AGENDA CULTURAL

24.9.11

O veneno da boca


Hélio Consolaro*

A vida não é tão fácil, quando não se quer criar problemas para o outro. O outro ou a outra acha que estou sendo indiferente, que não lhe dou importância, só porque não teço comentários a respeito de sua fala. Como dentro dos comentários, estão cheios de fuxicos, então me calo, porque em boca fechada não entra mosquito. Aí sou pichado de caladão.

Fico na situação do namorado que não é ciumento. “Se não tem ciúme de mim, não me ama” – diz a namorada. Se não entro na maledicência geral, sou um sem-sal. Como se um sentimento negativo poderia se transformar em positivo.

Parto do princípio de que ninguém é santo, nem totalmente encapetado. Somos o que somos, com todos os defeitos. Aliás, amo os meus defeitos, porque por eles me diferencio dos outros. Essa bela frase não é minha, mas não sei quem a disse pela primeira vez.

 A alegria de ser o que é. Então, eu também faço minhas maldades, portanto, tenho a certeza de que falam mal de mim por aí. E daí? Eu também falo, ou melhor, escrevo. “Esse sujeitinho não vale o que um gato enterra!”, digo, às vezes. Você sabe o que é enterrado pelos felinos? Então, é uma fala pesada.

Se alguém vem me dizer que fulano de tal falou mal de mim, o pau quebra com o recadeiro, porque esse leva e traz está me fazendo um grande mal, é venenoso. Vou ficar com raiva do outro. Então, caro leitor, esculhambo com o fuxiqueiro.

Fidelidade, traição, honra – esses conceitos dogmáticos, passionais, antigos – não fazem parte de meu vocabulário. Se o projeto de determinada instituição não me serve, não me encaixo mais nela, pulo fora. Sou fiel aos objetivos traçados, quando percebo que eles foram abandonados, a instituição da qual pertenço me dá a liberdade de romper. Trabalho com conceitos operacionais. Se escrevo num jornal, por exemplo, escrevo em vários, e o editor-chefe corta um pedaço de meu artigo ou crônica, sem falar comigo, o nosso compromisso se rompe. Dê-me o boné. 

Voltando ao relacionamento interpessoal. Há gente dura de carregar. Pesada. Bota gosto ruim em tudo, nada está bom. Conheço uma pessoa que, por causa disso, carrega nas costas um desemprego de 10 anos.Tudo conspira contra ela. O universo nunca está a seu favor, fica criando perseguições, uma espécie de Dom Quixote. Esse personagem de Miguel de Cervantes é bom nos livros, na nossa casa, em nosso emprego, um inferno.

A cada dia me convenço de que não vejo mesmo o mundo como ele é, na verdade crio uma imagem dele e ajo conforme. Vou me enganando, invento desculpas para os meus desenganos, evito no máximo não jogar culpa nos outros. Além disso, não acredito no capeta, portanto nem tenho ele para jogar-lhe a culpa de meus erros nas costas. De vez em quando, bato com a bunda no chão, com toda força, sofro sozinho.

O pesadão, de difícil convivência, com mania de perseguição, de repente, descobre que sua avaliação estava errada. Em vez de assumir o autoengano, a grande maioria que sofre desses delírios mentais, quando erra, atribui o erro a quem lhe perseguia:

- Ele fez isso porque descobriu que estávamos de olho...

Como conheço mais ou menos o esquema mental desse povo que garganteia que é isso, que é aquilo e não é nada, me dou bem com eles. Não dou repercussão em meu cérebro àquilo que me disserem, mas fico de olho, vai que...

A boca de uma pessoa é a desgraça dela. Nossa fala constrói ou destrói nossa imagem diante dos outros. Quer matar um assunto a respeito de sua vida, não o comente com ninguém. Ele passa a ter vida curta. Cale a boca, Magda!

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Atualmente é secretário da Cultura de Araçatuba.
   

5 comentários:

Anônimo disse...

AH! língua felina! Imagina bicho não fala, ah! língua preta! quando ela dispara, não importa a cor.A maldade impera na alma de quem com
suas palavras ofensivas, ou mesmo inventadas, atingem um alvo, que nem sempre é merecedor de tais ofensas. A sabedoria é: olhar muito,pois temos dois olhos, ouvir com todo carinho, para isto dois ouvidos e finalmente calar esta boca se nada de aproveitável tem para dizer, e assim se aprende com a sabedoria dos que passam pela vida como eterno aprendiz.
marianice

HAMILTON BRITO... disse...

Dogma, ponto indiscutível de uma doutrina....ou sistema.
Fidelidade, traição e honra...nunca as vi como dogmáticas. Então estão encaixadas dentro do sistema. Não é então o dogma religioso, aquele que é por causa da fé, da crença. Por que eu não creio em traição ou honra. Estas coisas eu sei que existem.Assim, não seriam dogmas.
Tá certo, na praça pode começar: Mirtho,como vcé burro , etc, etc, etc

Anônimo disse...

Lingua ferina! Lingua preta! São assim chamados os linguarudos, aqueles que não conseguem manter a
discrição. Temos que lembrar que temos dois olhos para muito enxergar, dois ouvidos para muito ouvir e uma boca para pouco falar. Dizer só o necessário. Jamais ferir alguém com frases que nem sabemos se são verdadeiras. Vamos falar pouco, ouvir e enxergar muito e jamais espalhar fatos inverídicos. Sejamos sábios!
marianice

Anônimo disse...

"Parto do princípio de que ninguém é santo, nem totalmente encapetado. Somos o que somos, com todos os defeitos. Aliás, amo os meus defeitos, porque por eles me diferencio dos outros. Essa bela frase não é minha, mas não sei quem a disse pela primeira vez."

Amei este artigo. Somos o que somos. O que mais nos decepciona é que acreditamos que somos melhores até do que aquilo que projetamos sobre nós.
Felizmente, podemos ter um momento de lucidez e nos questionarmos sobre a nossa própria imagem.
A projeção é uma coisa tão natural, que a fazemos sem sentir, sem avaliar e sem criticar.
Isso é a essência do humano.
Isso é a capacidade de amar: de nos amarmos e de querermos amar ao outro como amamos a nós mesmos.
Como dizia Fócrates: " É soda, me'ermão! É nóis na fita da nossa vida.
Um grande abraço Consa!
Adoro teus textos.
Ieda dos Reis

tharso josé disse...

Então...e eu pensando que meu viver fosse original. Pensamos tão igual Sr. Hélio.