são insubstituíveis. No beijo, os lábios são pressionados como se tivesse 12kg de peso sobre os seus tecidos no boca a boca. Deveríamos fazer exercícios labiais para deixá-los tumefatos, sedosos e brilhosos, sem flacidez e opacidade. Infelizmente, ninguém faz exercícios para os lábios e a língua.

Escrevamos na camiseta: beijar é viver! De vez em quando ainda se ouve dizer que depois do beijo, sentiu o coração saltando pelo peito afora, com 150 batimentos por minuto aumentando um litro de sangue a ser impulsionado por minuto para o resto do corpo. Beijar não é para qualquer um e já disseram que um beijo “daqueles” passa a sensação de que se está vivo ainda, usufruindo-se de todas as potencialidades. Seria um bom teste nos serviços de cardiologia!

Se não for o local mais sensível do corpo, a língua representa um dos mais ricos em terminações nervosas sensoriais. Ao beijar, nossas glândulas e tecidos liberam muitos mediadores ou hormônios que mudam toda a fisiologia naqueles mágicos instantes: adrenalina, dopamina, oxitocina, endorfina, serotonina, testosterona e outros agentes reacionais. Os anjos do amor fazem uma festa durante um beijo e no “céu da boca”, servem o néctar dos deuses. Na folia carnavalesca, um beijo de língua com maestria, mesmo sem ver direito a cara do outro, pode até fazer apaixonar. O primeiro beijo pode ser fatal!

REFLEXÃO FINAL: O LADO B

Sempre se tem o Lado B que significa o lado perigoso ou chato de alguma coisa. Também temos o “Lado B do Beijo”, pois com ele se pode adquirir até 1 bilhão de microrganismos de 300 espécies diferentes. São bactérias, vírus, parasitas e fungos misturados com saliva que forma uma gosma lubrificante, gostosa e viscosa que nos fazem esquecer totalmente o alerta do poeta Vinicius de Moraes em suas músicas: “... são demais os perigos desta vida, pra quem tem paixão”.

Esta saliva ou “gosma” é tão grudenta que parece ter glúten, pois pode ficar em nossa boca por até 3 dias depois, e às vezes, para matar a saudade, até queremos isto mesmo! Se tem muitas doenças que podem ser obtidas pelo beijo como o HPV, gripe, herpes, mononucleose, sífilis e outras.

Para nos protegermos do “Lado B do Beijo”, devemos seguir dois critérios:

1º). Intimidade: é beijar na boca e não o sexo convencional. Beijar na boca é dizer ao outro: vou correr todos os riscos e te beijar na parte mais contaminada de teu corpo que é a boca.

2º). Seletividade: antes de beijar pergunte a si mesmo, como deve ser a boca desta pessoa, vale a pena arriscar?

Se a resposta for um consciente sim, você está quase apaixonado e, se o beijo for bom demais, estarás completamente dominado pelo desejo de amar! E convenhamos: é bom demais! 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br


14.2.24

Itapura - ressurgiu das águas

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Domingo de carnaval. Fui a Itapura, município de São Paulo, região de Araçatuba, 4 mil habitantes. Passei um dia lá, dormi numa pousada. Itapura é tão quente quanto os municípios do Oeste Paulista.

Itapura significa em tupi-guarani "pedra que emerge das águas", o nome era uma predestinação. A cidade me chamava a atenção porque é um lugar (ainda não era município) que tem inserção histórica na época do império com a presença do Palácio do Imperador.

Na verdade, o imperador nunca esteve lá, mas, como antigamente não havia quem desmentisse nada, as lendas eram criadas por narrativas inventadas pela elite. 

O palácio, um pequeno castelo, foi construído em 1858, durante a Guerra do Paraguai. Era uma residência do comando naval da marinha brasileira. 

Nessa época não havia trem, nem estradas pelos sertões do Rio Feio (Aguapeí), a região era habitada pelos índios caingangues. Os militares para a Guerra do Paraguai chegaram lá por via fluvial, pois Itapura fica na foz do rio Tietê, despejando águas no rio Paraná. 

Itapura é um salto que desapareceu e uma cidade que ressurgiu com o represamento de águas que abastecem as barragens de Jupiá e de Ilha Solteira, segundo o repórter fotográfico Diego Gazola. Salto de Itapura e salto de Avanhandava tiveram o mesmo fim com as construções de hidrelétricas. As gerações atuais nem sabem disso. 

A nova cidade surgiu desnorteada, sem patrimônio histórico, pois a estação de ferro e as casas desapareceram da paisagem então transformada. O desvio ferroviário de Lussanvira chegava até Itapura, beirando o rio Tietê.

A única coisa que sobrou da antiga cidade inundada foi o Palácio do Imperador, que era uma residência do Comandante do Destacamento Naval. 

Outro aspecto que me chamou atenção:  em 2022, Lula da Silva (candidato a presidente do PT) e Fernando Haddad (candidato a governador do Estado de São Paulo) tiveram 70% dos votos de Itapura, contrariando a tendência paulista. A Câmara Municipal possui dois vereadores do Partido dos Trabalhadores, sendo uma mulher. 

Ao chegar em Itapura, o grande recepcionista foi o João da Padaria em sua lanchonete (ou quiosque) na prainha. Ele é  vereador e presidente da Câmara. 

Erroneamente a prefeitura não promoveu carnaval em 2024, possuindo infraestrutura para tal, sendo Itapura uma cidade turística. Uma população tão acolhedora como a itapurense precisa eleger um prefeito (ou prefeita) em 2024 que desenvolva a vocação turística do município.     

12.2.24

O carnaval - a subversão da ordem - Manuel Orlando Pina

 

Carnaval de rua volta com tudo e deixa gostinho de quero mais em Araçatuba, 2024 

1

O Carnaval é a festa mais popular do Brasil. De fato, não conheço nenhuma festa em qualquer parte do mundo que canalize tanta energia durante quatro ou cinco dias. Como dizem, tudo termina na quarta-feira e a partir daí a contrição, até à Páscoa, 47 dias de sacrifício em não comer carne, assim mandou por séculos a Igreja Católica Romana.

2

Dizem que quem trouxe essa festa de “Carnis Levale” para o Brasil foram os portugueses a partir do século XVI, que lhe chamavam “Entrudo”. Pois, se não fossem os portugueses, quem seria? Não consta que os índios conhecessem o Carnaval. Mas não foram os portugueses que inventaram o desfile das Escolas de Samba. Isso parece que foram os clubes de futebol do Rio de Janeiro, lá pelos anos 20 ou 30 do século passado.

3

Mas se o cristianismo, pela mão da Igreja Romana é o herdeiro dessa festa da subversão da ordem, isso quer dizer que havia festividades pagãs semelhantes. Não só havia, como se perdem no tempo em termos de antiguidade. Parece que a evidência mais antiga vem da Mesopotâmia, Babilônia, mas estendeu-se pelas outras civilizações, a grega e a romana.

4

Na Babilônia era a festa das Saceias. Nessa festa um prisioneiro assumia o lugar do rei, agia como rei, governava como rei, durante cinco dias. No final da festa era morto.

Algo parecido com as festas católicas do Espírito Santo, ainda hoje realizadas nos Açores e alguns locais do Brasil, em que um prisioneiro, ou um menino, assumia a condição de rei e presidia à mesa farta de comida para distribuir pelos mais pobres. Era costume assar um boi inteiro.

5

Na Grécia e em Roma eram as festas de Dioniso e Baco, em que se bebia vinho, se dançava e se usavam máscaras para representar outras entidades, que não aquelas que ali estavam. Na Grécia antiga, nas peças de teatro, conhecidas como “Tragédias e Comédias”, todos os atores representavam usando máscaras, para que a sua identidade fosse irreconhecível e a personagem fosse a que a máscara representava. Os atores eram só masculinos.

6

As máscaras têm sido usadas até aos dias de hoje durante esta época festiva. O Carnaval de Veneza é o exemplo mais eloquente sobre esse costume de usar máscaras para, supostamente, esconder a sua verdadeira identidade. Evidentemente que não escondia, mas dava ao usuário essa sensação.

Durante a Idade Média era frequente o uso de máscaras em bailes elegantes, um disfarce para as loucuras que elas protegiam.

 

7

O imenso sucesso da festa carnavalesca no Brasil, pode ter a ver com as constantes crises psicossociais que o país tem atravessado, com o profundo desequilíbrio da população e outros fatores de natureza cultural. Segundo a psicologia, quanto mais um país sofre mais necessidade tem dessa folia, desse esquecimento das agruras da vida.

*Manuel Orlando Pina, escritor português, residente em Araçatuba e membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Araçatuba

7.2.24

Serelepe lepe, Almir Sater

 

Virada Cultural de 2013 - Araçatuba - Praça Getúlio Vargas

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Quem tem o apelido de "serelepe" é hiperativo, moleque arteiro. "Esse menino é um serelepe" dizem os adultos. Assim deve ter acontecido com Marquinho Serelepe, locutor e gerente das rádios do Grupo Thathi em Araçatuba (Nova Brasil e Cultura FM 95,5).

Serelepe é um esquilo, conhecido também por caxinguelê. Por ser esperto, irrequieto, passou a ser apelido de muita gente. Em Araçatuba, temos o Marquinho Serelepe por iniciativa de Osmar Hilário. O rapaz repórter era rápido em dar informações. 

Marco Antônio Ferreira (Serelepe), Irmão do Carlos Alberto Ferreira (Tilim), Luís Clóvis Ferreira (político de Sumaré), todos filhos da Dona Lola, ex-moradores do Jardim Guanabara, Araçatuba. Há outros irmãos, o pai, mas conheci só uma parte da família. Dona Lola era líder comunitária da igreja católica.  

Serelepe só não foi locutor de serviço de alto falante, mas de quermesse com certeza. Mas hoje, o cara é gerente, doutor, doutor advogado...

Quando em Araçatuba existia Virada Cultural, com artistas famosos fazendo megashows em praças públicos para ricos e pobres, e eu era o secretário municipal de Cultura, Marquinho Serelepe foi contratado para apresentar o megashow do Almir Sater na praça Getúlio Vargas.

Pá de cá, pá de lá. Chegou o dia. O artista demorou quase dois dias para afinar a viola, porque ele é exigente. Serelepe subiu ao palco, conversou com Almir Sater, pediu as coordenadas e se afastou, foi quando Marquinho exerceu a natureza de seu apelido, aconteceu a fatalidade: tropeçou na viola, e o instrumento saiu do suporte e tombou. Nem vi a cara do violeiro. Até hoje Serelepe nega que tenha sido o autor do tropeção. 

Não saíram pescoções, nem qualquer outro tipo de violência, apenas alguns resmungos. Era aquela viola de estimação, feita pelo melhor luthier, mas não quebrou nada. Almir Sater, com sua paciência, reafinou a viola. 

Negra Li e Marquinho Serelepe - Virada Cultural de 2013

Depois de alguns anos, contei tal fato numa roda de radialistas, porque na época o desastre de Serelepe ficou debaixo de um quieto. Houve um abafa. Correram até ele para lhe tirar o sarro. E nisso tudo fui autorizado a fazer a crônica sobre o fato. A língua dele é mais comprida do que a minha. Os vereadores de Araçatuba são testemunhas disso.  

Serelepe lepe, viola no chão, show muito bom. Almir Sater nunca tocou com tanta paixão. Com o tombo, a viola teve suas cordas mais alinhadas, as músicas ficaram mais bonitas. 

   

31.1.24

Usar mais o português

 

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Há uma propaganda radiofônica de empreendimento imobiliário em Araçatuba que parece ser norte-americana, quase tudo em inglês, no final aparece o pobre português: Construtora Ferreira. 

Ouço isso na rádio Nova Brasil que só toca música brasileira. Aí vem o anúncio que não quer saber nada de Brasil. Deve ser produto de alguma agência de publicidade.

Está certo que nosso idioma está em sexto lugar entre os mais falados no mundo, mas não precisa esculachar tanto com ele, afinal é o programa de pensar do nosso cérebro, de nosso povo.

Abel Ferreira, típico português classe média, não usa estrangeirismo em suas entrevistas. Lá em Portugal, como não é um país construído pela miscigenação, na hora de registrar pessoas, até os nomes estrangeiros são censurados. Não queremos isso, afinal o Brasil é formado por três raças e muitas nacionalidades.  

Dizem os teóricos que os ideogramas orientais determinaram a forma de pensar daquele povo. O Japão importa palavras inglesas, mas elas são adaptadas à pronúncia do idioma japonês. Importar palavras é uma atitude inteligente; impatriótico é trazer a palavra estrangeira com a mesma ortografia do idioma exportador: marketing, show, impeachment, workshop, briefing, coach, approach, CEO, commodity, deadline, feedback  e muitas outras.

Eis a fala de uma reunião corporativa: 

Boa tarde, vocês trouxeram o briefing? Precisamos fazer um brainstorm para definir o tema do workshop com o coach. O CEO e o COO pediram para darmos feedback logo, pois o deadline do job está próximo. Não podemos decepcionar o board!” (Correio Braziliense)  "Se você ouvisse essas frases numa reunião de trabalho, entenderia tudo? O excesso de termos em inglês na comunicação corporativa tem se tornado desafio para muita gente; afinal, a maior parte da população brasileira não fala um idioma estrangeiro: na última edição do índice internacional de proficiência na língua inglesa da Education First (EF), o Brasil foi rebaixado e parou de fazer parte do grupo das 40 nações com melhor desempenho no idioma inglês." (Correio Braziliense)

Destruir nosso idioma é a primeira condição para atacar nossa cultura. Não é uma questão de ser nacionalista, mas de sobrevivência. A facilidade de tradutores digitais que temos hoje é uma forma das línguas (nações) enfrentarem a globalização (planeta Terra). Há também o esperanto que avança a passos lentos.   

Parece ironia, mas quem brecou o estrangeirismo há algumas décadas no Brasil, foram os aposentados do INSS, pois os caixas eletrônicos dos bancos brasileiros foram implantados em inglês. Imagine como foi a reação dos velhinhos, ficavam sem o pagamento, pois mal sabiam ler o português. Os bancos passaram os caixas eletrônicos para o idioma português e está até hoje.

Há brasileiros que não querem o Brasil desenvolvido com o jeito próprio, do seu povo, mas o país só pode ser chamado de nação de primeira linha se imitar o estrangeiro. Esse pessoal é gente que não ama o seu povo, portadora do complexo de vira-lata, estão preocupados com o neoliberalismo. 

Importar palavras é uma necessidade, mas adaptá-las ao nosso idioma também. O português não um é subidioma, e quem deve mais respeitá-lo são os profissionais da palavra (escritores, jornalistas, publicitários, produtores de conteúdo na internet). Afinal, a nossa ferramenta é a palavra, palavra da língua portuguesa.  

 

25.1.24

Quem vai desaparecer primeiro - Alberto Consolaro

Ministro de Tuvalu discursa na COP-26 com metade do corpo no mar que sobe e vai submergir o país inteiro em alguns anos
“Nunca pensei que isso aconteceria com a gente!” Nas tragédias, esta é a frase mais ouvida. O Brasil está sentindo os efeitos do aquecimento global e destruição da natureza. Sem a floresta amazônica preservada, vai mudar o clima do país, incluindo a região sul, com tempestades, ciclones, desertificação e muita destruição. E tem gente que não acredita nisto ainda?

A Austrália é o maior país do continente chamado Oceania. Os outros países são centenas de ilhas ao redor, incluindo a maravilhosa Nova Zelândia. São pequenos países incríveis e Tuvalu está entre eles com 8 ilhas habitadas, das 33 do seu arquipélago, com constantes inundações pelo aumento crescente do nível do mar. Em 50 anos, Tuvalu desaparecerá e será o primeiro a sumir do mapa pelo aquecimento global, embora não tenha poluído nada.

Os especialistas estimam que o nível do mar suba 59cm até 2100 e inúmeras ilhas e cidades costeiras simplesmente desaparecerão no mapa. A segunda a desaparecer será a cidade de Veneza, que “afunda” 10 centímetros por ano, seguida por outros países insulares como Ilhas Maldivas, Kiribati e Ilhas Seicheles. E no Brasil, qual cidade desaparecerá primeiro? Lembremos que São Luís, Florianópolis e Vitória são ilhas, sem contar que Recife, Salvador e Rio têm o mar dentro delas. Depois dirão: nunca pensei que aconteceria com a gente!

NOVA NAÇÃO?

Os 12 mil tuvaluanos já se preparam para perda total do terreno e, se mudarão para a Austrália, que os acolherarão. O governo está finalizando a digitalização de tudo sobre a vida, as pessoas e a cultura de Tuvalu, pois o país existirá apenas virtualmente. Sua capital é Funafuti e 92% da população tuvaluana fala a língua local e o inglês. Suas praias são lindas. O regime é uma monarquia parlamentarista e o rei é Charles da Inglaterra. Tuvalu foi colônia espanhola e britânica que em 1978 tornou-se independente e faz parte da Comunidade Britânica.

A principal renda do país é o aluguel do seu domínio na internet para emissoras de tv. Quem nunca ouviu sobre Tuvalu e nem sabe onde fica, já entrou em sites e e-mails que terminam com “tv”. Um exemplo é globo.tv, mas a maioria nem percebe. Outras fontes de renda são a emissão de selos, moedas e o aluguel da bandeira para os navios. A moeda é o dólar tuvaluano e australiano. Quando se padronizou as abreviaturas de países na internet, Tuvalu saiu beneficiada e aluga seu domínio “.tv” para o mundo inteiro.

Na Oceania, a quantidade de ilhas é enorme e a região passou também a ser conhecida como Polinésia que significa região de muitas ilhas. Os botocudos foram indígenas dizimados por ordem de D. João VI e sobraram apenas 30 crânios no Museu Nacional no Rio de Janeiro. Análises de DNA, extraído em seus dentes, revelaram que seus ancestrais são polinésios, a mesma região de Tuvalu. Alguns mineiros e o mais antigo esqueleto brasileiro chamado de Luzia, também tem os mesmos genes polinésios. Ou seja, somos um pouco tuvaluanos!

REFLEXÕES

Tuvalu vai ser a primeira nação digital com todas as suas características físicas e culturais registradas no mundo virtual. Em 2021, na COP-26, o representante do país discursou em um vídeo gravado dentro do mar com água pelos joelhos, mostrando os efeitos das mudanças climáticas no país. Haverá eleições, governos, passaporte e vida civil virtualmente, inclusive casamentos.

Estamos entrando na era das nações digitalizadas e sem territórios. Também teremos em breve as nações que nascerão digitais desde o início, sem uma história física anterior.

Nos preparemos para evitar o pior e não dizer depois que nunca pensei que isto aconteceria com a gente!  

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br

Camélias, símbolo de força e liberdade! - Alberto Consolaro

As camélias carregam uma simbologia muito forte no mundo

Para saber se é questionador, responda qual é a história que levou à escolha do seu nome? A maioria não sabe responder, mas pode trazer à tona histórias lindas, singelas, pitorescas e até reveladoras.

No meu bairro, todas as ruas têm nome de flores e a maioria nunca deve ter visto aquela flor que empresta o nome para localizar sua casa. As pessoas têm dificuldade de explicar o nome da sua rua, cidade e estado, mas ao procurar saber, se aprende muito!

CAMÉLIAS NO MUNDO

A camélia é uma flor emblemática de força, idealismo e liberdade. Ela pode durar vários dias depois de colhida, mas, se tocada, cobre-se de manchas escuras. As folhas, resistentes e brilhantes, são muito decorativas e serve de acompanhamento para outras flores em arranjos e buquês.

As camélias têm dezenas de espécies nativas nas florestas da Índia, Sudeste Asiático, China e Japão. Se apresentam em formas diversas nas cores brancas, vermelhas, rosadas ou raramente amarelas. Oferecer camélias significa uma paixão avassaladora, amor eterno e desejo ardente.

No Oriente, a camélia representa a feminilidade, sendo muito retratada nas artes decorativas. A planta foi levada para a Itália em 1739, pelo padre botânico Camellius (Georg Joseph Kamel), de cujo nome, saiu o da flor.

Alexandre Dumas Filho em 1848 publicou o famoso livro “A Dama das Camélias”, que narra o drama e o romance de uma cortesã por um rapaz da sociedade com todas as dificuldades que ela sofre até o leito de morte por esse amor. A obra foi inspirada no romance do escritor com a cortesã Marie Duplessis, contando-se com o fato de ser ele próprio, um filho extraconjugal de Alexandre Dumas. Em 1853, Giuseppe Verdi conheceu o sucesso mundial imediato com a ópera La Traviata, utilizando-se das camélias em sua trama.

Na França, a camélia foi imortalizada por Coco Chanel, que a usou como símbolo de sua arte, sempre entregando-a como um presente elegante para homens e mulheres, traduzindo assim a beleza e harmonia, mas especialmente a fidelidade e longevidade. Ela foi dona de uma das mais renomadas casas de alta costura da França desde 1916.

CAMÉLIAS E ABOLIÇÃO

No Brasil, as camélias se tornaram um símbolo do movimento abolicionista e quem usasse a flor na lapela ou a plantasse no seu jardim, estava a favor do movimento antiescravagista. Eram cultivadas no Quilombo do Leblon, localizado em uma chácara na zona sul que pertencia ao comerciante português José de Seixas Magalhães, onde os escravos fugitivos cultivavam estas flores para que levasse as “subversivas” camélias para a Princesa Isabel, com as quais adornava seus vestidos.

Rui Barbosa foi uma das figuras mais influentes da época e plantou à frente de sua casa no Rio, três pés de camélias, que lá estão até hoje, agora um museu muito visitado da Fundação Casa de Rui Barbosa. No livro “As camélias do Leblon e a abolição da escravatura”, o historiador Eduardo Silva conta esta linda história.

O simbolismo das camélias esteve presente na assinatura da Lei Áurea, quando o presidente da Confederação Abolicionista se aproximou da Princesa Isabel e lhe entregou um buquê de camélias artificiais. Em seguida, chegou às mãos da Princesa um outro buquê, agora de camélias naturais, vindas diretamente do Quilombo do Leblon. Rui Barbosa definiu esta cena como "A mais mimosa das oferendas populares".

REFLEXÃO FINAL

Conhecer e valorizar o significado e o simbolismo das coisas é abrir-se para novas experiências e saberes maravilhosos, mas, infelizmente, deixa-se de fazer alegando falta de tempo, ausência de hábito e até mesmo, comodismo! Gil e Caetano já cantaram lindamente “As camélias do quilombo do Leblon”, vale a pena ouvir esta música.

Na luta contra a discriminação pela cor da pele, violência contra a mulher e outros preconceitos, bem que se poderia resgatar as camélias como o símbolo unificado desta conscientização. Seria impactante! 

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br