AGENDA CULTURAL

25.7.15

As memórias de O Italianinho - Franco Baruselli

Hélio Consolaro*

Dia 31 de julho, sexta-feira, às 18h, o Italianinho vai lançar seu livro de memórias. Assim era conhecido Franco Baruselli. Eu, descendente de italiano, fazendo parte da comunidade dos pés-rachados, achava esquisito ter um italiano intelectual.

Franco Baruselli era, e ainda é, um sujeito bem falante, navega com os mãos em seus discursos. Onde eu ia, lá estava ele falando com sotaque coisas novas. Na Congregação Mariana, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Chego à faculdade, eis lá o Italiano dando aulas. Sujeito porreta.

Foi candidato a prefeito de Araçatuba, deputado estadual por duas vezes, secretário estadual da desburocratização do Governo Montoro, mas não saiu do PMDB. Continua no partido até hoje. Direita, esquerda, na verdade, um militante da democracia cristã.

Até que trepou demais, caiu da escada, passou um susto em todos. Descobriu que estava velho.

Gostando ou não dele, é uma personalidade de Araçatuba que merece homenagens. Estarei lá para pegar o seu livro de memórias, aprenderei muito com sua leitura. 

*Hélio Consolaro é professor,jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

O Italianinho
(Crônica de Tito Damazo* publicada no livro "Nos Trilhos do Centenário", em 2008, pela Editora Somos)
 Findavam-se os anos cinqüenta, e os sessenta com seus prenúncios aziagos à vida democrática do País turbilhonavam. Um jovem aventureiro italiano, do mais alto compartimento de um navio, deslumbrado com a quimérica visão da baía da Guanabara, via o quanto acertara em trocar o Canadá pelo Brasil.
            Franco Baruseli saltou em Santos. Italiano atirado, viajou o país principalmente como caronista dos Correios Aéreos do Brasil. Ancorou-se nos Salesianos de Cuiabá e de Campo Grande em torno de nove meses. Abrasileirado, firmou-se em Araçatuba. Constituiu família, educou seus filhos.
            Aqui, os agroindustriais e comerciantes iam estendendo os seus tendões de propriedade e poder. Grassavam as propriedades rurais e as casas comerciais. Multiplicavam-se os peões, colonos e empregados do comércio.
Baruseli ensinava Filosofia e Educação, italiano e francês e cada vez mais aprendendo português (brasileiro). Assim, esclarecia a população dos seus direitos. Como educador adepto de Pierre Furter e Paulo Freire, defendia que a promoção a sujeito se fazia pela comunicação e não pela extensão dos conhecimentos: aquela abria para a conscientização.
            Firmado nesses propósitos, o Italianinho foi suscitando a formação de sindicato aos trabalhadores rurais, cooperativas agrícolas, centros culturais. O mérito de tais realizações, obtendo reconhecimento público e respaldado por setores da Igreja católica, conquistou recursos de entidades internacionais de amparo a tipos de promoções humanas semelhantes.
            E lá ia o Italianinho abrindo casas de educação e de treinamento à gente do povo.  Criou o CTA (Centro de Treinamento Agrícola, o CTP (Centro de Treinamento à Pecuária) pelos quais passaram centenas de filhos de pequenos sitiantes, aprendendo a cultivar a terra com amor e técnica, a manejar os instrumentos e implementos agrícolas.
            E veio a criação do histórico Intec (Instituto Noroestino de Educação e Cultura), síntese daqueles com a criação de áreas do setor cultural: cultivo das artes musical, teatral, plástica e política. Pelo palco de seu memorável teatro Castro Alves passaram Marília Pêra, Giafransesco Guarnieri, Toni Ramos, Luiz Vieira, Gilberto Gil e outros.
            Como todos os homens que se posicionam e agem por causas humanas, Baruseli sofreu calúnias. Mas a voz do povo de Araçatuba e circunvizinhança aclamou-o deputado estadual por dois mandatos. Seguramente, num gesto de grande reconhecimento pelos seus feitos, o histórico e memorável governo Montoro convocou-o a ocupar uma Secretaria de Estado.
            Destarte, o Italianinho araçatubense galga o panteão da história dos homens de Araçatuba cujos feitos contribuíram para o engrandecimento de seu povo.

*Tito Damazo é escritor e presidente da Academia Araçatubense de Letras



Dados biográficos

Nascimento: 06/01/1931, em Cerveno, Norte da Itália. Forma-se em Filosofia   em Turim. Instala-se em Araçatuba em 1960. Leciona Filosofia no UniToledo e na Funepe.  Cria o CTA (Centro de Treinamento Agrícola), o CTI (Centro de Treinamento Industrial) e o CTP (Centro de Treinamento em Pecuária). Em 1968, criará o INTEC (Instituto Noroestino de Trabalho em Educação e Cultura). Em julho de 1973, perseguido pelo Governo militar, teve que deixar o Brasil e voltar para a Itália. Retorna em 1975. Elege-se deputado estadual em 1978. Reelege-se em 1982 e assume uma Secretaria de Estado do Governo Franco Montoro. Em 1986, compõe o grupo de diretores da CDHU, onde atua até 1995.




Um comentário:

Valdemar R de Moraes disse...

Prezado Helio Consolaro, parabens pelo seu incansavel e valioso trabalho de divulgar fatos importantes sobre ilustres homens publicos de Aracatuba e Regiao Noroeste do Estado,por exemplo,Franco Baruseli.Solicito-lhe a devida licenca para usar o espaco de seu Blog objetivando cumprimentar o genial Franco Baruseli pela publicacao de seu livro de memorias.Quero registrar e testemunhar aqui minha profunda admiracao por seu grande talento,pela sua arguta inteligencia e pela sua extraordinaria competencia seja como gestor publico,filosofo,professor,seja como notavel e serio politico que soube ser.Franco certamente lembra-se de mim.Sou Valdemar Moraes(o valdemarzinho),um ex-seminarista.Convivi com Franco nas decadas de 60 a 80,nos cursos,na Toledo,no sindicato,no seu eficiente e honesto trabalho como Deputado.Muitas vezes visitei-o em sua residencia ali perto da antiga Igreja Matriz N.S.Aparecida,acompanhado de um grande amigo de Marilia, chamado Ivo Marega.Tempos bons e produtivos aqueles.Hoje moro em Brasilia,estou aposentado como professor universitario.Parabens a voce Franco e a voce Consolaro,pois a educacao e o desenvolvimento socio-politico de Aracatuba e Regiao devem muito a voces dois.Abracos.