AGENDA CULTURAL

24.3.26

A casa tem a sua cara




Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

A ALMA DAS CASAS
A casa não te contém
És tu que conténs a casa
Tu és a casa!
Ela reflete o que és" (Manuel Pina)

Habitação foi o tema Campanha da Fraternidade 2026 durante a quaresma. Se nosso corpo é a morada de Deus, a voz de dentro; o mundo é onde nós moramos. Segundo o criacionismo, o criador nos botou no paraíso, todos juntos.

Alguns bichos tem suas casas, outros fazem-na; ou então moram em locas. Os seres humanas foram para as cavernas. Começamos a ajeitar as cavernas por dentro, depois construímos nossas moradas diante da escassez de cavernas. Assim surgiu o sonho da casa própria.

Meus pais sonharam com a casa própria por mais de 20 anos, mas a prioridade era estudar os filhos. Meus avós vieram ao Brasil para fazer a América, mas a família mal comprou um sítio de 20 alqueires. Vieram da zona rural italiana. Ninguém era atirado a fazer negócios, nada de empreendedorismo. Para penca de filhos, não sobrou um lote na cidade. 

Assim morávamos, pais e filhos, como o caramujo, com a casa nas costas. Em 20 anos, mudamos 20 vezes. Nada de casa própria. A casa não tinha tempo de pegar o jeito do morador. Éramos europeus vivendo como caboclos.

Pensei em fazer um texto em defesa da moradia para todos, reforçando a campanha da igreja católica, pois ninguém pediu para nascer, mas se nasce precisa de uma vida digna. Deus veio morar  entre nós, mas Ele não tem endereço de todos, o domicílio de muitos é o banco da praça.

Raciocinei, remoí os pensamentos e me lembrei de uma relação de casas onde moramos feita por Dona Augusta aos 90 anos, morreu aos 94 anos. Pelo menos morreu numa casa que era dela, própria. A sua morte gerou inventário.

Ela me entregou a lista antes de morrer, talvez por ser o filho mais velho, as casas onde moramos. Essas variadas mudanças enquanto solteiro, me fez morar 44 anos numa mesa casa, onde resido até hoje. Nada de colocar os cacarecos em cima de um caminhão. 

Meu irmão Alberto, que mora no Maranhão, em sua última passagem por Araçatuba (2025), me fez levá-lo no antigo bairro rural Abílio Mendes (hoje, Aviação) para ver a casa de taipa onde nasceu em 1956. Mostrei-lhe o lugar, enfrente à Capela São José, porque tal tipo de construção não subsistiu.                

Minha filha, depois de minha viuvez me quis levar para morar numa casa alugada próxima à dela. Facilitaria cuidar do pai. Saltei de banda, inventei algumas desculpas e pulei fora. E continuo na mesma casa. A minha alma escorre por suas paredes.    

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