AGENDA CULTURAL

15.1.26

Louríssima, de olhos azuis

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*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba

Às vezes, os fatos mais surpreendentes acontecem debaixo do nariz do cronista. Aí vou remoendo, interpretando para ver se no subtexto do fato há lições. Se houver o duplo sentido, vale a pena escrever uma crônica. Para o cronista, uma briga não é apenas uma briga.  

Eu estava numa casa noturna de luxo em Araçatuba (não frequento apenas o Belisco), quando ouvi as mulheres da mesa elogiarem um penteado afro de uma das garçonetes. Aqueles arranjos cheios de tranças. Realmente, era uma elegância de africanidade.

De repente, minha colega loiríssima e de olhos azuis, aquela que não devia fazer nenhuma pergunta porque nunca ia usar tal penteado:

- Isso pesa muito? 

- E o seu cabelo pesa? - devolveu a pergunta em forma de pergunta cortante.

Tais perguntas têm duas interpretações.  Sentido subentendido. "Isso pesa muito": ser negra é difícil? E você sendo branca, loira, o cabelo não deve pesar nada. O branco é o que manda: "E o seu cabelo pesa?".

Sentido literal, ao pé da letra: "Isso pesa muito?". Talvez a pergunta se devia a querer saber apenas uma informação, a loira de olhos azuis  quisesse presentear uma amiga afrodescendente. A garçonete não entende de como uma branquela quisesse tal informação, já que não usaria nunca o arranjo afro em sua cabeça. Foi mesmo bullying provocado por uma pergunta malfeita.  

Acredito que o motivo da briga foi o racismo de ambos os lados (ação e reação). Se não tivessem preguiça de conversar, teria sido um grande papo. O conflito não virou um bafão, mas entrou o dono do estabelecimento, foram lá para o escritório. Felizmente, houve pedido de desculpas e não deu polícia. 

Aos trancos e barrancos, o Brasil, o país da miscigenação, está encontrando o caminho da convivência na diversidade. Sai até pescoção, mas a realidade está melhorando.  

OS LENHADORES DE ARAÇATUBA
Há pessoas entre nós em Araçatuba que devem ser descendente dos pioneiros na derrubada das florestas (Mata Atlântica) quando matar índio e derrubar mata eram boas ações. No meu quarteirão, morreu Dona Ilma, uma das mais antigas moradoras. Sua casa era toda enfeitada, florida. Os filhos venderam-na, os novos moradores não deixou nem gramíneas. A casa está exposta ao sol. O casal de moradores atuais, idosos, já foi questionado de todos os jeitos, mas a casa é deles, portanto podem fazer o que quiser, até prejudicar a coletividade. É o extremo direito da propriedade privada.

Esta notícia da matança de árvores recém-plantadas num conjunto habitacional tem o mesmo espírito. Com certeza, nem sabem porque nasceram.

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