AGENDA CULTURAL

23.10.11

Meu tio Zé


Meu tio Zé - 2011



Hélio Consolaro*

Perdi meu tio Zé. Perdido ele estava há algum tempo, deixou de enxergar e adquiriu câncer nos pulmões sem nunca ter fumado. Aliás, fumou fumaça dos outros: pai e irmãos.

Antigamente, quando a prevenção era bem menor, toda família tinha um bobo, que hoje é chamado de deficiente. Era a meningite, outras doenças ou porque a mãe não evitava filhos, tinha-os até tardiamente

Tio Zé era assim. Não sei se ficou sem iniciativa porque foi criado muito preso, meu avô era um italiano turrão, autoritário; ou tudo era uma questão genética. Ele não era o mais novo, então...

Na minha época de moleque, ele me deu as primeiras lições de baralho: burro, escopa, rouba-monte - esses jogos mais fáceis. Não havia quem odiasse o Zé. Construía poucas frases, elas eram mais repetições.

Tio Zé puxou muita enxada no bairro rural da Água Limpa, no sítio do meu avô Albino Consolaro, pai dele. O seu pouco saber não lhe tirava a força dos braços.

Com o falecimento de meus avós, ele passou a morar com meus pais na cidade. Como viveu 60 anos de seus 86 na roça, vivia a observar o tempo. Gostava de anunciar chuva:

- Vai chover! Chuva forte!

Via uma notícia pela televisão, repetia-a para todo mundo. Viveu com uma frustração: não se casou. Na verdade, não era o casamento que ele queria, mas mulher, deixar a sua genética eternizada. Não conseguiu, morreu virgem.

Como era um inveterado comedor de bolo, a título de sobrar mais para as crianças, disseram-lhe que aquilo deixava o homem capão. Nunca mais pôs bolo na boca, mesmo com 80 anos.

Sempre que aparecia uma mulher feia, desajeitada, pela redondeza, sobrinhos, irmãos, cunhados e cunhadas diziam:

- Olha a namorada do Zé!

Hás uns dois anos, perdeu totalmente a vista, até esse prazer lhe foi tirado. Não sei por que tal criatura viveu tanto e sofreu muito antes de morrer. Realmente, os desígnios divinos são incompreensíveis.

Se houve uma criatura que pouco contribuiu pela humanidade, foi meu tio Zé, mas em nada a prejudicou. Um sujeito zero a zero. Essa afirmação, com certeza, se deve à minha limitação. Quem sabe José Consolaro não tenha contribuído muito mais que algum ph.D.   

Na sua fase terminal, dependência total, quando as cuidadoras, ou minha mãe, cunhada dele, faziam algo que ele não gostasse, resmungava:

- Da puta, da puta, da puta!

Tentava dizer o famoso xingo: fdp.

Lá na Santa Casa de Araçatuba há um compartimento em que poucos saem vivos de lá. Então, meu tio Zé bateu com os cotados por lá. E neste sábado, veio a confirmação: sair vivo de lá não é fácil.

Morreu. Nem deu para chorar a sua morte, porque o sofrimento era tanto que pedíamos a sua partida em nossas orações.

Valeu, tio Zé! Sem você, nossa história seria diferente.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Atualmente é secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

2 comentários:

PIMENTA E POESIA (Maria Tereza) disse...

Seu texto me fez chorar...apertou meu coração porque já vivi situação parecida. Sinto mesmo...
Um abraço, meu amigo.

HAMILTON BRITO... disse...

Professor, lamento. Fiquei sabendo do passamento dele agora, no blog. Eu também sou tio Zé para muita gente, até para quem nem tio sou. Quem sabe eu não possa merecer umas palavras de um sobrinho agradecido quando eu me for.