AGENDA CULTURAL

1.10.15

Dedos espetados no celular

Tharso José Ferreira*

   Fui chamado para falar para a molecada de colégio, não fui e nem agradeci, não vou ficar falando a estes pirralhos que não dão ouvidos a galo velho. Ficar falando às traças numa sala cheia de ninfetinhas e mancebos condenados ao celular não é comigo, ignoram que este futuro foi peneirado por nós muito antes da mãe dela ter nascido, quanto mais os parido. Não sabem que quem inventou o rock fomos nós no meio das proeminências atômicas, que depois Elvis se apropriou e ensinou o mundo a dançar no requebro da pélvis, que a história diz que perdeu o prestígio para uma bandinha pop, os Beatles, mais populares que Jesus Cristo e ficou tão despeitado que encheu o globo de barbitúricos e morreu inchado de solidão. Assim foi.

   Essa imoralidade geracional que vocês pensam serem a ordem de suas vidas protegidos por camisinha de látex fomos nós que demos início nos festivais de rock, pisando em barro como um exército reunido desamassando o futuro, guitarristas drogados e mulheres de voz de araponga segurando as bandeiras do amor livre. Assim foi. 

Enquanto hoje, tais mancebinhos passeiam pelas inocências do Facebook num mundinho de faz de conta a gente do meu tempo que foi educada na obediência dos pais, no jazz e samba de verdade, via espantada no preto e branco das tevês chuviscadas o Vietnã ser coberto pelo agente laranja com um colossal fundo musical dos Rolling Stones, bem no meio das totalidades da guerra fria. 

Odeio conversar com esta molecada de hoje que só estão aí porque Kennedy e Kruschev não decidiram transformar o mundo em escombros com suas montanhas de armas atômicas que tiraria a terra de órbita.

   No meu tempo, a eletrônica não assustava porque ainda eram mistérios nos porões da NASA, não dava as cara a qualquer mortal comum. Mas nascemos sob o ruído supersônico de aviões a jato e em meio ao sangue das ditaduras que empurrava o capitalismo das republiquetas de papelão enquanto a população aos domingos de manhã cantava segurando na mão de Deus e a tarde podia ver na tímida telinha do eletrodoméstico de consumo mais vendido no mundo as peripécias do atleta do século fazendo gols sem parar nos gramados miseráveis cheios de gente miserável deste meu Brasil de Jacson do Pandeiro, enquanto alguns eram fuzilados nestes mesmos caminhos tentando romper os alambrados da liberdade.

   Ainda bem que a juventude é um mal que passa, pois crianças envelhecem e estes soberbos do celular logo, logo, muito antes do que pensam estarão cheirando mofo como eu. Estes momentos quase hilariantes que vivem agora com os dedos espetados no celular lhes trarão angústias no futuro, gordura na cintura, colesterol nas alturas e dor em cada ossinho, falta de foco na velhice e sensação de que perderam a vida para Steve Jobs que viveu pouco, mas teve tempo de escravizar o mundo com sua nova religião colorida com mensagens de tela, a contracultura da contracultura. A minha esperança é que tudo um dia vai se dissolver no ar, Jesus vindo ou não, com sua fala estranha de dar o outro lado da cara para o mal dar bofetões.


   Chio, mas na verdade eu não sei qual mundo presta mais, meus tempestuosos dias no passado ou esta sonolência estúpida de hoje, onde não temos mais o que falar um para o outro com os dedos espetados no celular num mundo sem ideias, sacramento universal que certamente não terá volta como eu que me lembro de a primeira vez que saí da cidade num trenzinho vagaroso como um cavalo lerdo de aço barulhento, onde se serviam duas refeições até se chegar ao destino, fritas com arroz, ervilhas e costelinhas de porco. 

Dormíamos no torpor dos movimentos enquanto meu pai conversava alegremente enquanto o trem se afundava nos matos de meu Deus. Minha realidade, andar de trem na época, me parecia fantástica, a maior aventura de um menino. Se digo isso para um garoto de hoje, caçoa de mim. Hoje, olho para trás e posso entender esta gente de baixos sentimentos dos dias de hoje tão cheio de exageros eletrônicos que nos separam em silenciosas fortalezas. Guardo meus sentimentos sobre isso até em meus sonhos, pois embora eu seja de outros tempos também estou nesta solidão de seres, enterrado, obscuro neste arrebalde de gente de alto pedestal que desprezam as pupilas dos olhos nas conversas e escondem suas bocas que negam beijos. Nós tínhamos fraternidade na alimentação escassa, amor nos olhos das mulheres, pois a gente não cravava os olhos numa tela, a gente cravava os olhos na vida, na macarronada feliz de domingo, nos gol de campinho, num pé de laranja carregado e quando os anos passavam a gente sofria por um amor doloroso, fazia feira nas manhãs de domingo para se manterem vivas as casas, pois éramos a própria vida quando havia distâncias entre máquinas e homem. Assim foi.

*Tharso José Ferreira é escritor, acadêmico da Academia Araçatubense de Letras.

6 comentários:

Júnior Viana disse...

Saudade de um tempo que não vivi. Mas tento fazê-lo florescer, de alguma forma, seja nas histórias ouvidas ou lidas. E assim vamos, na contramão. Belo texto!

marquinhos tinareli disse...

Ahhhh, o que dizer?
Só posso dizer que esse texto me fez parar, refletir e saborear cada palavra, cada intenção...
Espero que o bem que me fez, possa também fazer aos outros que o lerem.
Marcos Tinareli.

cassiobetine disse...

Me senti parado no tempo.

Luana Leite disse...


Perfeito.
Chegou a espetar-me de forma que....
...coloquei o celular na gaveta.

Anônimo disse...

Tharso, meus parabéns, falou tudo que eu queria dizer, muito bom mesmo, onde será que espetarão os dedos daqui a alguns anos? fica a pergunta
Marianice Paupitz Nucera

maurilio lubeno disse...

Mais um belissimo texto desse mago das palavras...