AGENDA CULTURAL

22.4.24

Escrever é vocação, treino, mas precisa de ajuda


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras

Às vezes, o internauta (cidadão ou leitor) gostaria de colaborar com a publicação de um livro de papel com uma pequena doação, mas não acha o caminho, não sabe como fazê-la. A editora da Academia Araçatubense de Letras vai ajudar Fátima Florentino, mas tem um custo.

Nestes tempos modernos, inventaram a vaquinha, cada um dá um pouco (via internet) e o escritor consegue realizar o seu sonho, mostrar a sua literatura. Outros artistas estão fazendo o mesmo para conseguir financiamento para seus projetos.    

Assim está fazendo Fátima Florentino, escritora, coordenadora do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras e da página MICROCONTO FÁTIMA FLORENTINO no Facebook. Uma pessoa que trabalha a favor da literatura, mas ainda não tem um livro publicado. Peço a sua doação a partir de R$10,00.

Entre na página da CATARSE.ME, PRESSIONANDO AQUI e colabore!

Conto com você!

Hélio Consolaro – professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras

17.4.24

Enchentes de Araçatuba: retirar a última pedra

 Jornal O Liberal 

Visão panorâmica - Jardim das Flores

*Hélio  Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Sou de uma época, inclusive fui vereador nela, em que a Lagoa das Flores era um trauma para a cidade de Araçatuba: inundações em todos os anos. A população do Jardim América aguardava a estação chuvosa com o coração na mão.  

Alguns prefeitos faziam ouvidos moucos, não ouviam o clamor do povo, outros tomavam parte do forféu, iam até lá ajudar a carregar os móveis das casas. Solução mesmo, nada.

Havia duas versões para as causas de tais enchentes.

VERSÃO RELIGIOSA (MÍTICA): a lagoa foi soterrada com os entulhos da demolição de dois templos da igreja católica: matriz Nossa Senhora Aparecida (centro) e capela São Benedito (bairro Santana). A enchente era interpretada como um castigo divino, enquanto houvesse na lagoa uma pedra, um tijolo dos escombros dos dois templos, haveria enchentes que começaram com o soterramento.

VERSÃO CIENTÍFICA: as lagoas são lugares da decantação das águas fluviais (das chuvas). O caboclo, homem da roça, com seus conhecimentos empíricos dizia que em lugar onde nasce taboa (uma planta do brejo), não se constrói porque é o espaço sagrado das águas. Mas o conhecimento dos engenheiros era soberbo, acreditar em caboclo! Entulho na lagoa, enchente nas casas.

Como resolver? A engenharia apresentava projetos caríssimos, que a Prefeitura não ia ter nunca. Não sei se os engenheiros queriam ganhar dinheiro ou era ignorância mesmo. E o problema era empurrado com a barriga, e o povo sofrendo com as enchentes. 

Até que de 2009-2016 fui secretário de Cultura de Araçatuba, administração de Cido Sério (era PT). Ele fazia uma administração compartilhada, com reuniões de todos os secretários às segundas-feiras, 8h. Com isso, todos tomavam ciência dos problemas da cidade em todas as pastas.

Na época das chuvas, a enchente deixava as reuniões tensas, prefeito bravo, secretário de obras fungando. 

Prefeito Cido Sério determinou que os escombros das igrejas fossem retirados com pás escavadeiras, máquinas grandes. Era para chegar até a última pedra.

Pronto. Nenhuma pedra das igrejas demolidas, mas as grandes chuvas ainda provocam enchentes, menores, mas prejudiciais.

Numa das reuniões de segunda-feira, dos secretários, prefeito Cido Sério determinou ao secretário de Obras (vou omitir o nome dele propositalmente) que instalasse uma draga junto à lagoa das Flores. Na hora que a água subisse demais, ligasse o aparelho para jogar a água fora da lagoa.

Secretário de Obras se negou a fazer isso: "Vou ser gozado por meus colegas engenheiros. Não vai dar resultados".

O prefeito Cido Sério estufou o pescoço e gritou:

- Se não fizer, está demitido a partir de amanhã!

A draga está funcionando até hoje. Não há mais enchentes na lagoa das Flores. E o engenheiro-secretário ficou com a cara no chão.

As duas versões explicaram o fato, cada uma de um jeito, mas com semelhanças. Tirar a última pedra foi um milagre, mas também fruto do raciocínio humano.

Sou pela ciência, mas se faz necessário incluir a tradição no rol dos conhecimentos humanos. Há a arte, a filosofia, a ciência, mas a tradição faz parte da estrutura cognitiva das pessoas.

Certamente, há casos pitorescos ocorridos nas administrações de outros prefeitos ou prefeitas, mas não presenciei tão de perto. 

O dia em que Marielle derrotou Arthur Lira - Marina Amaral - Apúbica

 


Em relação à manutenção da prisão, [voto] sim. Eu entendo que nós temos, sim, que dar uma resposta à independência desta Casa, mas não usando como escudo o mandante de uma morte de uma vereadora. Isso é suicídio.”

A fala do deputado Fausto Pinato (PP-SP) durante a votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antecipou o resultado que se veria depois no plenário da Câmara. Ao que tudo indica, o medo da reação da sociedade que finalmente vê a luz da Justiça no fim do túnel, falou mais forte em ano eleitoral do que a luta permanente por sobrepujar os outros poderes, travada pelo Congresso liderado por Arthur Lira (PP-AL).
O fato é que, depois de ter obtido o aval da CCJ (por 39 a 25), a votação apressada no plenário (com 30 minutos de duração, sem exposição de argumentos nem discursos anteriores), 277 dos 434 deputados presentes mantiveram a prisão, ordenada pelo STF, do colega Chiquinho Brazão, o mandante do assassinato de Marielle Franco de acordo com as investigações da Polícia Federal.
Uma derrota do presidente da Câmara (que, pelo regimento, não vota a não ser em caso de empate), já que seus aliados, como o deputado Elmar Nascimento (União-BA), apontado por ele como o favorito à sua sucessão, defenderam publicamente a soltura de Brazão.
Também fracassou a estratégia de se ausentar, defendida por outra parcela do centrão, para impedir o quórum mínimo de 257 parlamentares a favor da prisão. Quem faltou, acabou com a mesma pecha dos que votaram pela soltura do acusado de mandar matar Marielle. E com 20 votos a mais do que o necessário, Brazão continua na cadeia.
Até no partido de Lira, que desde o início trabalhou para retardar a decisão – o próprio Pinato foi responsável por um pedido de vista na CCJ que segurou a votação por mais de duas semanas –, houve mais votos favoráveis à prisão (18) do que contra (10), embora o PP tenha sido o campeão de abstenções (12 votos).
Só o PL de Jair Bolsonaro, apoiado na defesa da tese esdrúxula de avanço do STF sobre a imunidade parlamentar (abraçada também pelos aliados de Lira), alegou suposta falta de provas contra Brazão, votando em bloco para soltar o deputado fluminense. Mas para os bolsonaristas não há perda política, já que estão falando com o seu eleitorado mais fiel, que desde o início agiu para achincalhar a vítima, em estranha cumplicidade com os assassinos.
“Os deputados estão dizendo: ‘amanhã pode ser um de nós’. Só poderá ser uma de Vossas Excelências se estiver envolvido com crime, se estiver envolvido com a milícia, se estiver envolvido com homicídio, aí com certeza pode ser uma de Vossas Excelências. E talvez seja essa a preocupação dos deputados que não querem que esse processo siga adiante”, disse com todas as letras a deputada Erika Hilton (PSOL-SP).
Desde o início, Brazão e os outros acusados do crime, como revela claramente a delação de Ronnie Lessa, foram surpreendidos com a repercussão gigantesca dos assassinatos de Marielle e Anderson. Não imaginavam que a execução de uma vereadora, entre tantos políticos assassinados no país, uma mulher negra e LGBT, cria da Maré, como tantas outras vítimas do Estado, pudesse abalar muita gente no mundo todo. Grande equívoco.
Seis anos depois, a maioria dos deputados conhece o risco de proteger, pelo menos publicamente, o acusado de mando de um crime político contra uma mulher potente que se tornou símbolo do clamor da sociedade por justiça.
Sobre isso, aliás, aproveito para recomendar o episódio mais recente do podcast “Rádio Novelo Apresenta”, em que a assessora de imprensa de Marielle, Fernanda Chaves, vítima de tentativa de assassinato no mesmo crime, conta o impacto da tragédia em sua vida, desde o momento em que ouviu as rajadas que mataram sua amiga e companheira de política.
Reproduzo aqui o trecho final do segundo ato, “Todo dia é 14 de março”:
“Quando assassinaram ela, veio essa coisa, ‘Marielle Presente’, ‘Marielle vive’, ‘não vão calar’, eu me incomodava muito com isso. ‘Marielle não está presente, Marielle não vive, a minha amiga, a comadre, a madrinha da minha filha não está aqui, eu não estou comendo com ela, rindo com ela, sentindo o cheiro dela, ela não está aqui’”, conta Fernanda.
“E até isso foi ressignificando agora, e está mais ressignificado do que nunca. Porque quiseram calar a Marielle. Acabar com ela. Eles fizeram um cálculo muito errado de que esse seria mais um crime, ia se falar ali por uns dias, Marielle era uma pessoa pequena - nessa leitura, nessa análise muito errada deles - uma mulher da favela, ‘isso aí daqui a pouco tá baixo’”, diz.
“E esse foi um cálculo tão errado e a Marielle é tão grandona, que esses caras vão passar a vida ouvindo falar de Marielle. A Marielle vai atazanar essas pessoas até o último dia de suas vidas infelizes (...). E mais do que nunca o que eu mais amo é falar ‘Marielle presente’ na cara dessa gente. Porque não é só quem desejou, organizou, quem planejou esse assassinato. Tem figuras que se regozijam desse assassinato. Eles insistem em dizer que a Marielle acabou. Mas Marielle está na boca deles. Eles tentaram calar uma coisa que eles vão ter que ouvir pro resto da vida. Eu acho esse revide muito Marielle”, rebate Fernanda.
Mais uma vez foi o nome de Marielle, ao lado da palavra Justiça, que se tornou coro quando o final da votação foi anunciado na Câmara dos Deputados. Marielle presente!
Marina Amaral
Diretora Executiva da Agência Pública
marina@apublica.org

13.4.24

Imunidade pode ser comprada? - Alberto Consolaro

 

Nascemos com imunidade inata, mas a imunidade adaptativa é construída dia após dia.

 Não! Só pode ser construída. A palavra “imunidade” virou ferramenta de vendas e tudo “serve” para aumentá-la. Muito se promete para deixar a imunidade imbatível, mas se perguntar o que é imunidade, não saberão explicar de forma simples e prática. Nas conversas, parece que é uma entidade, alma, fada, divindade ou madrinha.

MANUTENÇÃO

Quando se nasce, temos os mecanismos de defesa prontos para ser usados imediatamente e o mais poderoso é a inflamação. A inflamação é imediata e benigna e, quase sempre, faz muito bem e nos deixa vivos. Pode se dizer que é uma imunidade inata, porque nascemos com ela, mas precisa de manutenção!

Algumas pessoas não gostam da inflamação talvez porque, equivocadamente, acham que é sinônimo de infecção. Para esclarecer: inflamação é mecanismo de defesa contra todas as agressões. Já infecção é o contato de microrganismos com o corpo, independente se vai produzir doença ou não.

Em alguns poucos órgãos, ela pode atrapalhar as funções normais, como no pulmão, quando faz o edema com seus líquidos atrapalharem a chegada do ar para que ocorra a troca dos gases oxigênio e gás carbônico, o que caracteriza a respiração. Por isto a pneumonia é perigosa.

Nos dentes, a inflamação também pode ser inconveniente, pois na inflamação da polpa dentária, dentro da cavidade central fechada do canal, o edema não tem para onde ir e os mediadores da dor ficam concentrados e em contato contínuo e direto com os filetes neurais. A dor é quase insuportável.

CONSTRUÇÃO

A vida é linda e permite-nos aprender a se defender a cada dia, ensinando ao corpo o que é ruim, estranho e agressivo, como é a interação diária com microrganismos. Cada vez que acontece isto pela primeira vez, o corpo sensibiliza células poderosas e produz substâncias, como os anticorpos, para destruir este microrganismo nos próximos contatos.

Para cada agressor com proteína, haverá uma resposta imunológica. Vamos aprendendo, e aos 20 anos de idade, teremos mais de mil respostas imunológicas específicas aprendidas e memorizadas. Esta é a imunidade adaptativa, aprendida e construída diariamente. As vacinas ensinam o corpo a ter a imunidade adaptativa específica que queremos, o que nos ajuda a ficarmos imunes.

MATÉRIAS-PRIMAS

Para tudo funcionar no corpo, precisa-se de energia na forma de ATP, como se fosse a eletricidade. Para esta energia ser gerada precisamos de glicose, aminoácidos, proteínas, lipídios, vitaminas e íons, que estão em uma alimentação saudável, sem que precisemos de suplementações. Estas matérias-primas de alimentos, ou de laboratórios, não lhe farão mal a saúde e serão eliminados quando em excesso. A imunidade é construída, não dá para comprar imunidade pronta em medicamentos! São nossas células que a constrói!

Produtos não aumentam a imunidade, pois são insumos para a produção de ATP se estiver faltando. Se um produto prometer melhorar, recuperar, propiciar ou ser fundamental para ter imunidade, desconfie, leia muito sobre em publicações científicas ou consulte profissionais de saúde comprometidos com a saúde dos pacientes e não com seus patrocinadores.

REFLEXÃO FINAL

Imunidade é a proteção frente aos agressores como as bactérias, vírus, fungos e parasitas. Um dos dois mecanismos mais eficientes, nascemos com ele, é a inflamação. O outro mecanismo é aprendido por adaptação, é o sistema imunológico, incluindo-se a proteção oferecida contra o câncer. Todos os dias temos células atípicas geradas nos trilhões de mitoses e que são eliminadas pelo sistema imunológico.

A imunidade depende de nós: a alegria de viver, o otimismo e a gratidão nos levam a bons hábitos como alimentação adequada, atividades físicas e mentalidade tranquila. As decisões para se chegar a iso na vida desde cedo, vem do interior de cada um e é aprendido, mas precisa-se de coragem para mudar a realidade individual.  

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br   


Aumento súbito do lábio: iatrogenia? - Alberto Consolaro

Aumento súbito do lábio pelo edema angioneurótico


Não é comum, mas não é raro. De repente, o lábio incha quase subitamente de forma assimétrica com a pele e mucosa com superfícies preservadas. Fica desconfortável levemente dolorida, mas sem dor e sem coceira. Pode acontecer também nas pálpebras, úvula e língua, além de outras áreas, como mãos, pés e órgãos genitais.

O susto é grande, pois em poucas horas o volume é impactante. Se não tem história familiar da doença, o diagnóstico quase sempre deve ser edema angioneurótico adquirido, mas recebe outros nomes como angioedema ou edema de Quincke. Há casos familiares ou edema angioneurótico hereditário.

Com as mucosas da boca, orofaringe e vias áreas acometidas, ao inspirar o paciente pode emitir um som ofegante na respiração e, nestes casos, se deve procurar um serviço médico de urgência, para evitar-se obstrução total. Se a mucosa afetada for a do aparelho digestivo, o seu edema pode levar a náuseas, vômitos e cólicas.

CAUSAS

O edema angioneurótico não é alergia ou processo alérgico e foi nominado “angioneurótico” por ter sido descrito pela primeira vez em pacientes com transtornos psicológicos ou psiquiátricos em 1882, por Heinrich Quincke, mas esta relação não existe!

Ele é uma manifestação esporádica de uma deficiência de inibidor da bradicinina, um mediador inflamatório que induz o edema. A inflamação é mecanismo de defesa contra qualquer tipo de agressor e forma edema ou inchaço. Quanto os tecidos são agredidos, desde um muito discreto traumatismo ou até uma cirurgia, vários mediadores são liberados e ficam ativos por minutos, mas logo são inibidos por outras substâncias. Desta forma, o organismo consegue controlar a intensidade de uma resposta inflamatória pelo edema.

Pode ocorrer após uma injeção de agulhas em tratamentos estéticos e odontológicos, manipulação da região para o tratamento dentário, uma mordida na região com microtraumatismos por alimentos cortantes, certos medicamentos a ser identificados para cada paciente, como os anti-hipertensivos. E os pacientes culpam imediatamente o profissional que fez o procedimento que o induziu. Até explicar ao paciente e aos demais profissionais que desconhecem o problema, leva-se tempo e muitos desgastes.

Em alguns casos, ocorrem após uma coceira mais forte, ou frente a exposição ao frio intenso. O estresse psicológico prévio a uma destas causas pode acentuar o edema como os períodos que antecedem procedimentos operatórios e dentários. Mas só ocorre em quem tem esse defeito adquirido ou herdado. 

CUIDADOS, PREVENÇÃO E TRATAMENTO

Se ao inspirar o paciente emitir um som ofegante na respiração se deve procurar um serviço médico de urgência, para evitar-se obstrução total. Se a mucosa afetada for a do aparelho digestivo, o seu edema pode levar a náuseas, vômitos e cólicas.

Pode acontecer em qualquer idade, mas 75% dos pacientes têm até 15 anos de idade. Os episódios podem ser recorrentes e imprevisíveis em qualquer parte. O pico de sintomas se dá 12 e 24 horas, podendo durar até cinco dias. A instalação do edema costuma ser lenta e gradual, e ocorre geralmente em torno de oito horas, embora no abdome e laringe, o angioedema pode instalar-se mais rapidamente.

Estima-se que 25% a 40% das crises de Edema Angioneurótico evoluem para óbito por asfixia, quando não tratadas. O edema de alças intestinais é frequente e incapacitante, e a dor abdominal pode ser a única manifestação durante a crise.

O angioedema hereditário não tem cura definitiva, mas há tratamento disponível para controle e prevenção das crises e suas consequências, pois pode ser fatal. O diagnóstico definitivo deve ser feito medindo se a quantidade do mediador inibidor da bradicinina no sangue e geralmente está diminuído. Para o diagnóstico diferencial é importante considerar que não tenha coceira ou urticária, nem dor aguda.

Na formação e no treinamento de profissionais se deve ensinar como diagnosticar, prevenir, tratar e se conduzir frente a um edema angioneurótico, especialmente quando se intervêm nos tecidos moles como na harmonização facial, cirurgias estéticas e correções de fissura labial. Deve-se ressaltar que existe terapia preventiva para as crises de Edema Angioneurótico a ser evitadas e que podem ser tomadas antes dos procedimentos operatórios a ser realizados.

REFLEXÕES FINAIS

As injeções labiais estéticas e de produtos na derme e submucosa, podem eventualmente induzir um edema angioneurótico que pode ser atribuído impropriamente como uma reação inflamatória e alérgica ao produto e ou à técnica aplicada. Na mídia isto é frequentemente relatado, e infelizmente, quase sempre, o paciente foi assistido de forma inapropriada. Quando o paciente não sabe ser portador da doença e boa parte dos profissionais da saúde a desconhecem, falham o diagnóstico e as abordagens preventivas e terapêuticas.

Medidas médicas terapêuticas medicamentosas de controle e ou de emergência devem ser tomadas com base no conhecimento da doença. O paciente deve ser esclarecido e o suporte médico-odontológico é essencial para que não se atribua como uma reação tóxica, alérgica e ou inflamatória do procedimento, do produto e/ou da técnica. Estudemos.   

Alberto Consolaro 

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br   

11.4.24

Pão e circo

Charges do Denny

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Circo e pão. Elementos fundamentais de um governo populista, que agrada o povo com pouco, demagogicamente. Circo é a diversão, pão o alimento. Se a vida tem os dois, precisa de mais o quê? 

Circo é uma casa de espetáculo. Passou a ter picadeiro há alguns séculos atrás. Diziam que ele iria sumir com o advento da televisão, mas persiste. Muitas duplas caipiras, como Tonico e Tinoco (não falo de sertanejas) começaram a sua carreira cantando nos circos.

O Coliseu, ícone de Roma, foi antes um grande circo para 150 mil pessoas, tão massivo como as novelas da Globo. Chamava-se Circus Maximus. Atualmente, há até lona de circo para alugar, basta querer brincar de circo.

Em Araçatuba, sempre aparece um circo, de vários níveis. Um chegou a falir no final da rua Pedro Janser. Quando são chiques, só a burguesia frequenta sua plateia. Até seus dirigentes têm carros de último tipo e se hospedam em hotéis. A luta de classe também está debaixo da lona. 

Atualmente, está entre nós o Circus, tamanho médio, instalado precariamente naquele terreno no início da rua Marcílio Dias. Circo é mesmo sinônimo de gambiarra.

Na vida real, segundo os vizinhos Fábio e Renata, o palhaço do atual circo é um sujeito chato. Descobriram isso quando os tripulantes foram comer em seu restaurante.    

Palhaço é ladrão de mulher, mas como um sujeito tão chato poderia conquistar as mulheres da cidade? Antigamente os circos eram a magia que chegavam às cidades do interior, elas estavam procurando mesmo a liberdade, um mundo diferente. Nem desconfiavam que o machismo também se manifesta no circo. 

Em Mirandópolis, aconteceu ao contrário, a diretora de escola Sandra Rombi, fugiu do circo (trapezista) para ser professora. Os dois lugares apresentam a mesma magia: divertir e ensinar. Certamente, ela não era uma acrobata epilética.

Outro dia, nas imediações da lona, em Araçatuba, vi uma mãe descer do carro com três crianças. Levava-as ao circo como se estivesse indo à missa, ensinava o caminho que a sua mãe certamente a ensinou quando pequena. Era um rito. Tais crianças farão mesmo com seus filhos. Com essa tradição, o circo não vai morrer nunca. 

Aproveito esta crônica para transmitir uma reivindicação do mundo circense: as prefeituras precisam ter terreno reservado aos circos em seus municípios, com toda infraestrutura para que se instalem com dignidade. Afinal, palhaçada acontece em qualquer lugar, até nas câmaras municipais.  

9.4.24

Aldo Campos será objeto de palestra

 

Por Caroline Franciele.- jornalista e escritora

Evento faz parte do projeto “Literatura Local”que visa lembrar a contribuição literária e social de autores da região.

O Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras apresentará na próxima terça-feira (09/04) uma palestra sobre o poeta e ex-vereador Aldo Campos. O evento acontecerá na sede da Academia, na rua Joaquim Nabuco, n° 210, Centro, próximo ao Terminal Rodoviário Urbano. O início da reunião está marcado para as 19h30. O palestrante da noite será Hélio Consolaro, escritor, cronista, jornalista e professor. O evento é gratuito e aberto para toda a comunidade.

A palestra faz parte do circuito de eventos que tem como objetivo retratar a vida e história de autores locais. Célio Pinheiro e Éddio Castanheira já foram objeto de estudo. Aldo Campos, Lúcia Milani Piantino, Lourival Lautenschkager e Maurício do Vale Aguiar serão os próximos a serem estudados.

Aldo Campos é patrono da cadeira 18 da Academia Araçatubense de Letras, escolhido em 1997 pelo então recém-empossado Hélio Consolaro. Aldo Campos tem nome de rua em Araçatuba, foi advogado, locutor da Rádio Cultura e vereador. Além disso, escrevia poemas. 

O Grupo Experimental é uma iniciativa que procura reunir poetas, escritores, jornalistas, atrizes, atores, artesãos e todos os que se identificam com o mundo da escrita, promovendo reuniões de forma democrática para o compartilhamento do conhecimento. Atualmente, está sob a coordenação de Fátima Florentino.

A Academia Araçatubense de Letras é um projeto local, que atua há mais de 30 anos para promover a literatura e o conhecimento para a comunidadel. Dentre seus fundadores, destacam-se Célio Pinheiro,  Acyr Lima de Castro, Almir Jorge Boldstein, Marilurdes Campezi, Solange Augusta de Castro.

Além de atuar em Araçatuba, a Academia apadrinhou a iniciativa de academias regionais, como a Academia Penapolense de Letras, tendo vários acadêmicos presentes em sua fundação e inauguração.

Serviços

Local do evento: Academia Araçatubense de Letras. Endereço: Rua Joaquim Nabuco, nº 210, Centro.

Início: 19h30.

Palestrante: Hélio Consolaro.

Tema: Vida e obra de Aldo Campos.

Evento gratuito e aberto para a comunidade. 

30.3.24

A arte e o turismo de cada cidade

 

Izulina Gomes Xavier

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Toda cidade, por menor que seja, tem pelo menos um artista, nem que seja de estilo primitivo, naif. Palavra de origem francesa que significa ingênuo. 

Frente da Casa da Izulina - Izu ART 

Os primitivistas são geralmente autoditadas, sem formação acadêmica, aprendem sozinhos e criam seu próprio estilo. Tais artistas passaram a ser valorizados após o Modernismo. 

Na visita a Corumbá-MS, o guia turístico nos levou  ao Izu Art, um museu que abriga obras artísticas da artista corumbaense Izulina Gomes Xavier. Como faleceu há a pouco tempo (16/11/2022) e o patrimônio foi doado à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, nem tudo está organizado a contento, mas vale a pena visitá-lo na rua Cuiabá, 558, fone: (67) 3231-2040.

Izulina Gomes Xavier faleceu com 97 anos, 16/11/2022; nasceu no Piauí, 18/02/1925 Veio para Corumbá-MS por causa das armas, pois seu marido veio trabalhar na fábrica de armamento. Artista plástica, escritora e doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Embora sendo uma artista primitivista, sua arte recebeu reconhecimento da universidade.

Santa Ceia - Uzulina Gomes Xavier

A Casa de Izulina Xavier (Izu Art) é um verdadeiro Centro Histórico Cultural de Corumbá. Vale a pena chegar até lá, quando visitar a cidade, caro leitor. 

IZULINA ESCRITORA

Ela foi membro da Academia Corumbaense de Letras, romancista, também se dedicava à arte de escultura, com trabalhos expostos em lugres públicos do Brasil e também do estrangeiro. 

ROMANCES 
10 anos de emoções (1971)
Um rapto na madrugada (1975)
Uma mulher antes e depois da operação plástica (1978)
Um grito no pantanal (1985)
Meu pequeno mundo (1988)
Amor de fronteira (1994)

HISTÓRIA DE CORDÉIS
A nudez de Anita (1984)
O vaqueiro (1986)
Maria pernas finas e desdentada (1986)
Adeus (1986)
Meu santinho de lata (1987)

CONTOS INFANTIS
Contos'- da vovó (1989)

PEÇAS TEATRAIS
Amor de fronteira
Delinquente 

BONITO NÃO TEM GENTE FEIA

Em Bonito-Ms, não há gente feia. Os feios e as feias foram expulsos de lá por decreto. Feios mesmos são os turistas chegando com seus cartões de crédito e pix.  

Com isso, quem mora em Bonito é bonito ou bonita, não existem bonitinhos, todos são bonitões ou bonitonas. Cada belezura! Nessa manhã visitamos a Praia da Paineira, Rio Formoso. É uma espécie da Praia Municipal de Araçatuba, ou Hot Planet. Antigo Country, por exemplo. Trata-se de propriedade particular, paga-se para entrar. Há lanchonetes e restaurantes. Nessa quinta-feira, 14/03/2024, para receber os araçatubenses, Bonito deu um Sol para cada um. O diabo foi embora, pois o inferno estava mais fresco. Valeu a pena.


27.3.24

Chão de Matogrosso

Quadro do artista Daltro

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Arçatuba-SP 

Aqui entre os paulistas, quase na divisa, nas rendas de São Paulo, tudo que vinha do estado vizinho não era muito valorizado. Começava pela carteira de motorista. Pulávamos a divisa para comprar CNH. Não era bem assim, mas dizia-se. Houve uma época que era só um Mato Grosso, depois, em 1977, surgiu o Mato Grosso do Sul. São Paulo era um mundo civilizado, e do lado de lá do rio Paraná era sertão.   

Outra lenda era que tudo por lá era resolvido no tiro. Um lugar onde alongavam-se bandidos. Onde predominava a lei do mais forte.

Viajei recentemente para lá para conhecer o Pantanal. Durante o trajeto de dois mil quilômetros (ida e volta) de ônibus, ouvi de alguns companheiros de viagem que mato-grossense é um povo preguiçoso, não gosta de trabalhar. Uma extensão da visão que têm do povo originário, pois lá em Mato Grosso se vê o índio na cara do povo. 

Nessa viagem, pensei que ia passar a mão na cabeça do jacaré. Que nada! Esse Pantanal genuíno não está disponível para turistas farofeiros. Lugares disponíveis para visitas, não mostram tudo. 

Entre os dois estados, MT e MS, há dois mundos culturais: o cuiabano e o pantaneiro. O sul-mato-grossense gosta de se lincar ao Pantanal.     

Posso dizer que depois de São Paulo, Mato Grosso do Sul é o estado que mais conheço no Brasil. Antes de ir para Rosana, quase trabalhei em Três Lagoas, não fosse uma autoridade educacional me fazer uma proposta indecente e eu ser um jovem incorruptível. 

Trabalhei numa escola particular de Araçatuba cuja coordenação funcionava  em Campo Grande; atualmente pertenço ao Rotary, cujo distrito é MS inteiro mais um trecho do Oeste Paulista. Então minhas visitas ao chão de Mato Grosso são amiúde. 

Para completar, meu filho fez (Campo Grande) e um de meus netos faz (Três Lagoas) graduação na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Piso sempre aquele o chão. 

Lá em Mato Grosso (os dois, Sul e Norte), a Guerra do Paraguai não acabou. Principalmente em Corumbá. Ladário (30 mil habitantes), colada a Corumbá, é uma cidade essencialmente militar.

Em 13 de junho de cada ano, eles comemoram o resgate de Corumbá das mãos do Paraguai, depois de dois anos de jugo. É feriado nesse dia. Por lá se sente a presença do Exército e da Marinha (por causa da fronteira feita de rios)

O Brasil é um em cada região. Se tudo der certo, meu próximo passo é conhecer a Região Norte do Brasil.     

17.3.24

Corumbá-Bolívia

 

Comércio na Bolívia
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Corumbá-MS.  Cidade longínqua, que nunca chega, este é o sentido de seu nome em tupi-guarani. Saímos de Bonito-MS com o busão com seus 24 passageiros, almoçamos em Miranda-MS, mas Corumbá nunca chegava. 

Capital do Pantanal. Título honorifico dado a Corumbá para quem queria ser capital do Estado do Pantanal possível no estado, em vez de Mato Grosso Sul, criado em 1977 e instalado em 1979. Uma manobra do ex-presidente Ernesto Geisel para que o seu partido, Arena, tivesse mais um estado para governar. A oposição chamava-se MDB.

Placa exposta na porta da suíte

Nesses três dias na cidade, percebi que a palavra fronteira foi pronunciada por todos os habitantes, já que se limita com a Bolívia e o Paraguai. Por essas bandas brasileiras, a fisionomia indígena está no rosto de seus habitantes, principalmente dos mais pobres.    

Durante os três dias em poitamos em Corumbá, nos hospedamos no Hotel Santa Mônica. Neste hotel, no quarto 606, o ex-presidente Jânio Quadros e sua esposa Dona Eloá, ficaram confinados por determinação dos militares por 120 dias (1968). Tal fato é apresentado com honra pela empresa hoteleira.

Defronte ao hotel, região central (rua Antônio Maria Coelho), há uma boca-de-fumo, ou loja de conveniência de pobre, cujos proprietários são gente dos povos originários. Lá, pedi assento e cerveja, liguei meu celular para assistir ao jogo Palmeiras e Ponte Preta. Todos me olharam com desconfiança, mas nem me incomodei. Foi lá, pelo Youtube, que vibrei pelos cinco gols do Verdão.

Colegas de viagem me chamaram para uma sessão de música ao vivo. Respondi que não: "tenho jogo do meu time". Assim vivi a alegria de uma vitória durante uma excursão. Fanático? Acho que sim.

Noutro dia, fomos pôr o pé em solo boliviano. Por duas coisas valeu a pena a locomoção: dizer que estive na Bolívia e bebi a cerveja Paceña, fabricada no país. Aquele trecho da fronteira parece mais um camelódromo. Chamariz para brasileiros pelo baixo preço, mas nem tanto, já foi o tempo do Shopping China. O Calçadão de Araçatuba oferece mais produtos chineses.

Conhecer o Brasil profundo, a pobreza de nossa América Latina é um dever. A Taça Libertadores nos ensinou muito de nossos vizinhos, mas ainda nos falta algo mais.

AQUÁRIO MUNICIPAL DE BONITO-MS

Estive com excursionistas visitando o Aquário de Bonito-MS. Fui conhecer de perto e vivos os peixes da região.

Pantanal não é um pântano, mas um bioma, que com a Amazônia e a Mata Atlântica, forma a natureza do Centro-Oeste brasileiro.

O aquário é um presente do município ao turista para que conheça os habitantes das águas pantaneiras. Ele é localizado no centro de Bonito – MS e é recheado de informações sobre as principais espécies de peixes da Serra da Bodoquena e do estado do Mato Grosso do Sul. Há até espécies híbridas criadas pelos cientistas. 


12.3.24

Crônicas de viagem

 

Fachada de loja de venda de maconha em  Juan Pedro Caballero, Paraguai

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Os antigos cronistas surgiram com as viagens marítimas, acompanhando as naus portuguesas pelos mares bravios. Pero Vaz de Caminha, por exemplo, escreveu a certidão de nascimento do Brasil por meio de uma carta, pois ele era o assessor de imprensa do rei de Portugal, Dom Manuel. Uma nau voltou com a carta, não havia internet.

Hoje, o que sobrou do antigo cronista é que ele é uma espécie de escritor de confiança de alguns leitores, escreve sobre tudo. Para ter assunto, viaja. Eu, por exemplo, gosto de participar de excursões organizadas em ônibus por maluco (ou maluca) qualquer, como o Joaquim Nunes. Mando meus textos por internet.

Adentrei ônibus leito para o Pantanal, região que ainda não conhecia, saindo de Araçatuba-SP. Cumprimentei meus futuros companheiros de viagem, passaríamos dez dias naquela nave terrestre.

Mal começava a viagem, quando ouvi uma senhora, bem ao banco lado, depois do corredor me dizer:

- O senhor se parece com o Hélio Consolaro.

- Não pareço, sou o próprio - respondi-lhe.

Ela se apresentou como Gersina Pereira do Nascimento, 69 anos, e que este cronista fazia parte da vida dela. Olhei, não era nenhuma ex-namorada.

-Como? - perguntei surpreso.

- O senhor atropelou com sua moto minha filha há muito tempo. Hoje, ela tem 40 anos. 

Realmente, tive motos. Consultei meus arquivos de memória, não achei tal desastre.

E continuou:

- Eu ia saindo com ela da Creche Santa Clara de Assis, segurando-a pela mão, quando escapou com sua vivacidade e avançou na frente de sua moto, dirigida por você. Não houve tempo de brecar o veículo, mas o senhor fez tudo, quase caiu, assim mesmo encostou nela. Com a queda, a Aline afundou um dente de leite. 

E continuou:

- Mas o dentista consultado disse que aquele dente seria expelido oportunamente e um outro viria. E assim aconteceu. Hoje, a Aline, uma mulher "guerreira", está com todos os dentes. 

Rimos. Recuperei a narrativa perdida. Uma história de final feliz, como aquela iniciada por Pero Vaz de Caminha, apesar dos erros de português. 

NÃO PRECISA VIAJAR MUITO

Para conhecer uma loja especializada na venda da maconha, é só sair de Ponta Porã atravessar a Linha Internacional e pôr o pé em Juan Pedro Caballero. A dona da loja é uma senhora bem apessoada. Todos os produtos derivados da cannabis estão expostos em vitrines. A própria erva também.

É possível não ser incomodado pela polícia. A avenida fronteira derruba todas as cercas. É proibido proibir. Por outros motivos (a erva-mate), Ponta Porã é chamada de Princesinha dos Ervais.