AGENDA CULTURAL

19.9.12

O Nagib faleceu - cansou de ser poeta

  Conheci o  Nagib quando comecei a  ser cronista diário no extinto jornal Folha da Manhã, cujo proprietário era Hélio Pereira de Souza. A sede de  jornal  ficava na rua Barão do Triunfo,  esquina com a rua Pereira Passos em Araçatuba. Daí o motivo de eu reproduzir a crônica do poeta Alaor Tristante neste  blog.
 
A tristeza  de um tristante
ALAOR TRISTANTE
 
O poeta Nagib Muana Zahr Neto faleceu ontem, em São Paulo, e será sepultado hoje, em Araçatuba. Formamo-nos juntos, em 1992, em Direito, pelo Unitoledo, na época, Instituição Toledo de Ensino. Não foi meu amigo. Apenas colega de turma. Nós nos cumprimentávamos, mas o Nagib era meio fugidio, eu, mais ainda, e assim o nosso tempo passou sem um contato mais profundo. 
 
Já formados, em 1994, voltamos a nos encontrar, quando fomos premiados no Concurso de Poesia "Osmair Zanardi" e participamos, cada um, com três poemas, do livro "Lira dos Araçás", uma coletânea com os dez primeiros colocados do concurso. Nagib, nesta época, trabalhava como jornalista no matutino local "Jornal da Cidade". Depois disso, passaram-se dezoito anos e nunca mais o vi. 
 
Fiquei sabendo que havia ido embora para São Paulo, capital, pois Araçatuba, talvez, tenha ficado pequena para os seus sonhos. Eu não tive a mesma coragem. Fiquei por aqui, plantei algumas árvores, e até hoje, vivo para regá-las. Às vezes, na vasta sombra que se formou, ainda faço meus poemas. O Nagib, aparentemente, como a maioria, abandonou a poesia, ou então, tudo está muito bem guardado. Em São Paulo, não sei o que fazia, embora apareça em alguns sites como revisor ou redator. Mas é incrível como que alguém, que um dia escreveu para jornais, atualmente, dele quase nada se encontra na internet, nem escritos, nem notícias, nem fotos. 
 
Alaor Tristante
 Pesquisando no Google não se encontra praticamente nada a respeito dele. Há um vácuo absurdo de ausência, perdoem-me a redundância. Parece que também nunca fez valer o seu diploma de Direito. Não sei do que morreu, o que aconteceu, não conheço nenhum parente seu, nem tenho coragem de ir ao velório saber os porquês. Dizem que toda morte tem uma desculpa. O que adiantará? Enfim, agora está morto. Guardo dele aquela imagem da juventude. Um rapaz lépido, sorridente e que tinha um segredo, como todos nós temos. Escreveu Manuel Bandeira:
 
"A vida é um milagre.
Cada flor,
com sua forma, sua cor, seu aroma,
cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
o espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
o tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
— Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres."

Minha homenagem ao Nagib, será através de suas próprias palavras de quem um dia foi poeta, ao menos por um instante. Abaixo um poema de Nagib, intitulado "BUSCAS":

Estou só,
sóbrio de mim,
da alma,
do manto que
cobre o espírito,
recobre das impurezas,
resguarda das belezas
terrenas,
promíscuas,
assíduas...
Estou só
de Deus, 
mas quero
ser só de Deus.
Estou sensato e descarado,
duvidoso e mascarado,
celeste, tarado.
Vivo assim
isolado,
atento e armado;
vivo, sim,
clamando no arado,
proclamando no prado
pelo sentido,
pelo Moksha,
por Cristo,
por Buda,
pelo Kama Yoga,
ou qualquer outra moda.
E continuo
órfão de respostas,
andando de costas,
vivendo de apostas
no certo,
no supostamente certo,
na certa aberto
para a aparição,
para a revelação cósmica,
explosiva.
E serei a vida, um astro
altruísta,
ou um pasto incompreensível,
egoísta e nefasto,
gasto de buscas infrutíferas,
míseras
e volto aos flertes malditos,
aos mitos das ruas noturnas
sem amor,
sem pudor,
sem poder de homem forte,
erguido pro norte
e se vier, à morte.
Fico aqui por enquanto,
vadiando,
até encontrar um outro livro indiano,
profano, profético
e me cansar dessa vida
de néscio, de céptico.

Nagib Muana Zahr Neto.

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