AGENDA CULTURAL

27.11.14

A estátua e as filhas



Foto: Rafaela Viol Morita
No Facebook, veem-se muita besteira. Ele não cria a asneira, não. Apenas expõe as asneiras que estavam latentes nas pessoas. Mas também já aprendi muita coisa usando tal ferramenta. Ele é um meio, uma mídia democrática, onde muitos se enforcam na corda da liberdade.

Certo dia, o amigo Luiz Eduardo Mitidiero, pelo bate-papo do Facebook, me disse: 

- Já que a Secretaria Municipal de Cultura restaurou a estátua da  Vitória Alada da Samotrácia, que tal repôr a placa?


Michelle Rossi, jornalista, filha de Luciano Rossi, mora no Rio de Janeiro  
Assim fizemos. Nem sempre só as grandes obras chamam a atenção. O resultado desses pequenos gestos (restaurar e pôr a placa) foi fotografado por Rafaela Viol Morita, amiga de uma das filhas do autor (Michelle e Milena Rossi) da réplica de Luciano Rossi. Tais fatos foram mandadas a Michelle Rossi (Rio de Janeiro, jornalista) e a Milene Rossi, atual moradora nos Estados Unidos.   
Milene Rossi, Mimi Rossi, filha de Luciana, moradora de Nova Orleans - EUA
A Michelle entrou em contato comigo, apresentando mil agradecimentos. E combinamos reunir os dados do pai para deixá-los no Museu Histórico-Pedagógico Cândido Rondon. E se houver fotos significativas, reuni-las numa exposição.

BIOGRAFIA DE LUCIANO ROSSI

Nascido em 20 de outubro de 1950 em Amparo (SP), Luciano Rossi iniciou seus estudos em ciências ainda adolescente quando foi seminarista em sua cidade natal. Uma biblioteca vasta e muito tempo disponível para leitura foi a combinação que o introduziu às teorias clássicas, de vanguarda e consequentemente aos questionamentos acerca das coisas que passaram a ser rotina em sua vida e o impulsionaram a criar projetos para resolver alguns enigmas da ciência.
Depois do seminário, mudou-se para São Paulo a fim de ingressar em uma universidade. Cursou Economia na Universidade Mackenzie na capital paulista, mas não concluiu o curso. Casado com Maria Lúcia Rigamonti Rossi e com duas filhas, Michelle e Milene Rossi, Luciano gerenciou por vários anos os bancos Itaú e também ocupou cargos de gerência, mas em períodos menores nos Bancos Sudameris e Unibanco.
Paralelamente à criação das filhas, do casamento e das atividades no banco, ele desenvolvia seus projetos e assim patenteou na década de 1980 uma tecnologia em motores que utilizava ar comprimido como combustível (Instituto Nacional de Propriedade Industrial, número 7800431).

Sem conseguir apoio para comercializar a invenção, passou a investir em novos projetos; dentre eles, um programa de computador em inteligência artificial o que lhe atraiu a ingressar mais uma vez no universo acadêmico. Foi em Araçatuba (SP), cidade onde se estabeleceu na década de 1990, que Luciano concluiu o curso em Análise de Sistemas na Universidade Paulista (Unip) em 1997 aos 47 anos.

Teorizou sobre inteligência artificial utilizando não somente os códigos de softwares mas baseado em conceitos de ciências como filosofia, lógica e linguística. Com o projeto, ingressou no mestrado no Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) em 1998 onde passou um ano cumprindo disciplinas, mas optou por lançar-se à sorte nos Estados Unidos, seguindo recomendações de orientadores que imaginavam mais oportunidades naquele país para sua área de pesquisa à época.

Com uma vontade dilacerante em concretizar seus sonhos, fixou residência em New Orleans, no estado da Louisiana, onde morou por 10 anos. No entanto, a burocracia de imigração o impediu de avançar em seus estudos. Várias cartas foram enviadas a universidade brasileiras e estadunidenses, bem como institutos de pesquisa da área de informática sem obter êxito.

Ele pensava em um programa inteligente que atendesse às necessidades espontâneas da sociedade moderna, incluindo vários bancos de dados como um sistema integrado mundialmente com informações sobre pessoas desaparecidas, o que ajudaria a encontrá-las. Desenvolveu softwares e acumulou mais de 3 mil páginas com conceitos e simuladores do programa em inteligência artificial.

De volta ao Brasil, em 2008, já acometido por um câncer de pulmão – doença que lhe tiraria a vida no ano seguinte, estabeleceu-se em Campo Grande (MS). Em meio às fortes dores que sentia por conta da enfermidade ainda teve motivação para se apresentar à equipe do BATLAB – Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e continuar a desenvolver seus inventos. Acolhido com generosidade e respeito, Luciano passou seus últimos dias frequentando o laboratório que, sem dúvida, lhe trouxe o último sopro de vida.

Sempre municiado com um caderno e um lápis que carregava por onde ele andasse, Luciano pensou em várias iniciativas para deixar o mundo um pouco melhor, como um projeto de construção civil com sistema de encaixe para que democratizar o acesso à habitação. Altruísta, resumia seus projetos da seguinte forma; segundo suas próprias palavras: "Tenho muita fé. Apesar de tudo parecer tão impossível eu vou realizar tudo o que eu quero e preciso. Não é só para o meu bem, mas para o bem de todos de toda humanidade. É isso o que me mantém vivo".

Ainda em seu currículo está o livro "Pensamentos sem fronteiras" lançado em 1996 (Edição do Autor) onde escreveu ensaios sobre tecnologias, política, economia, astronomia e sociedade. Na obra, chega a representar vontade e consciência humanas, o universo, a capacidade de criação – entre outros, em plano cartesiano, utilizando-se de gráficos.

Escreveu vários artigos para jornais no interior do estado de São Paulo, quando morava em Araçatuba (SP) e durante sua estada em New Orleans, um romance que depois transformou em roteiro para cinema, chamado "Love in New Orleans".

Inquietante e apaixonado pela criação, também investiu nas artes plásticas e dentre suas obras expostas publicamente está uma réplica da escultura grega "Vitória de Samotrácia", no jardim da Biblioteca Municipal de Araçatuba (SP) que expressa o ímpeto de liberdade. Feita em tamanho real – aproximadamente 2 metros de altura, foi erguida com uma armação de ferro e esculpida por ele com cimento na década 1990 para ser doada ao município e atrair a atenção para a arte. A obra original é datada de 200 a.C e atualmente.está no Museu do Louvre, em Paris (França). Também pintou telas em acrílico e óleo que hoje pertencem à família.


Luciano Rossi faleceu em Campo Grande no dia 11 de junho de 2009, aos 59 anos, deixando aos que o conheceram a mensagem de que a ciência e as artes devem ser usadas como mecanismo de expressão, mas principalmente em benefício do próximo.

LER TAMBÉM:

   
Fotos registradas por Margareth Martins, em Paris, da entrada do Museu do Louvre, dezembro de 2014.




Um comentário:

Anônimo disse...

Enquanto lia esta página, parecia desfilar diante de minha visão aquele alguém que não se desanima ante as dificuldades que a todo instante surgem no seu cotidiano. E penso naqueles que fazem de tudo para destruir, aqueles com o olhar fixo na conquista a qualquer preço, não lhes importando quantos serão sacrificados. Ainda bem que o nosso incansável Consolaro está aí para nos mostrar que ainda existe quem acredita no progresso pacífico da humanidade, um consolo e uma esperança para as pessoas de bom senso e amantes da PAZ. Gabriel, Bié.