AGENDA CULTURAL

11.4.19

Gastaram 80 balas num preto


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

O assassinato do músico Evaldo Rosa dos Santos por 80 tiros, no domingo, dia 7 de abril de 2019, só aconteceu porque ele era preto, passando defronte a um quartel no bairro Guadalupe, Rio de Janeiro. 

Não estou usando "negro" de propósito, para os racistas branco é branco, preto é preto, nada de eufemismo. 

Nem sei se os soldados que atiraram eram brancos ou pretos, mas atiraram porque tinham na cabeça o seguinte: "Se é preto, já é suspeito. Se preto foge, então, fogo!. Preto em carro branco, então..." Não deu tempo de ver se Evaldo tinha a alma branca. Fogo!

O comandante pode ter dito aos soldados atiradores:

- Como? Foram gastar 80 balas num preto? Muita munição gasta à toa!

Ou então, nem o comando tenha passado tais preconceitos para os comandados, a sociedade carioca, onde vivem, tenha dito aos poucos, subliminarmente, para eles o pensamento racista, em cada piada, nas insinuações, nas brincadeiras.

Há até aquela piada racista que ilustra bem o fato: branco correndo, está fazendo cooper; preto correndo, está fugindo da polícia". Esse resquício da escravidão ainda está em nossas cabeças.

Evaldo Rosa dos Santos e sua família acreditaram que estavam inseridos na sociedade de consumo. Carro modelo novo, chá de bebê, passeio aos domingos, mas foram barrados na festinha com 80 tiros. 



O músico acreditou que pelos menos na música e no futebol, o preto tem vez, pode mostrar seus talentos, pode fugir da miséria, mas encontraram a barreira de 80 tiros.

Ser pobre entre nós não é fácil, pior mesmo é ser pobre preto. Aí, meu caro leitor, é difícil. Já fui "pobre de marré", mas minha pele branca me ajudou. A rejeição  é uma atitude que cria monstros. Evaldo Rosa dos Santos conseguiu superar, mas 80 tiros tiraram-lhe a vida impiedosamente. 

Evaldo Rosa dos Santos não morreu por uma bala perdida, foram 80 balas direcionadas para matar um músico que não foi assaltado por bandidos, mas porque um grupo de soldados do Exército Brasileiro achou que ele fosse bandido por causa da cor dele.  

Fazer o que com uma viúva, órfãos e nove soldados presos, todos vítimas de uma situação, do sistema? Apenas a lei não basta.

Só posso repetir a frase de um romance "Um casamento americano", história de um casal negro cujo homem foi acusado de estupro sem tê-lo cometido, ficando preso por cinco anos injustamente, apenas por ser o negro que passava pelo lugar: "O amor negro é a riqueza negra". 

5 comentários:

Unknown disse...

Infelizmente o racismo e a bala que mata. É triste!

Unknown disse...

A bala que mata se chama racismo. É muito triste.

Ricardo disse...

B ala!?
A titude
S olidária -
T er
A rma!?

Unknown disse...

OS projéteis que matam são disparados por seres humanos que não respeitam seus semelhantes!

Unknown disse...

Sou admirador do senhor, e mais uma vez foi brilhante, infelizmente agora,
na explicação de um assassinato.