FOI BRINCAR COM ARMA DE MENTIRINHA E
MORREU DE VERDADE
Hélio Consolaro
O que escrever e quando morrer são coisas surpreendentes. Até domingo, eu estava sem assunto, de repente um tiro seco de arma de fogo cortou o silêncio da vizinhança.
Por não ser repórter policial e por ser um bom covarde, fui dormir. A vizinha Roseli Luiz que estraçalha corpos no IML deve ter pensado: amanhã tenho cadáver.
Noutro dia, segunda-feira, fui consultar o Edmilson, nosso gari particular do quarteirão, para saber o que houve a viva voz. Notícia já tinha ouvido no RP10. O repórter Fabinho Ishizawa chega primeiro que a morte.
Ouvindo a história por um, por outro. Pensando no restaurante (bar), que constrói o point com tanto sacrifício e de repente acontece essa tragédia na porta de seu estabelecimento.
Pensando também no portador da arma de brincadeirinha, por que andar com aquilo, ter que enfrentar uma arma de verdade, como aconteceu no domingo. O policial pensando que ele ia matar os outros dois, baleou o falso atirador, matando-o. A arma era de brincadeirinha, mas por causa dela morreu.
E o policial, querendo cumprir seu papel nas horas vagas, complicou sua vida. O crime dele foi o açodamento, não gritou, não deu ordens, já foi atirando querendo salvar as duas possíveis vítimas. Apesar de ter tirado uma vida, sua presteza precisa ser reconhecida.
Todos agentes da catástrofe correram para o local para prestar socorro, mas a morte inevitável aconteceu. Quem não queria matar, por isso carregava uma arma de brincadeira, morreu
Os clientes do bar, ou da lanchonete ou do restaurante estavam no local para conversar, sorrir, espairecer, encontrar amigos. mas de repente foi para casa dormir, sem conseguir pegar no sono.
Na filmagem do filme policial, certa vez, aconteceu ao contrário, passaram para o artista uma arma carregada. A tragédia deixou de ficção.
O cenário da tragédia grega foi montada naquele lugar, numa faísca de tempo, pelo Senhor do Destino.

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