AGENDA CULTURAL

3.12.15

Sair do PT

Hélio Consolaro*

Dizem que, quando o navio afunda, os ratos são os primeiros a abandonar o barco. É um ditado nada abonador para os políticos que abandonam os partidos quando estes estão desgastados diante do eleitorado. Esses ratos são os políticos carreiristas.

Os petistas históricos, que puseram a sua energia na construção partidária, esperam que ratos e ratazanas sejam em número menor, afinal, somos um partido ideológico. Abrimos, sim, as portas para oportunistas que viram na sigla uma alavanca eleitoral, mas o problema não está nem aí, na verdade, muitos petistas, às vezes de origem, se deixaram corromper ao assumir cargos no parlamento e na administração pública. 

Preocupam-se com a própria carreira política, com seu emprego, com seu novo status social.  E a própria direção partidária passou a ter a mesma prática de outros partidos. Até acreditou na conversão da burguesia, avaliando que o capitalismo não era tão ruim.

Burgueses e capitalistas até riam dessa ingenuidade petista, mas sabia que haveria a rotatividade eleitoral na administração do país, mas isso não ocorreu com a eleição e reeleição da Dilma, então, chegou-se ao desespero, adotando uma tática guerrilheira, como estamos vendo nos dois mandatos da presidenta, com a grande imprensa se colocando a serviço de seus patrocinadores.  A elite econômica teve a adesão da classe média alta que desistiu da política de distribuição de renda, quando isso passou a ocorrer nos governos petistas.  

Como nunca se viveu no país experiência de alternância de poder entre esquerda e direita, então, alguns petistas entraram em pânico. Principalmente aqueles que só pensam eleitoralmente, com certas preocupações fisiológicas contaminados pela ideologia conservadora. Há gente pulando do barco neste ano pré-eleitoral. Percebe-se que há muito mais fidelidade entre as torcidas dos times de futebol que não trocam de camisa diante dos fracassos.

O Partido dos Trabalhadores prega o socialismo democrático, sem luta armada, mas quer conseguir a transformação da sociedade pela discussão, pela participação nas eleições. Essa proposta se viabiliza pela inclusão social, por isso, nada mais irritante do que ver afrodescendentes estudando em faculdade e classe C emergente viajando de avião.

Para frear a melhora de vida dos trabalhadores, inventa-se o discurso da crise que, infelizmente, foi abraçado pela presidenta Dilma. Mas isso é assunto para outro artigo.

Para quem tem consciência política, é militante de esquerda ou de direita, não é levado pelas águas turvas, sabe que numa democracia há momentos em que forças políticas predominam, por isso certos partidos encolhem. François Mitterrand governou a França por 14 anos e entregou o governo para o conservador Jacques Chirac , mas o PSF continuou cumprindo o seu papel histórico na França, e hoje novamente governa o país com François Hollande.  
  
Com certeza, com apenas um governo conservador no Brasil, eleito pelo povo, teremos em seguida a volta do Partido dos Trabalhadores, porque a questão da inclusão social praticado por Lula e Dilma não são figuras de retóricas, aconteceu de fato, amenizou a ferocidade do capitalismo. Enquanto os neoliberais atiçam a dinâmica interna do capital que é crescer aumentando a pobreza.  

Segundo uma canção sertaneja, a vida é uma gangorra, num dia você sobe, noutro desce. Espero que os petistas entendam isso, não sejam parasitas do poder. Se tiver que perder ou ganhar, façamos com dignidade.


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

Um comentário:

Adelia Silva disse...

SINTO VERGONHA DE MIM
Cleide Canton


Sinto vergonha de mim
por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

SP,03/09/2006