AGENDA CULTURAL

28.10.26

Cara de bunda

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP 

 Disputa de eleição com dois turnos é tão emocionante quanto ao futebol em decisão de mata-mata. O perdedor fica com cara de bunda. Às vezes, o eleitor se chama internauta, e a braveza se manifesta em cada postagem.  

No sábado, antes da eleição, um aniversariante teve a coragem de fazer um churrasco. Havia bolsonarista de penca, mas pareceu um velório, ninguém tocou o assunto política para evitar briga. 

Depois da apuração, muitos bolsonaristas estão de luto, outra comparação que pode ser feita nessa luta entre Flávio e Lula. Deixei passar alguns dias para visitar o perdedor, dar aquela tosse e perguntar:

- A cabeça desinchou?

- Explica professor, disse o visitado, o Flávio é unanimidade na região e perde no país? 

Eu lhe disse que Araçatuba é uma cidade conservadora. Tempos atrás, houve uma eleição para senador que Suplicy (PT) ganhou em todo o estado de São Paulo, mas perdeu em Araçatuba. Entendeu? 

Na Noroeste do estado de São Paulo,  os pobres se classificam como ricos sem capital. Inventaram um nome bonito para os desempregados: empreendedores. Doméstica diarista é empreendedora, trabalha por conta.   

No barzinho onde sou habitué, este cronista e mais três bolsonaristas, foram tomar uma cerveja. Cheguei e logo foram perguntando:

-Veio fazer o quê?

Respondi-lhes desavergonhadamente, com todos meus implantes:

- Ver a cara de bunda de vocês!

Quase voaram para cima de mim, mas se contiveram. Ando abusando de meus 78 anos. 

FELICIDADE COMPLETA

Estou em estado de graça. Palmeiras está na final da Taça Libertadores, o Flamengo foi eliminado, fora do caminho palmeirense. O Lula ganhou no segundo turno e a namorada sem brigas.  

ADVERSÁRIO DE LULA. Estou chateado com a fuga do rapazinho de 45 anos, idade de meu filho caçula, que nunca fugiu de seus compromissos, não foi criado como filho de papai. Vencer na vida não é só ter dinheiro sobrando, mas ter também personalidade e caráter.   



27.10.26

O céu de Bibi Ferreira

 


Hélio Consolaro*

O CÉU DE BIBI FERREIRA baixou na cidade de Birigui por cinco dias no Teatro do Sesi.

Bibi Ferreira (1922–2019) foi uma renomada atriz, cantora, diretora e apresentadora brasileira, considerada a "Grande Dama" do teatro nacional. Nascida no Rio de Janeiro, ela construiu uma carreira artística de mais de 75 anos, brilhando em musicais icônicos e espetáculos marcantes.

Ela era filha de diretor e dramaturgo brasileiro Procópio Ferreira (João Procópio Ferreira, 1898–1979), um dos grandes pioneiros e responsáveis pela profissionalização do teatro no Brasil

O espetáculo “O céu de Bibi Ferreira” apresentado por cinco dias no Teatro do Sesi de Birigui foi realizado e produzido pela “Luar de Abril Produções”, sob a direção de produção de Guilherme Logullo.

Quatro lindas mulheres com vozes maravilhosas na montagem de um musical encantador. Precisei pedir adjetivos emprestados de uma cronista social para retratar o meu espanto diante do espetáculo.

​Diferente de uma biografia linear tradicional, o espetáculo utiliza uma estrutura poética para celebrar a artista. A dramaturgia costura canções em diversos idiomas, trechos de peças clássicas, relatos íntimos e reflexões profundas sobre o amor, a dedicação à arte e a força do feminino.

​​Texto de Gabriel Chalita, filósofo, que foi secretário de Educação do Estado de São Paulo, direção geral de Gustavo Barchilon,​direção musical arranjos de Carlos Bauzys​o, diretor de produção de Guilherme Logullo

​Elenco: O papel principal não é concentrado em uma única atriz; a montagem conta com um quarteto de talentosas intérpretes — Bárbara Sut, Carol Botelho, Fernanda Biancamano e Giulia Nadruz — que se revezam nas múltiplas facetas, fases da vida e personagens marcantes da homenageada.

​O espetáculo passou por importantes palcos e festivais brasileiros (como passagens de destaque no circuito carioca, gaúcho e paulista, incluindo temporada no Teatro do Sesi-SP / Centro Cultural Fiesp), cumprindo o papel vital de reapresentar a grandiosidade, a disciplina e o legado de Bibi Ferreira (1922-2019) para as novas gerações.

MÚSICAS CANTADAS NO ESPETÁCULO

“Hello, Dolly!" — de Jerry Herman (versão brasileira de Miguel Falabella)

"Conversa de Botequim" — de Noel Rosa e Vadico

"Night and Day" — de Cole Porter

"I've Got You Under My Skin" — de Cole Porter

"Júlia Florista" — de Joaquim Pimentel e Leonel Villar

"Milord" — de Marguerite Monnot e Georges Moustaki

"New York, New York" — de John Kander e Fred Ebb

"Carlos Gardel" — de Herivelto Martins e David Nasser

"Valsa de uma Cidade" — de Antônio Maria e Ismael Netto

"Eu Sei Que Vou Te Amar" — de Tom Jobim e Vinícius de Moraes

"Onde Anda Você" — de Vinícius de Moraes e Hermano Silva

"Basta Um Dia" — de Chico Buarque

"Gota d'Água" — de Chico Buarque

"Padam Padam" — de Norbert Glanzberg e Henri Contet

"Hymne à l'amour" — de Édith Piaf e Marguerite Monnot

"Sonho Impossível" — de Mitch Leigh, Chico Buarque e Ruy Guerra

"I Could Have Danced All Night" — de Frederick Loewe (versão brasileira de Claudio Botelho)

"My Favorite Things" — de Richard Rodgers (versão brasileira de Claudio Botelho)

"Non, Je Ne Regrette Rien" — de Charles Dumont e Michel Vaucaire

"Gracias a la Vida" — de Violeta Parra

"Por una Cabeza" — de Carlos Gardel

Grandes espetáculos, plateias regionais  

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba, Andradina, Penápolis e Itaperuna-RJ


A democracia tem que ser defendida na unha - Agência Pública

 

   Foto da equipe Agência Pública


2026 marca o fim da política como a conhecíamos antes. Eis nosso compromisso para seguir em frente

O resultado do segundo turno neste domingo, uma virada inédita do presidente Luís Inácio Lula da Silva, demonstra que a política, como a conhecíamos, acabou de vez.


O resultado foi fruto de uma mobilização cidadã como nunca se viu desde que as redes sociais se tornaram onipresentes na vida dos brasileiros. A campanha digital, mobilizada especialmente por meio de um canal no WhatsApp que concentrou 5% da população — 1 em cada 10 eleitores de Lula — demonstrou que, na era digital, a política se faz com mobilização e participação. Este engajamento conseguiu dominar a conversa digital, saiu das redes e foi para as conversas no bar, em filas de supermercado. Conseguiu superar o boicote descarado da Meta, Big Tech que tem maior controle sobre a esfera de debate público no Brasil — são 110 milhões de usuários no Facebook, 130 milhões no Instagram e 160 milhões no WhatsApp. Foi também a mobilização da sociedade civil que levou essa empresa a ser questionada pela ONU, intimada pelo TSE e investigada pelo Ministério Público Federal.   


Os jornalistas investigativos — em especial os de veículos independentes — trabalharam obstinadamente, incansavelmente. Do caso Dark Horse às ligações de Flávio com o Careca do INSS, foi graças ao trabalho de nossos colegas que o público foi informado sobre o passado do candidato do PL, fatos de interesse público fundamentais para o cidadão decidir seu voto. 


Aqui na Agência Pública, revelamos as suspeitas de corrupção e omissão nos hospitais federais do Rio que eram o “feudo” de Flávio Bolsonaro durante o governo do seu pai; detalhamos laços do amigo de Flávio, Willer Tomaz, com o Careca do INSS; levantamos o estilo de vida de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA, descobrimos uma empresa que Eduardo abriu com o passaporte Italiano no Bahrein, apuramos as medidas da Meta para prejudicar postagens da campanha de Lula. Mostramos como o assunto que mais afeta os brasileiros — a segurança pública — impacta nossas vidas. Revelamos mensagens inéditas que evidenciam como Daniel Vorcaro, do Banco Master, mantém uma relação umbilical com figuras da direita brasileira, e também da imprensa. Foi nosso jornalismo que revelou ao Brasil a história da professora Vânia de Souza Borges, que perdeu seu filho, Rafael Borges, para o vício em Bets, no especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets. No meio da campanha eleitoral, Vânia foi pessoalmente pedir ao presidente Lula a proibição das Bets – e foi atendida.  

 

Nosso trabalho resultou em ataques, intimidação e assédio digitais. Também enfrentamos o boicote da Meta — tanto pela redução do alcance do Instagram quanto pela censura descarada de pelo menos um post que denunciamos na véspera do segundo turno. Mesmo assim, as revelações que apuramos voaram: foram amplamente republicadas, embasaram episódios da série documental do Youtube Revelando, viraram postagens de influenciadores e memes. 


André Janones transformou uma de nossas matérias em uma “missão” do Canal Exército do Lula, comandando a tropa a pesquisar a frase “FLÁVIO BOLSONARO ESQUEMA PANDEMIA”. O primeiro resultado a aparecer foi a investigação da Agência Pública. No último domingo, antes da votação, no debate da TV Bandeirantes, o caso virou um questionamento ao candidato do PL em rede nacional. ⁠


Neste momento, a recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar a derrota e as denúncias de “golpe” por parte de nomes importantes da extrema direita vão fortalecer a narrativa de perseguição, de fraudes nas urnas e de uma suposta “ditadura”. Figuras como Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e Eduardo Bolsonaro já começaram a dizer que a ampliação do período de votação constitui “roubo”. Os contra-ataques à eleição popular serão fortalecidos, ainda, pelo controle do Senado e da Câmara Federal, onde o partido PL obteve a maior bancada desde 1990. É uma bancada empenhada em desconstruir avanços como a proibição das bets, o fim da escala 6 x 1, a proteção do meio ambiente e dos direitos dos indígenas e a regulação das Big Techs.    


O contexto pós-eleitoral se complica ainda mais porque o repuxo bolsonarista insere-se em um movimento global de forças antidemocráticas que querem matar justamente o tipo de mobilização cidadã que se viu no Brasil. Os EUA e seus aliados mais próximos no continente — como a Argentina de Milei — não reconheceram, até o momento, a eleição de Lula. 


Neste contexto, nosso jornalismo será ainda mais necessário. Nosso compromisso é seguir investindo no jornalismo investigativo, ampliar nossa presença no Youtube para participar cada vez mais do debate que ocorre em vídeos nas telas de todos os brasileiros, além de fortalecer as redes de colaboração internacionais que distribuem nossos conteúdos e ampliam a vigilância sobre a democracia brasileira. Sabemos que o jornalismo cada vez mais faz parte de uma disputa que não se esgota na votação. Defender a democracia é, neste novo contexto, uma tarefa cotidiana que continuará a impulsionar nosso trabalho ao lado da sociedade civil e de movimentos organizados.  


Há muito trabalho a ser feito. Vamos a ele. 


Fo




13.10.26

Sérgio Vaz: poeta da periferia


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP
 
Poesia não é rimar amor com flor, nela pode estar o salário a, fome, a rejeição, o abandono. Assim ensinava Ferreira Gullar. Sérgio Vaz foi além, pôs essa receita em prática dando voz aos moradores, ensinando-lhes a fazer versos a seu modo. Sendo a poesia um deles. A poesia desce do pedestal e beija os pé da comunidade.

Sérgio Vaz é um dos principais poetas, escritores e ativistas culturais do Brasil, precursor e expoente da literatura periférica e marginal. A formação da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) foi a grande ferramenta de ação.

Ele esteve em Araçatuba por dois eventos literários (Semanas da literatura) promovidos pela Secretaria Municipal de Cultural. 

Nascido em Ladainha (Minas Gerais) em 1964,  Sérgio Vaz mudou-se ainda criança para a periferia da Grande São Paulo, onde fixou raízes em Taboão da Serra e na Zona Sul da capital.


Poema: Temporal
A mulher
repleta de lama, chora.
O homem
feito de barro
desaba em lágrimas.
De aço mesmo,
só a vida -essa lâmina cega
que corta sempre do mesmo lado.

Trajetória do poeta:
Sérgio Vaz
  • Sarau da Cooperifa
  • : Cofundador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) em 2000. O projeto transformou um bar da Zona Sul de São Paulo em um polo cultural semanal que atrai centenas de pessoas para ler e ouvir poesia.
  • Semana de Arte Moderna da Periferia
  • : Idealizador do evento comunitário que celebra as produções artísticas locais.
  • Poesia Contra a Violência
  • : Projeto com o qual percorre escolas públicas levando debates e encontros poéticos para incentivar a leitura e a escrita com jovens estudantes.

Principais Obras

Após lançar seus primeiros livros de forma independente, publicou obras de destaque pela Global Editora:
  • Colecionador de Pedras (2007)
  • Cooperifa: Antropofagia Periférica (2008)
  • Literatura, Pão e Poesia (2011)
  • Flores de Alvenaria (2016)
  • Flores da Batalha (2023)

Estilo e reconhecimento


Sua poesia é caracterizada pela linguagem direta, urbana e engajada, retratando o cotidiano, as dores e a potência das quebradas brasileiras . Por sua atuação no fomento à cultura comunitária, recebeu diversos reconhecimentos, entre eles o prêmio Trip Transformadores e honrarias do UNICEF e do Ministério da Cultura.(Fonte Germini)