AGENDA CULTURAL

18.1.19

O trabalho se encontrou com as férias num grande abraço

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Até, quando eu era um menino tabaréu, que conheceu caderno e lápis pelas mãos de minha mãe, não sabia  significado da palavra férias.

Eu era um capiau das bandas de Cafezópolis, em Araçatuba, passei a ser um vestibulando do urbanismo aos 8 anos, quando adentrei os portais do Grupo Escolar Francisca de Arruda Fernandes,  quando minha mãe dizia:

- Depois da aula, passe na venda de Seu Maurílio e pegue sal, açúcar, botões. Passe essa lista para ele.

As outras coisas, o sítio dava. E nesse pacote de conhecer dentista, Célio Deodato, pasta e creme dental, até vacina, fui me inserindo no mundo urbano, conheci também férias.  

Descobri que as aulas tinham todas as virtudes das férias. Férias era bom porque eu pegava o ônibus no Bar Cruzeiro e ia até as bandas de Água Limpa passar alguns no sítio de meus avós. Um viajão, uma saga. 

Férias eram bom, porque não precisava andar 10 km  por dia (ida e volta) para chegar à escola, não tinha professora que batia na gente (já não bastavam os pais), nada de passar e sair com um saco nas costas com a compra da venda de Seu Maurílio.

Depois veio o emprego formal, já na cidade em que havia também as férias. Férias para fazer um bico, férias para estudar para o concurso, férias para se preparar para o exame de segunda época, sem nenhuma aula de recuperação. 

Descobri que as virtudes das férias não estavam nela mesma, mas no período de aulas ou quando o patrão mandava e desmandava naquele moleque.

Quando o professor no antigo I.E. mandava no primeiro dia de aula a gente fazer uma redação "Minhas férias", descobri que havia vários tipos de férias, com viagens longas de trem, que o mar era uma belezura. E a minha que era brincar de fazendinha no terreiro do sítio.

Nos meus 40 anos de professor, descobri que as férias eram bem diferentes. Era um período sem provas e trabalhos para corrigir, notas para entregar. Já dava para viajar, fazer cursos, ler livros, participar de encontros pedagógicos. Eram um prolongamento do trabalho, porque o saber acontece em todos os momentos.

Descobri mais, férias e trabalho eram quase inseparáveis, só havia a diferença da natureza. Quando eu virei uma máquina de dar aula, descobri que as virtudes do trabalho estavam nas férias, quando eu deixava de ser escravo.

Encontrei a resposta para o meu cansaço magisterial numa publicação simples, religiosa, uma revistinha chamada "Acendedor". Nela, o mestre Masarahu Taniguchi escreveu: "Só encontrei a felicidade no meu trabalho quando eu não soube distinguir mais se estava em férias ou trabalhando".    

No mundo acadêmico, as mesmas palavras foram escritas por Edgar Morin: "Assim, verifico que a felicidade não está na separação das férias e do trabalho, mas na sua união". 

Agora, estou aposentado, o trabalho se encontrou com as férias num grande abraço.

3 comentários:

Fred Souza disse...

Com a aposentadoria professor penso estar em férias permanentes. 5.7 de idade - 36 anos e sete meses - acredito ser herói de mim mesmo
Abraços e Gentileza.
Fred

Unknown disse...

Gostei Hélio.
Mas,eu soube ainda muito menina o q eram férias. No tempo de internato as férias eram liberdade!!!

Alice Mara Barbosa da Silva disse...

Muito bom!