AGENDA CULTURAL

20.11.12

Bob Marley em dez temas

Revista da Cultura

36 anos foram mais do que suficientes para transformar Robert Nesta Marley, nascido em 6 de fevereiro de 1945 no vilarejo Nine Mile, da Jamaica, em um dos maiores ícones da música mundial. Bob Marley faleceu em Miami, nos Estados Unidos, em 11 de maio de 1981, mas continua sendo reverenciado mundo afora e teve a vida contada no documentário Marley, dirigido pelo norte-americano Kevin Macdonald, previsto para chegar aos cinemas brasileiros no final deste mês.
MÚSICA
Após mudar-se para a capital da Jamaica, Kingston, com 6 anos, indo morar em um dos bairros mais pobres, Trench Town, Bob Marley correu sérios riscos de entrar para as pesadas gangues locais, mas foi salvo, aos 16 anos, ao gravar o single Judge Not. O primeiro sucesso veio em 1964, Simmer Down, com os The Wailing Wailers. A partir daí, outros sucessos se seguiram, responsáveis por propagar o reggae pelos quatro cantos do planeta. “Marley foi o primeiro artista do então chamado Terceiro Mundo a conseguir projeção internacional. Hoje, com a força da internet, isso parece corriqueiro, mas, entre os anos 1970 e 1980, era impensável”, garante o jornalista Carlos Albuquerque, autor do livro O eterno verão do reggae.

MACONHA
Da capa do álbum Catch a Fire, de 1973, a um pote colocado em cima da sepultura, a “ganja” – como é chamada pelos rastafáris a maconha, considerada por eles uma erva sagrada – também foi muito presente na vida e na obra do músico, tanto que a expressão aparece em canções como Ganja Jun e Legalize It, na qual garantia ser ela boa para gripe, asma, tuberculose e trombose. “A erva não aparecia apenas nas músicas de Marley, mas de todos os artistas que, como ele, seguiam os princípios do rastafarianismo”, analisa Albuquerque.

FUTEBOL
A paixão pelo futebol começou quando o Santos, de Pelé, foi jogar na Jamaica, e era tão declarada que ele fez parte da equipe local House of Dread. Além disso, na estátua que fizeram para ele em Kingston, Marley aparece com uma bola nos pés. Talvez poucos saibam, mas, em 19 de março de 1980, o cantor esteve no Brasil e participou de uma legítima “pelada” no Rio de Janeiro, com os funcionários da Ariola contra alguns dos artistas contratados pela gravadora no Brasil, como Chico Buarque, Alceu Valença e Toquinho. “Ele era meio pé duro esforçado. Fazendo música e jogando bola... O mesmo prazer da brincadeira e do improviso. Continuar criança e brincando no planeta”, comenta o ator, cantor e compositor Evandro Mesquita, que foi convidado a participar do jogo pelo veterano Paulo Cézar Lima, mas chegou só quando a partida havia terminado e, mesmo assim, trocou alguns passes com o ídolo.

MULHERES
Logo no início da carreira, Bob Marley conheceu Alpharita Anderson, a Rita, que integrou o conjunto vocal I Threes, que acompanhava os Wailers. Com ela, que foi a mulher “oficial”, em meio a outros relacionamentos, o ícone do reggae teve quatro de seus 12 filhos, entre os quais estão os renomados Ziggy e Stephen Marley, além de Kymani Marley, Julian Marley e Damian Marley (vulgo Jr. Gong), que também seguiram a carreira musical. “Bob Marley criou algumas canções perfeitas, como Is This Love e Waiting in Vain, mas, ao mesmo tempo que escrevia coisas inacreditáveis sobre a mulher e a relação com elas, era machista, sexista e batia nas esposas dele”, relata Toni Garrido, vocalista da banda Cidade Negra.
AMOR
O amor, tanto de um homem por uma mulher como entre as pessoas, sempre esteve presente nas músicas compostas e interpretadas por Marley. “One love! / One heart! / Let’s get together and feel all right”. “A música One Love tem três leituras explícitas: pode ser apenas uma música de amor, uma leitura sexual de um casal e/ou um grito político e panfletário de ‘estamos juntos, somos fortes... Vamos à luta!’. Genial”, avalia Evandro Mesquita. Essa temática apareceu também no álbum Kaya, de 1978.

PAZ
O ídolo maior do reggae pregava a paz, não apenas em seu país, mas também em outros lugares, principalmente nas nações africanas, a ponto de fazer questão de se apresentar no Zimbábue, país ao qual dedicou uma canção em que afirma que todo homem tem o direito de decidir seu próprio destino. “Bob Marley era um guerreiro no sentido de transformar a sociedade com suas palavras e gestos. A Jamaica de sua época vivia grande inquietação política. Na véspera da eleição entre os dois rivais, em um concerto, Bob intimou os dois políticos a subir ao palco e uniu suas mãos, clamando por paz entre os irmãos jamaicanos”, diz o radialista e músico Jai Mahal, especialista em reggae e integrante da banda Jai Mahal e os Pacíficos da Ilha.

GUERRA
“Até que não exista cidadão de primeira / E segunda classe de qualquer nação / Até que a cor da pele de um homem / Seja menos significante do que a cor dos seus olhos / Haverá guerra”, cantou Bob Marley, na música War, do álbum Rastaman Vibrations, de 1976. “Ele era um cara que pregava o amor universal e a paz, só que estava lá com o Peter Tosh na base da luta armada, praticamente. Era um ativista político ferrenho e não necessariamente um pacifista”, descreve Garrido.

POLÍTICA
“Antes de fazer sucesso mundial (com a ajuda da gravadora Island, do conterrâneo branco Chris Blackwell), Marley já tinha enorme reputação na Jamaica. Era um líder e abraçava as causas de sua terra de uma maneira quase messiânica”, garante Jai Mahal. Contar com o apoio de Bob Marley nas campanhas eleitorais, portanto, era um trunfo decisivo. Em 1976, ele topou realizar um show para o candidato socialista Michael Marley, do Partido Nacional do Povo. Porém, alguns dias antes, sofreu um atentado, que resultou em um tiro no peito dele. A esposa, Rita, foi baleada de raspão na cabeça, e o empresário, Don Taylor, levou cinco tiros. Era o mais nítido sinal de que ele estava incomodando, e muito, os conservadores.

RELIGIÃO
“Eu não tenho religião... sou natural; não é uma religião, é só uma coisa natural que a gente tem”, declarou Bob Marley em entrevista ao fotógrafo e escritor Fikisha Cumbo, em 1975. Porém, ele foi convertido por Rita à religião rastafári, que teve na Jamaica a primeira organização do planeta, a Sociedade para a Salvação da Etiópia, que, desde a década de 1930, tinha como imperador Ras Tafari Makonnen, mais tarde Hailé Selassié. A crença religiosa teve inúmeras manifestações na obra do músico, a partir do álbum Soul Rebels, de 1970, e teve papel fundamental na morte dele, vítima de um câncer que se espalhou por cérebro, pulmão e estômago. “A causa mortis dele está totalmente ligada à religiosidade. Ele sabia dos riscos que estava correndo e da importância que tinha vivo, inclusive”, enfatiza Toni Garrido, referindo-se à decisão do cantor de não amputar o dedão de seu pé direito quando, em 1977, foi diagnosticado nele o início do câncer chamado melanoma maligno – que dali se ramificou para outras partes do corpo. Segundo a religião seguida por Marley, um corpo não deveria ser violado jamais.

SOCIEDADE
Até hoje, as marcas de Bob Marley podem ser claramente percebidas na sociedade jamaicana, a qual fez questão de retratar em inúmeras músicas, caso de Trench Town, na qual descreve o ato de subir o rio Cane para lavar os dreadlocks (forma de manter o cabelo em espécies de bolos cilíndricos, semelhantes a cordas, no topo da cabeça) numa pedra. “Ele vai ser sempre o grande ícone da cultura jamaicana, mas é ingênuo acreditar que as novas gerações não tenham seus próprios ídolos ou não ouçam seus próprios sons, que são bem diferentes daquele produzido por Marley em sua carreira”, garante Albuquerque. “Bob Marley é o Tom Jobim da Jamaica. As pessoas sabem da importância dele e que é fundamental, maravilhoso e grande, mas não ficam falando dele o tempo todo e nem o ouvindo”, conclui Toni Garrido, que gravou e remixou discos lá e participou dos três mais importantes festivais locais de reggae.

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