AGENDA CULTURAL

14.8.18

A fila anda: a velhice

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membros das academias de letras de Araçatuba-SP, Andradina-SP, Itaperuna-SP

Cada faixa etária tem suas características, suas necessidades, suas conversas. Viver cada peculiaridade é o segredo da vida. 

Escrevo crônicas há tanto tempo que me lembro do texto que registrei os meus 50 anos exatos, me tornando um cinquentão. Agora minha estrada está curta, à beira do abismo, vou completar 70. Tudo parece que foi ontem e vai acabar amanhã.

Nessa idade, gasta-se o tempo (e dinheiro) para permanecer vivo. Cuidar de si mesmo faz parte da rotina dos idosos. E está dando certo, porque a média de vida dos brasileiros passou de 46 para 76 anos porque o poder público também passou a cuidar de nós. Sem me esquecer de dizer que as farmácias agradecem.


Juca Chaves

Já tenho até turma de hidroginástica. Outro dia, um deles me falou que não aguentava ultrapassar 23h, dormia bem antes. Alguém disse:

- Você está parecendo velho de asilo!

Todos riram. Mas ter facilidade para dormir não é defeito, trata-se de uma virtude, porque há muitos velhos que se entopem de calmantes antes de ir para a cama. Essa inquietude, falta de sono, está ligada à inconformidade com a velhice. 

Asilo é também uma palavra polêmica, carregada de sentido negativo, que faz parte do mundo da terceira idade. Não é o lugar de abandonar o idoso, mas de cuidar dele. Hoje, o velho se autossustenta num asilo com sua aposentadoria. Há até os asilos com muito luxo.

Além disso, um velho rico, remediado, arruma até uma maria fraldão, querendo ter um filho dele para participar da herança ou viver de pensão. Se cuidar bem do velho, até compensa. Quem não gosta é o INSS.

Ou então os filhos ou netos ficam mordendo a magra aposentadoria do velho. Se for mulher, os problemas se agravam, mas será assunto de outras crônicas. 
Capa do livro

Antes de minha mãe chegar aos 92, achava que viver muito era um bom negócio. Agora, com ela nonagenária, não penso mais assim. Ela não tem mais amigas, dos 22 irmãos, só resta ela. Nem os bisnetos dão a atenção que ela merece. Isolou-se na sua longevidade. 

Há gente que rechaça a velhice com toda a sua força, se tornando, às vezes, ridículo. Quando falo de velho, sempre recomendo a audição da música "Sentir-se jovem", de Juca Chaves, humorista e cantor de modinhas. Clique aqui para ouvi-la. Apesar de falastrão, o artista expõe muitas verdades.

Para quem está entrando nos quarenta, aconselho a leitura do livro "Saber envelhecer", de Alfons Deecken, Editora Vozes (ou outro livro de mesmo tema). Não deixe chegar os cabelos brancos, leia este livro antes deles. Prepare-se com antecedência.

O drama de envelhecer e morrer é bem do indivíduo, na sua trajetória de existir, porque o Universo nem está aí com isso. A fila anda, o substituto já está pronto.


2 comentários:

Alice Mara Barbosa da Silva disse...

Perfeito amigo! Expressou com perfeição o que acontece conosco...

Unknown disse...

Gostei muito do texto Hélio. É a pura e simples verdade. Estamos em contagem regressiva. Mas muito vivos para fazermos o que gostamos e temos prazer.