AGENDA CULTURAL

11.6.20

Só sei ser por escrito

Eliane Brum com o seu livro
Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP


Conheci os textos de Eliane Brum pelo portal do jornal El Pais, com discurso de esquerda e eram enormes. Comecei a compartilhá-los em meu blog na esperança de achar alguns leitores. Encontrei muitos. Conhecia apenas a Eliane jornalista.

Nessa pandemia, virei um zapeador do YouTube, quando achei algumas entrevistas dela, inclusive portal do Sesc e algumas resenhas em canal próprio. Eliane é também YouTuber.  Trata-se de uma mulher de posições definidas e multimídia. Descobri a Eliane escritora.

Ela tem uma proximidade forte com Altamira-PA porque no município o governo federal constrói a usina hidrelétrica Belomonte e ela é visceralmente contra, a respeito, escreveu o livro: "Brasil, construtor de ruínas: Um olhar sobre o país, de Lula a Bolsonaro".


Durante a pandemia, o confrade da Academia Araçatubense de Letras, Reynaldo Mauá Jr.,  num vídeo produzido pela entidade e postado no Facebook, disse que leu um livro de Eliane Brum. Fiquei com cara de interrogação, pois o meu amigo não é chegado a pensadores da esquerda, mas me serviu para pedir-lhe o exemplar emprestado: "Meus desacontecimentos". Conheci a Eliane escritora. Eu me tornei sua fã.

"Meus desacontecimentos - a história da minha vida com as palavras" (142 páginas) é um livro de memória precoce da escritora, já que ela ainda é jovem, 54 anos. Nele, ela tece em palavras seus desencontros, sofrimentos, justamente aquilo que nunca iria constar num livro de memória tradicional.

O livro dela, se fosse levado pelo conteúdo, não valia muita coisa, assim como Dom Casmurro, de Machado de Assis. Ambos os livros têm valor literário pela forma como foram compostos, como as narrativas foram trabalhadas, como as palavras foram bordadas. A beleza de uma obra de arte está na tessitura bem feita de sua linguagem.

Editora Leya, R$ 28,13 (papel) e R$ 11,46 (ebook) - menores preços. Vale a pena lê-lo.




Melhores trechos

O site "Café e livro" apresentou uma coletânea dos melhores trechos do livro com o qual concordo e reproduzo abaixo:      
Às vezes me perguntam o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: teria me assassinado, consciente ou não de que estava me matando. É uma resposta dramática, e eu sou dramática. O que tento dizer é que, se não pudesse rasgar o papel com a caneta, ainda que numa tela digital, eu possivelmente rasgaria o meu corpo. E, em algum momento, o rasgaria demais. (p. 17)

Há mal-entendidos demais numa vida humana. (p. 23)

Há realidades que só a ficção suporta. Precisam ser inventadas para ser contadas. (p.78)
A palavra é o outro corpo que habito. Não sei se existe vida após a morte. Desconfio que não. Sei que para mim não existe vida fora da palavra escrita. Só sei ser – por escrito. (p. 83)

O passado só existe a partir de um narrador no presente que é tanto um decifrador quanto um criador de sentidos. (p. 89)
Aprendi nesse território por desbravar que o princípio não é o verbo, mas o cheiro. Meu primeiro ato era inspirar aquelas folhas virgens, as quais eu seria a primeira a decifrar. Depois eu passava a ponta dos dedos na capa, sentindo a pele e a forma, acariciava as páginas com reverência. Só então lia a primeira palavra, toda arrepiada. Até hoje repito esse ato nas livrarias, causando algum estranhamento. Para mim, os livros sempre foram sagrados, mas apenas para que pudessem ser profanados. Mais tarde eu faria sexo da mesma maneira, ligando os corpos e as letras para sempre na minha apreensão do mundo. (p. 102)

Aprendi ali que ninguém é substituível. Alguns se tornam substituíveis ao se deixar reduzir a apertador de parafusos da máquina do mundo. Alienam-se do seu mistério, esquecem-se de que cada um é arranjo único e irrepetível na vastidão do universo. Quando a alma estala fingem não saber de onde vem a dor. Então engolem a última droga da indústria farmacêutica para silenciar suas porções ainda vivas. Teriam mais chance se ousassem se apropriar de sua singularidade. E se tornassem o que são. Para se perder logo adiante e se buscar mais uma uma vez, já que ser é também a experiência de não ser. (p. 104)

Acredito que só alcançamos o extraordinário do que somos ao sermos capazes de alcançar o extraordinário que é o outro. (p. 106)

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