AGENDA CULTURAL

18.4.18

Ser preso dá prestígio

"O bispo Dom José Ronaldo, acusado de liderar um esquema de desvio de dízimo na Diocese de Formosa, no Entorno do Distrito Federal, deixou a cadeia após concessão de habeas corpus pela Justiça. Além dele, outros quatro clérigos e dois empresários foram soltos. Sorridentes, eles foram recebidos com festa por parentes e amigos, que entoavam cânticos religiosos na porta do presídio e deram uma salva de palmas quando houve a soltura." (Site noticioso de Araçatuba Regional Press)



Hélio Consolaro*

Se algum antilulista e antipetista estiver abismado com o vídeo da festa para comemorar a soltura do bispo de Formosa e seus sacerdotes, estado de Goiás, se prepare, porque ser preso hoje dá prestígio. "Esse negócio de prender grandões é só para inglês ver, cadeia mesmo é feita para pobre", pensa a maioria. 

Já vi a polícia ser apedrejada em Araçatuba porque estava prendendo "bandidos". Aliás, o mesmo ocorreu entre Jesus e Barrabás, não é mesmo. Quando Pôncio Pilatos gritou quem soltava, dava a liberdade, a população gritou que queria ver o Filho do Homem crucificado. Esse negócio é antigo.

Aliás, temos dois brasis. O primeiro é burocrático, cheio de leis, com a prevalência da meritocracia, farisaico, bem ao gosto da classe média, que se espelha mais na Suécia, nos países anglo-saxões. Esse é o meu lugar social. 

As classes alta e baixa possuem moral mais convergente, de colaboração. A primeira quer fazer a América, capitalizar-se cada vez mais; já os pobres vivem o sentimento de não pertencimento, são sempre excluídos, portanto, nada importa. Basta surgir a crise, que são os primeiros a serem atingidos. 

Pátria para os pobres é cantar o Hino Nacional quando as autoridades exigem e torcer para a seleção brasileira de futebol.
Meio arrefecido depois de perder por 7 a 1 da Alemanha.  Para os ricos, capital não tem pátria, com dinheiro vive-se bem em qualquer país. Espelham-se mais nos países latinos, principalmente Itália e Espanha.   

Buscando o livro de Mário de Andrade, Lula é o Macunaíma; Sérgio Moro é Venceslau Pietro Pietra. Para os intelectuais, sugiro a leitura dos livros de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Dante Moreira Leite. Eles discutem a formação do caráter do brasileiro.

Rouba mas faz, rouba mas distribui. Lula é acusado de ter roubado, mas no governo dele era cerveja e carne em todas as casas em finais de semana. 

Essa deve ser a lógica de Formosa-GO.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP   

2 comentários:

Gabriel Araujo dos Santos disse...

Quando o prezado Consa diz que Lula é o Macunaíma, deu-me um frio.Deu-me um frio diante do que li em algum lugar, que não mais me lembre onde, e tanto me chocou que copiei e guardei para meditar mais a fundo. Infelizmente não tenho a fonte. Eis o motivo da minha reação à sua crônica, em especial no que se refere ao Lula:

"Neste romance de 1928, o poeta modernista Mário de Andrade constrói um anti-herói aos moldes do povo brasileiro, Macunaíma é um herói sem caráter que saí de uma tribo amazônica para morar na cidade grande, símbolo de um povo que não encontrou a sua própria identidade. A obra é considerada por muitos críticos como um indianismo moderno além de ser escrita sob a ótica cômica, ela revela o multiculturalismo brasileiro".

Anônimo disse...

Ufa!!! Enfim, as mazelas estão justificadas.