AGENDA CULTURAL

20.7.16

Rua Paes Leme, 288

A professora Eurides Esgalha Filó, com as mãos em meus ombros. Foto do último dia de aula do meu primeiro ano escolar, 1957, Grupo Escolar Francisca de Arruda Fernandes
Hélio Consolaro*

A mudança para a rua Paes Leme, 288, bairro Santana, Araçatuba, em 1961, foi uma transformação em minha vida. Era um tabaréu que queria estudar, se urbanizar, não queria ser mais chamado de caipira, só porque morava no sítio.

Bairro Santana era um bairro de pretos (escrevo pretos, porque era assim que chamávamos os negros naquela época), com muitos ferroviários, onde havia muitas gangues, era periferia, o bairro São José de hoje.

A minha vontade de estudar era uma influência de meu pai que não queria ser igual ao meu avô que lhe negou a oportunidade da estrada da escola. Assim, focado, partiu pra cima das dificuldades: vou estudar os filhos, custe o que custar. Os parentes zombavam: o Luís é doido!

Mudando para a cidade, passei a ter um endereço preciso, não era mais aquela referência vaga: sítio de meu tio, bairro Cafezópolis, por exemplo. Nem sabia, mas eu vinha para assumir a cidade.

A casa era uma edícula, com quintal minúsculo, com poço e fossa muito próximos, mas para quem fazia o “serviço” atrás das bananeiras, parecia um avanço. Todos dormindo num mesmo quarto. Nessa promiscuidade, nasceu meu irmão caçula, o único urbanoide da família. Eu me sentia um índio que havia perdido sua largueza.

Meu pai, sem profissão, apenas sabia plantar roça, cuidar de fazenda, ser retireiro. Aprendeu a mexer com madeira. Primeiro, fez gaiolas para granjas, depois cercas em fazendas e em seguida, currais.

Ele queria urbanizar a família, mas ele continuava rural. Ficava muito tempo fora de casa, fazendo suas “obras rurais”, voltando de mês em mês. Deixando minha mãe com os filhos e um fio de ferro, como instrumento pedagógico, naquela minúscula edícula da Rua Paes Leme, 288, onde moramos por 6 anos.

Morando lá, vendi bananas, era bananeiro, saindo com cesta pelo bairro ou então ia catar algodão, pegava o caminhão bem de manhãzinha. Assim, como filho mais velho,  defendia alguns trocados.
 
Capela São Benedito, defronte à edícula onde morei, na rua Paes Leme 288. Ela caiu juntamente com a Igreja Matriz da Praça Rui Barbosa. Sua sucedânea é a Paróquia do Santana, que de vez em quando alguem se lembra de que no nome há também São Benedito. Os negros foram excluídos
Quando vinha a crise, era uma carestia. Para defender a comida da família, meu pai, semianalfabeto, foi até corretor de imóveis, quando, para exercer a profissão, não precisava atender a tantas exigências. Para não viver nessa instabilidade econômica, fomos todos ser funcionários públicos na idade adulta, depois de concluir os estudos.

Apesar de paupérrimos, tínhamos três riquezas que ajudam muito os pobres a não se desintegrarem socialmente: uma família coesa, escola, uma igreja bem na frente da edícula, a Capela São Benedito, que além da catequese, oferecia a largueza do seu pátio para nossas brincadeiras, minhas e de meus irmãos. E um pouco mais abaixo, o Grupo Escolar Francisca de Arruda Fernandes.

Talvez, por isso, meus pais alugaram aquela edícula. O tripé do alicerce para subir uma nova casa estava sólido.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras
   



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