AGENDA CULTURAL

27.5.14

Professor Bertholazo e sua secretária Cleonice Pudera

Hamilton Brito*

Hamilton Brito
Eles trabalhavam em uma biblioteca municipal e entre as suas atividades, estava a de revisar os textos de escritores que municiavam as páginas de um jornal local, por deferência deste. 

Dentre os escritores,  havia os que escreviam de modo comportado, os moralizantes, aqueles que escreviam sobre flores e passarinhos, sobre as suas infâncias e seus “recuerdos” ; uns escreviam textos mais fluidos e facilmente digeridos pelos leitores e aqueles que eram os eruditos,  cujas obras, sem um dicionário do lado, seria impossível lê-las. 

E aqueles mais ousados e menos comprometidos com a literalidade e outras “cositas”.

-Eles?

_ Ah! Ele era o professor Benedito Bertholazo, doutor em linguística. Ela, a secretária, Cleonice Pudera.
Um dia chegou um texto de um colaborador useiro e vezeiro em fazer maluquices. Ousado e meio sem vergonha, fazia que com ele a atenção dos revisores fosse dobrada. Pra aprontar, não titubeava.

No texto ele contava a história de um namoro virtual no qual, à certa altura, o namorado dizia à sua amada que durante as conversas pelo skipe, ele ficava tão excitado que sentia um certo intumecimento com ligeira perda de líquido seminal.

-Professor Bertholazo, o que é intumecimento e o que é líquido seminal?

-Intumecimento é ligeiro inchaço.

-Inchaço? O que ficava inchado? E o que é liquido seminal?

-Meu Deus, Senhor meu Pai, vinde e socorrei-me.

-O que ficava inchado Cleonice era o...o..o falo.Você sabe o que é falo?

-Sim, claro que eu sei. É a primeira pessoa do presente do indicativo do verbo falar.

-Não Cleonice, não é desse falo que eu falo. Eu falo de outro falo...Ah! Deus do céu.

-Ah! Sei lá que falo é esse...

-Cleonice, você é casada e tem filhos, né?

-Sim professor.

-Então Cleonice, o seu marido fez filhos em você usando o falo que ele tem... Entendeu, criatura?

-Meu marido não usou falo algum em mim; nossos filhos foram feitos com outra coisa.

-E afinal, que diabo de líquido é esse tal de seminal? 

-Cleonice, vai ficar mais fácil eu te dar as contas; você não sabe o que é liquido seminal?

-Não né, se soubesse estava aqui perguntando?
-Líquido seminal, Cleonice, e o que contém aquele espermatozóide que ganha a corrida. 

- Que corrida? 

-Aquela que faz com que uma pessoa nasça, Cleonice. Vou pagar os meus pecados com você, Cleoniiiiiiiiiceeeeeeeeeeeeeeee... 

-Nunca ouvi falar em líquido seminal. 

-Liquido seminal é...é...qual o nome popular do esperma, Cleonice?
-É...é...então, esse mesmo. 

_ Ei , não precisa ficar nervosinho, não. Mais educação comigo. Pode guardar o seu arsenal de nome feio. 

Bertholazo chamou o autor do texto, deu-lhe uma descompostura, falou-lhe de ética e de moral e que a linha de conduta do jornal não aceitava textos de tal natureza. 

Tudo mentira, o que ele não queria era enfrentar dona Cleonice com tais e quais explicações. 

Passou-se um tempo só com revisões de textos inodoros , insípidos e alinhados até que , na ordem dos emails, olha um texto do... 

-Professor, chegou um texto daquele sujeito. 

_Daquele? 

-Sim, daquele. 

-Vai lendo, o que você não entender, me pergunta. 

Passou um breve instante. 

-Professor , o que é felatio?

Está marcada para terça-feira da próxima semana a missa de sétimo dia do professor Bertholazo; será na capela do cemitério.

*José Hamilton Costa Brito é advogado, escritor, membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras.

Esta crônica não foi publicada pela Folha da Região porque não atendia à linha editorial do jornal. Como este blog segue os versos de Raul Seixas: "A única linha que eu conheço / É a linha de empinar uma bandeira", a crônica está aí à disposição dos internautas.