AGENDA CULTURAL

15.11.11

Universitários maconheiros


Hélio Consolaro*

Participei do 4.º Manifesto Universitário da Consciência Total do Câncer Bucal, realizado pelo COB – Centro de Oncologia Bucal da Unesp-Odonto de Araçatuba. Lá estavam também os alunos do primeiro ano. Os rapazes com cara de mauricinhos; e as moças, de patricinhas. A universidade ainda é um porvir, sendo. Entusiasmo total.

No mesmo evento, os dois rapazes apresentadores do evento leram um manifesto, bem curto, contra a atitude dos colegas universitários da USP, que invadiram a reitoria porque o consumo de droga estava sendo reprimido no câmpus. Diziam-se mais construtivos.

Tudo isso me remete à minha limitada vida estudantil da década de 70 numa faculdade do interior, Penápolis, quando ainda lutávamos por um mundo melhor. Não sei se era a forma correta, se as propostas eram boas, mas éramos mais apocalípticos que integrados.

Os estudantes da Unesp foram mais integrados, bem comportados, de acordo com o “status quo”. Não estavam contestando nada e condenaram o protesto de seus colegas uspianos, em torno de 100 pessoas. Enquanto os milhares de estudantes da USP queriam mesmo a presença da Polícia Militar no câmpus.

Na década de 70, tínhamos um inimigo a combater: a ditadura militar; ideais a conquistar: democracia e socialismo. Na verdade, não sabíamos bem o que queríamos, mas aquela falta de liberdade era intolerável.

Hoje, está tudo muito livre. Não há inimigo, apenas os “Inimigos da HP”. A sociedade está multifacetada, a realidade fragmentada, então, cada um se agarra a um cipó nesse cipoal da diversidade. Até esse croniqueiro, já na porta de saída da vida, está meio cético, não acha nada por que lutar, meio contra esse negócio de construir um mundo melhor.    

Se eu fosse tomar partido, ficaria com os uspianos, pois são apocalípticos, como na década de 70. Um pouco de saudosismo de minha parte. Mas a atitude deles escandalizou a sociedade (ou ela foi manipulada pela mídia) que ainda prega a repressão como método de combate às drogas, apesar das evidências de que ele é inoperante, o consumo só aumenta a cada dia.

Eu gosto da radicalidade, pois faz a humanidade avançar, mas também concordo com Joaquim Nabuco, quando escreveu que os radicais são necessários para derrubar governos, porém, é impossível tê-los em qualquer governo.      

Nós, adultos, que temos nossos filhos e netos nas universidades brasileiras e por eles gastamos tanto, ficamos meio bestificados diante do alcoolismo (droga lícita) e das drogas ilícitas que invadem as escolas.

Por que consumimos tanta droga? Essa é a pergunta mais incômoda. Seria a busca de momentos felizes? Sair da mesmice do cotidiano? Veja quantos acidentes automobilísticos por causa do consumo de álcool por parte de motoristas...

Não tenho respostas, caro leitor, todavia, precisamos buscar saídas. Criminalizar o tráfico, expulsar traficantes das favelas não faz diminuir o consumo delas. Precisamos quebrar paradigmas e encontrar outros caminhos.   

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Atualmente é secretário da Cultura de Araçatuba-SP

2 comentários:

PIMENTA E POESIA (Maria Tereza) disse...

Secretário, como educadora, mãe e avó daqui a uns anos, me preocupo demais com a banalização dos vários tipos e conceitos de "droga" entre a juventude. Veja o que aconteceu outro dia em minha escola, bem diante dos meus olhos e de uma colega, que me chamaou pra ver e ouvir o diálogo de um grupo de crianças de 5 anos de idade: com as folhas caídas das árvores do pátio, durante o recreio, elas brincavam de "quebrar pedra pra vender". Era uma verdadeira linha de produção, onde cada criança tinha uma tarefa a fazer. Uma delas, a mais "inteligente", liderava com dinamismo e as outras a obedeciam. E diante desse cenário, o Secretário de Educação se preocupa com os índices nas avaliações sistêmicas. E a pedagoga da escola insiste para que passemos o dia cantando,como se as crianças fossem idiotas. O mundo mudou, o homem mudou, a sociedade se deteriorou e a escola ainda continua mera reprodutora de saberes. Aff...que isso dá conversa pra mais de metro..rsrsr Abração.

Rafael Bezerra Beltrame disse...

Parece que os jovens na busca pela fuga dos problemas acaba encontrando nas drogas o ópio, a solução para amenizar o peso de suas realidades. O problema é que isso se tornará vício. Aí depois é mais um caso de saúde pública, aumento do tráfico, assalto e mortes. Desde a década de 60, com o fatídico Woodstock, a juventude já tentava mascarar a realidade das guerras, corrupção, repressão, usando como argumento a busca pela liberdade. Mas todos nós sabemos que isso só potencializará todos os problemas existentes. Não no começo, mas um dia sim. Muitos correm atrás de prazer, isso prova que são incapazes de encontrá-lo na família, nas artes, nos amigos, na boa e saudável vida.