AGENDA CULTURAL

13.9.11

Bicho grilo ou bipolar

Hélio Consolaro*

Sempre digo que os artistas não se sentam na primeira fila de uma sala de aula enquanto estiverem nas escolas regulares, estão lá no fundão. Quem é excluído pela Educação, é acolhido pela Cultura. A turma do fundão revela talentos.

Não há ninguém normal, mas o artista é menos normal que os demais, eles são as cabeças que sobressaem entre a boiada no estradão. “Os tais sãos”, como os chamou Fernando Pessoa, são medíocres, não servem nem para personagem de narrativas, a não ser para que sejam ridicularizados. “O riso do melancólico é a expressão do escárnio  ante as ilusões alheias.”

Antigamente, os depressivos, tristonhos, os bichos grilos viviam entre nós, às vezes, chamados de gênios. A sua anormalidade produziam obras de arte, hoje, estão a ingerir remédios. Tudo começou com Freud, hoje são todos rotulados, cada um abraça o seu transtorno. “Árida vida a de quem vê demais porque não sabe fantasiar.”

Tenho um amigo que vive lendo livro de autoajuda para ter ânimo para viver. Segundo ele, já leu mais de 500, é a sua única leitura. Cada um escolhe a sua droga. Alguns vão buscá-las no consultório médico, outros a compram dos traficantes, muitos vão ingeri-la no boteco da esquina. O religioso entorpecido pelo fanatismo é um drogado.

A experiência de um bipolar: “Gosto imensamente de escrever e ‘filosofar’ sobre as coisas, e, penso eu, que o transtorno ajudou-me muito a conseguir ver algumas coisas.
Mas nem tudo é um mar de rosas, desgracei muitas relações por causa do transtorno, mas será algo que me terei de habituar, porque se há quem tenha os seus defeitos, eu tenho o meu. [Lembre-se da biografia de Pablo Picasso.]
Gosto de dizer tudo o que penso na altura, gosto de exagerar por vezes, gosto de rir, de chorar, de gritar. Sou eu primeiramente.”
Ele continua:
“Há uma alegria em conseguir ver ‘fora’ das normas, como vêem essas pessoas, e eu gosto. Daí recusar-me a ser medicado, a ir a psiquiatras. Prefiro encontrar-me em momentos de aflição. Procurar o equilíbrio perdido, ter forças para não ficar alienado. Custa, é verdade, mas faz-me sentir humano.”

Vivemos numa sociedade em que ser infeliz é proibido, todos precisam sorrir, nem que for um sorriso amarelo. Ser pessimista é um crime. Os escritores românticos não teriam escrito uma linha se naquela época houvesse uma farmácia na esquina. Quantos artistas plásticos e músicos reproduziram os desajustes.

Se qualquer febre incógnita é rotulada de virose, qualquer pessoa diferente é tachada hoje de bipolar. Basta ser meio doidinho. Maiakovisky dizia que se não fosse escritor, seria um assassino. Marcelino Freire escreve porque é feio, era rejeitado. Nos presídios, principalmente na Fundação Casa, estão cheios de hiperativos. Gente que não encontrou uma linguagem para manifestar a sua revolta, partiu para o crime, mostrando o seu interior com atitudes.  

Concluo com trecho de Maria Rita Kehl: “Quanto mais se sofistica a oferta de antidepressivos, mais a depressão se anuncia no horizonte como expressão privilegiada do mal-estar, a ameaçar a sociedades que se dedicam a ignorar o saber que ela contém.”

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Atualmente é secretário de Cultura de Araçatuba.

3 comentários:

jhamiltonbrito.blogspot.com disse...

Quando Deus , falhando em seu design, deu o báculo para o macaco e não para o homem, começou esta desgraceira toda. Tudo começa na falta de sexo. Assim, o melhor antidepressivo é o VIAGRA. Toma pra ver como a vida fica linda e maravilhosa.

Anônimo disse...

Muito bom.

Anna Himmel disse...

EU ERA DA TURMA DO FUNDÃO.ERA PÉSSIMA EM MATEMÁTICA.NÃO ERA NEM UM POUCO POPULAR E ERA A MENINA MAIS FEIA DA CLASSE.OU SEJA: HOJE EU SOU UM CISNE! ADOREI A POSTAGEM, HÉLIO!PARABÉNS!