Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP
Até outro dia, para velho parece que foi ontem, eu não saía de casa sem ficha de telefone público, chamado de orelhão porque a cabine parecia uma orelha, pois numa urgência lá estava o equipamento para ser útil. Se servia ao bem, mas estava à disposição dos malandros também, pois os golpes eram dados pelos orelhões.
Neste ano, 2026, os orelhãos serão retirados, desafixados, pois os contratos de telefonia fixa serão encerrados com as operadoras. Nem sei se ainda existem usuários. Não só ligavam, como também recebiam telefonemas, era apenas saber o número e combinar local e horário. Segundo os linguarudos, diziam que a convenção do PCdoB era feita debaixo de um orelhão de tão pouca gente.
Na minha adolescência, fazer uma ligação interurbana era perder um dia de serviço. Pedia-se de manhã para o telefonema sair à tardezinha e falava-se aos gritos. Na Telesp, esquina das ruas Joaquim Nabuco com a 15 de Novembro, havia cabines para a população mais pobre, sem telefone em casa, fazer suas ligações interurbanas.
Na décadas 70/80, ter uma linha fixa em casa era sinal de riqueza. Havia locadoras de linhas e telefones fixos. O preço de um dava para comprar um carro.
Com o advento do celular, décadas 90/00, o famoso tijolão, analógico, com baterias de consumo rápido, ter um na cintura era sinal de status. No ano 2000, fui obrigado a comprar um celular, pois passei a ser consultor de língua portuguesa do jornal Folha da Região. É o mesmo número até hoje, aumentando as casas à esquerda.
A saudade do orelhão vai se aguçar com a retirada deles das ruas da cidade, pois vamos vê-los apenas nos museus e nas fotos. Na língua portuguesa do Brasil, o orelhão vai deixar rastro, no cotidiano, a expressão "cair a ficha" ainda continua. Sujeito de raciocínio lerdo, que demora para chegar à conclusão, Como os aparelhos cujas fichas eram colocadas e demoravam para entrar em ação.

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