AGENDA CULTURAL

10.12.06

Na casa do dinheiro

Hélio Consolaro

Quando preciso ir a um banco, pegar senha e ficar esperando o atendimento num ambiente de ar condicionado e cadeiras fofas, conversar com algum atendente que fica atrás de uma mesa, me dá arrepio, emoções fortes: raiva. O meu mau humor transparece no rosto.

Não sei se estou mais exigente ou se é apenas saudosismo mesmo, mas em termos de atendimento, quando eu era office-boy, lembro-me dos lançamentos de cheques e depósitos que eram feitos à caneta numa ficha por um caixa no balcão. Aquilo, sim, era atendimento personalizado.

Se carioca não gosta de sinal fechado, paulista detesta esperar. Como bom paulista, quero tudo para ontem. Dizem os mais antigos que a modernidade mais complicou do que resolveu. Não sejamos tão cruéis e nem antiquados.

O sistema bancário cresceu, democratizou-se, surgiu o auto-atendimento, mas o atendimento presencial piorou. A modernidade beneficiou os banqueiros, mas ferrou os bancários e o cidadão comum que precisa cuidar pessoalmente de seus interesses, indo lá, conversando tête-à-tête. Como sempre, o avanço tecnológico no mundo do trabalho só beneficia as empresas.

Às vezes, o atendente não chama o próximo no painel eletrônico, conversa com outro funcionário descontraidamente, adianta serviço, vai tomar cafezinho ou buscar documentos. Ele está no direito dele, aquilo é a sua rotina, não pode se estressar, mas tal comportamento irrita o usuário que está de olhos compridos à espera de atendimento. Parece má vontade.

Então, depois de esperar mais de meia hora, sou atendido. Digo o que quero, e o atendente fica cutucando o computador: pá de cá, pá de lá, pede dados. Isso quando o sistema não está fora do ar.

Sem contar que o rapaz (ou a moça) durante o meu atendimento, foi chamado pelo telefone e resolveu problemas de três clientes. E eu lá, com aquela cara de tacho. Que grosseria!

Como é horrível esse negócio de o funcionário atender telefone durante a conversa com um cliente ou amigo mesmo. Devia ter funcionários designados somente para atendimento por telefone.

E essa falta de educação não acontece apenas nos bancos. Outro dia presenciei um diretor de escola conversando com pai de aluno. Ele interrompeu a conversa para atender ao telefone, deixando o sujeito em compasso de espera, com cara de bobo.

O detalhe no atendimento é que faz a diferença. Apesar de tanta tecnologia, continuamos carentes. Como é bom encontrar o sorriso, a delicadeza, o interesse do outro até na casa do dinheiro. E isso me faz lembrar as lições de minha mãe: a boa educação cabe em qualquer lugar.

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