AGENDA CULTURAL

5.1.14

Livros – duas experiências

Rafael Batista autografando o seu livro
LEIA RESENHA
Hélio Consolaro*

A primeira leitura (a apalpação) do livro “Raul Abelinha; e outras quimeras”, do jovem Rafael Batista, nos chama a atenção o fato de no livro não estarem presentes os renomados escritores de Araçatuba. Nem no prefácio, orelha ou contracapa. Aliás, quem apresenta o livro é outra jovem: Aline Leão, graduanda em Letras pela Unifesp, e escritora de blog.

O livro não cita acadêmicos da Academia Araçatubense de Letras, nem mesmo escritores do núcleo regional da UBE ou algum membro do Grupo Experimental. A formação literária de Rafael não passou por tais entidades que regam os canteiros literários de Araçatuba.

No dia de lançamento do livro na biblioteca municipal Rubens do Amaral (17/11/2013), havia muitos jovens do mundo cultural de Araçatuba, não me lembro de ter sentido a presença de algum escritor reconhecido socialmente por lá.  

Aliás, para fazer justiça, três acadêmicos do Conselho Municipal de Políticas Culturais, membros da Câmara Setorial das Artes Escritas, julgaram publicável o livro pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Araçatuba. Trata-se de Hélio Consolaro, Marilurdes Campezi e Yara Pedro Carvalho.

Tudo isso nos faz pensar:
1) as entidades literárias não estão dando conta do recado, não atraem a juventude. O riacho literário de Araçatuba está cortando caminho;
2) a juventude está se interessando pela literatura, pelas artes, mas de uma forma dissociada da velha guarda. Isso é bom, significa revigoramento. Basta se lembrar do Modernismo.

OUTRA EXPERIÊNCIA
 
Maria José da Silva em trabalhos comunitários
No dia 17 de janeiro de 2014, sábado, 20h, no Museu Araçatubense de Artes, rua Duque de Caxias, 29, teremos outro lançamento de livro. Desta vez da escritora bem popular, com cara de “Maria do povo”: “Contadora de histórias”, de Maria José da Silva.

A publicação de seu livro se dá também pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Araçatuba. Ela recebeu o prêmio porque o livro dela tem o perfil de “Quarto de despejo”, de Carolina de Jesus (favelada), cuja edição foi do jornalista Audálio Dantas na década de 60.

Maria José da Silva é uma mulher já madura, não sai da sede da Academia Araçatubense de Letras, não há reunião do Grupo Experimental de que não participe. Aprendeu tudo por lá, nos cursos de formação e com ajuda de colegas.

Talvez, os escritores consolidados não compareçam na noite de autógrafos porque ela seja uma “escritora popular”. Tudo é possível.

Somos contraditórios, a humanidade caminha em zigue-zague, o mundo literário não ia ser diferente. Caminhemos, vivamos, aceitemo-nos como imperfeitos.   

OBSERVAÇÃO: Raul Abelinha, sem lh, pronúncia popular. Opção do autor, por ser a personagem moradora de rua.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP


   

7 comentários:

HAMILTON BRITO... disse...

Olha, esse texto...muito bom. Aborda um fato importante. Os escritores consolidados: quais seriam?
O que eles fazem para merecerem ser lembrados por essa gente nova?
Nem nos eventos patrocinados pela própria academia eles comparecem? Quantos foram assistir o sarau do Manuel Bandeira...Nenhum.
Quantos estiveram no sarau do escritor...nenhum?
Quantos foram na última reunião lá na Câmara? Oito.
Acho que a moçada tá certa...busquem mesmo outras referências.

Amanda Stuck disse...

Caro povo, caros leitores, caros amigos, ou não.
Resolvi escrever de minhas dores, mais uma vez. Pra testar, ver se escutam os clamores. [Escutar não é só pros ouvidos, por favor, atenção.]
É uma pena manter-se fechado em parâmetros meticulosamente programados. Uma pena mesmo... quando, da cidade de Araçatuba, escondidinha no interior de São Paulo, fomenta-se a aparição de uma gama de artistas incríveis, e quase ninguém vê. Na fotografia, nas tintas a perfumar uma tela, nas estamparias, na música, no que nos é tocável ou abstrato, nas palavras a dançarem numa página dum livro, no palco. Quase ninguém nota, ou não quer notar. Não sei se por medo ou o quê.
Não sei direito o que esta cidade tem, estou começando a conhecer agora. Mas é uma pena que para ser visto com mais estima, a gente tenha que fazer arte lá fora.
A um grupo vedado é dado o poder, a glória e sofisticação. Ao resto da história resta a luta sofrida que parece não sair do chão.
Pois bem, com gentileza, empresto palavras de Hamilton Brito. “Os escritores consolidados: quais seriam? O que eles fazem para merecerem ser lembrados por essa gente nova?” Aonde é que a gente vai? A um lugar fraterno ou pro interior da cova.
Temos que aprender a olhar... eu também tenho, isso é um erro, eu diria quase, humano. E, quando a gente aprender a olhar pra dentro de si, não precisaremos perder tempo se comparando ao que está fora. Eu aqui peço, respeito. Aos que fazem a arte não vista, não tocada. Esta verdadeira arte que pode transformar. Se podem escrever um texto em S, eu também tenho permissão para rimar. Peço também respeito a mim, que posso escrever na orelha dum livro, sim. Peço respeito a toda essa gente que consegue enxergar.
Muitas coisas não entendo. Não entendo porque a literatura “popular” só existe se a veemente Academia a gente frequentar. Não entendo porque as “entidades literárias [...] não atraem a juventude”, ou talvez não se abram para ela. Não entendo.
O nome da Universidade está em erro, a data também. Desculpem-me os artistas incríveis daqui, mas a carapuça há de servir em quem deva servir. Ao todo mais, me resta dizer, Amém.

Att,
Amanda Stuck.

Rafael Batista disse...

Há algo, isso há.
Deseleixe ou desatenção,
iss'inda num sei.
Quem é que é dito?
Abraão ou Expedito?

Nós não somos escritores, !
pelo menos não os ditos.
Cêis ouviro, Ixpidito!
Quem é esse tal de Dito?
É popular, Expedito!
Quem sabe, um dia,
no folclore da acadimia
eu também posso ser dito.

Nem eu nem você, meu amor
nenhum de nós é escritor.
Que é que se faz?
Resta é perdê essa arritimia,
de poesia besta sem rima.
Ai, acadimia!

O escrivinhador da assimbléia,
num sabe, ou só
num procurô meu filho
tenha calma.

Naqueles rios de tantas palavra
sua noite também estrala.
Eli num sabia,
eita acho que dá até aligria
me fartá esse reconhecimento.

Ai, esse meu livro
qui num tem doutô
nem iscritor dito
nem eles, nem eu
Num mim regaru nus canteiru
dus que são ditos ou apitus de literatura
Ai, Jisuis, que é que eu faço
com essas puesia
que tenta encontra as flor jovem
da curtura de araçatuba,
mas que as florvéia num soubero lê.
Êta, diacho! Digo,
êta, riacho,
se revigora!
Brigado, meu Deuso
pur mim fazê anssim
parte dessa puesia
imperfeita.

Ricardo Novaes disse...

O movimento literário ou coisa que valha, não é e nunca foi feito por academias ou outras coisas parecidas. Só acho que um secretario municipal de cultura deveria conhecer mais os artistas da cidade e seus trabalhos.

Johnny Wazagoo disse...

Duas experiencias? Só vi uma no texto! Na verdade, uma distancia tendenciosa separa as tais pseudo-experiências. Para o novo precisamos estar abertos, atentos e bem intencionados! Novos meios, novos fins! Sentir o frescor e a pureza da arte requer paixão e humildade. Infelizmente, não é para qualquer um!

Hélio Consolaro disse...

Ler novo artigo de Hélio Consolaro sobre o assunto: http://blogdoconsa.blogspot.com.br/2014/01/valorizar-juventude.html

Amanda Stuck disse...

Gratidão pelos braço abertos. E pela disposição à mudança.