AGENDA CULTURAL

5.2.26

Vida de cachorro

 Eduardo Kobra

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Vamos nos colocar na linha do tempo. Na minha infância, me lembro bem daquela caneta que esfregava em nosso antebraço, fazendo riscos na pele, e depois, às vezes, virava uma bolha pustulenta. Aquilo deixava uma cicatriz. Era a vacina antivariólica. A primeira de todas. Moleque que vivia descalço, estrepando o pé na rua ou nas estradas, precisava tomar a vacina (injeção) antitetânica. 

Naquela época, na minha infância, a expectativa de vida do brasileiro era viver 45,5 anos. Meu avô morreu velho para caramba, 60 anos. À medida que surgiram novas vacinas, implantaram rede de água e esgoto nas cidades, a média foi aumentando. Hoje é 76,6, eu estou na lambujem, com 77 anos. Minha relação de vacinas, que carrego na carteira, é quilométrica.

Naquela época, ter cachorro era mais uma prática rural, E ninguém ficava nesse agarramento com os animais. Os homens usavam os chutes para enxotá-los, enquanto as mulheres tratavam-nos na vassourada. Eram todos comedores de resto, nada de ração e outros exageros.

Nome de gente em cachorro era heresia. Merecia um sermão do padre. Presente, Duque, Lola, Totó, Lorde, Pingo, Chico, Rex, Princesa eram os nomes antigos. Bob, Fred, Billy, Mel, Belinha, Flora, Floquinho são os nomes mais modernos.    

Cachorro bravo era posto na corrente. Nada de centro de zoonose, havia mesmo uma carrocinha da Prefeitura que recolhia os caninos de rua, sem dono. Se deixasse escapar para a rua, o totó era laçado e posto na carrocinha. 

Enquanto hoje, há a caridade de resgatar cães abandonados, com feiras públicas, na minha meninice, os cães eram recolhidos  e mortos, eutanásia geral. Um prazinho para pagar multa e retirar o cachorro.

A vida vai mudando conforme as novas realidades, se a gente se preocupa tanto com os cães, certamente nos preocupamos com os humanos. Mas há gente que se apega tanto ao cachorro porque se desiludiu com os humanos.

CACHORRO ORELHA

O Orelha era para ser mais um cachorro de rua (agora é comunitário), um vira-lata morto, mas Deus escreve certo nas linhas tortas da história, de repente virou um caso nacional. Vítima eloquente da violência contra a vida. A indignação geral diante do exemplo de Orelha empoderou os idealistas.

Tais fatos ocorreram em Santa Catarina, a UF (estado) mais branco e o mais bolsonarista do Brasil. "Mera coincidência, Consa!", disse meu amigo. Esse pessoal é arrogante. Qualquer aperto, foge para os Estados Unidos. Agora, nem o Trump querem-nos por lá. Leia o noticiário Nacional, caro leitor. 


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