AGENDA CULTURAL

24.2.20

Exposição "Gold - Mina de Ouro Serra Pelada" de Sebastião Salgado no Sesc Birigui


Gold – Mina de Ouro Serra Pelada, do premiado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, é a  exposição do Sesc Birigui. A visitação é gratuita, e abre  no dia 05/03/2020 (quinta-feira), às 19h30. Visitação de 6 de março a 14 de junho de 2020. De terça a sexta: das 13h à 21h. Aos sábados, domingos e feriados: das 9h às 18h. Ótimo para visitas de estudantes.
O registro, feito na década de 1980, mostra a realidade do que foi o maior garimpo a céu aberto do mundo, na região da Amazônia Paraense. Em mais de cinquenta fotos, a exposição revela o cotidiano da mina de onde foram extraídas toneladas de ouro em mais de uma década de exploração. Pelas lentes do fotógrafo mineiro o visitante percorre a realidade da jazida, os trabalhadores em atividade, as condições precárias, e a “febre do ouro” que reuniu cerca de 50 mil garimpeiros no auge do período de extração.
Sebastião Salgado passou um mês no local registrando a chegada de pessoas de todos os cantos do Brasil, o ambiente imerso na brutalidade do trabalho, os sonhos de quem vinha para construir seu futuro e a esperança de encontrar um dos materiais mais cobiçados na história da humanidade. A exposição tem a curadoria e design de Lélia Wanick Salgado, responsável pela editoria e organização de todo o trabalho de Sebastião Salgado, co-fundadora da agência Amazonas Images e do Instituto Terra. 

(Foto: ©Sebastião Salgado)

Mina de Ouro Serra Pelada - ©Sebastiao Salgado

GOLD – MINA DE OURO SERRA PELADA

“O que dizer desse metal amarelo e opaco que leva homens a abandonar seus lares, vender seus pertences e cruzar um continente, a fim de arriscar suas vidas, seus corpos e sua sanidade por causa de um sonho?”
Sebastião Salgado
Um morro que se transformou em cratera e a cratera que se findou lago, assim foi o processo de exploração da mina de ouro conhecida como Serra Pelada. Desde sua descoberta em 1979, o local, na atual cidade de Curionópolis, chegou a receber 50 mil garimpeiros, de diversas partes do país, em busca do mesmo sonho: enriquecer. O “formigueiro humano”, que recebeu o título de maior mina a céu aberto do mundo, tinha um fluxo intenso de trabalho, com condições precárias e muitos olhos atentos. Tudo o que era retirado da terra tinha roteiro e destino final, e cada metro quadrado um dono. Com 200 metros de diâmetro e mesma profundidade, o garimpo era repartido em lotes de 2x3 metros, e os trabalhadores divididos segundo suas funções: meia-praça, cavador, apontador, apurador e o formiga. Não eram permitidas mulheres, armas e álcool, sendo os policiais federais responsáveis por conter a violência.
Em 1986, neste ambiente de tensão e esperança, chegava na região Sebastião Salgado, fotógrafo que tinha no currículo trabalhos para agência Magnum e registros icônicos como o do atentado ao presidente norte-americano Ronald Reagan. Na exposição “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada” os visitantes reencontram esta história, na qual o mineral protagoniza momentos abruptos no itinerário antrópico: a movimentação de massas humanas, mudanças ambientais e marcas permanentes na sociedade. Em 56 fotografias, é possível acompanhar o olhar de Salgado pelas diversas vidas que passaram, permaneceram ou se perderam no garimpo paraense. As trilhas encravadas na cratera, os garimpeiros com sacos de terra nas escadas de madeira (apelidadas sugestivamente de “adeus mamãe”), o sobe e desce de corpos cobertos de lama e suor, o desapontamento em cada vão aberto sem uma pepita achada e a euforia quando do encontro com um lampejo dourado.
A paisagem de Serra Pelada que Sebastião Salgado apresenta nesta exposição revela as aflições, alegrias e os anseios de um povo que largou suas vidas e suas famílias para irem desbravar uma terra com configurações inóspitas e de futuro incerto. “O ouro é um amante imprevisível. Enquanto alguns garimpeiros afortunados partiram da Serra Pelada com dinheiro, compraram fazendas e empresas e nunca se sentiram traídos, outros, que encontraram ouro e pensaram que havia mais fortunas esperando por eles, acabaram, por fim, perdendo tudo o que tinham obtido. Com o amigo do meu pai aconteceu isso. Ele achou 97 kg de ouro, reinvestiu seus ganhos em novos lotes e equipes adicionais de peões para, no fim, deixar a mina de mãos vazias” – comenta o fotógrafo.
Com curadoria e design de Lélia Wanick Salgado, fotografias inéditas guardadas há trinta anos chegam a público, revelando a dimensão e a egrégora por trás deste capítulo importante da história nacional. Serra Pelada permanece na memória coletiva e na visão de Sebastião Salgado como uma das mais impetuosas incursões humanas impelidas pela ambição. “Por uma década, ela evocou o El Dorado há muito prometido, mas, atualmente, essa corrida do ouro mais selvagem que o Brasil já teve se tornou apenas uma lenda, que permanece viva por meio de algumas lembranças felizes, muitos arrependimentos dolorosos — e fotografias”.

Mina de Ouro Serra Pelada - ©Sebastiao Salgado


GOLD

A exposição compartilha o livro “Sebastião Salgado – Gold”, pela Editora Taschen, que reúne o portfólio completo de Sebastião Salgado feito em Serra Pelada. A publicação acompanha pictoriamente a trajetória do fotógrafo a partir da autorização para visitar o garimpo, em setembro de 1986, após ter sido negada por seis anos pelas autoridades militares brasileiras. A opção pelo preto e branco marca um retorno à fotografia monocromática, seguindo uma tradição de nomes como Edward Weston, George Brassaï, Robert Capa e Henri Cartier-Bresson, que definiram o início e o meio do século XX. "Em toda a minha carreira no The New York Times", lembrou o editor de fotografia Peter Howe, "nunca vi editores reagirem a nenhum conjunto de imagens como fizeram com Serra Pelada". Tanto no livro quanto na exposição, é perceptível a concretude do trabalho de Salgado, o que o torna vivamente contemporâneo. Com mais de duzentas páginas a publicação traz um prefácio do próprio fotógrafo e um ensaio do escritor e jornalista Alan Riding. A publicação pode ser adquirida na Loja Sesc Birigui

PROGRAMAÇÃO INTEGRADA

A exposição contempla ainda uma programação integrada, com cursos, oficinas, e atividades para diversos públicos sobre o pensar e o fazer fotográfico. Os temas abordam desde parâmetros históricos como técnicos, apresentando ao público visões distintas sobre a fotografia. Fotojornalismo, fotografia documental e História da Fotografia Brasileira estão entre as abordagens que a programação integrada oferece até final da exposição, correlacionando ainda aspectos socioambientais e históricos relacionados à Serra Pelada.

SOBRE SEBASTIÃO SALGADO

Sebastião Salgado nasceu em 1944 em Minas Gerais, Brasil, e vive em Paris, França. É casado com Lélia Wanick Salgado. Eles têm dois filhos e dois netos. Formado em economia, Salgado começou sua carreira como fotógrafo profissional em 1973, em Paris, e trabalhou com agências de fotografia - dentre as quais a Magnum Photos - até 1994, quando ele e Lélia Wanick Salgado fundaram a Amazonas Images, dedicada exclusivamente à sua obra.
Ele viajou por mais de 100 países para desenvolver seus projetos fotográficos. Além das publicações na imprensa, sua obra foi apresentada em livros como Other Americas [Outras Américas] (1986), Sahel: l'homme en détresse (1986), Sahel: el fin del camino (1988), Workers [Trabalhadores] (1993), Terra (1997), Migrations [Êxodos] e Portraits [Retratos de crianças do êxodo] (2000), Africa (2007), Genesis (2013), The Scent of a Dream [Perfume de sonho] (2015), Kuwait, a desert on fire (2016) e Gold (2019). Todos esses livros foram editados, concebidos e tiveram seu projeto gráfico elaborado por Lélia Wanick Salgado.
Desde 1990, Lélia e Sebastião vêm trabalhando juntos na recuperação de parte da Mata Atlântica brasileira, no estado de Minas Gerais. Em 1998, conseguiram tornar essa área uma reserva natural e criaram o Instituto Terra. A missão do Instituto é voltada ao reflorestamento, à conservação e à educação ambiental.

Acessibilidade

A exposição conta com recursos de acessibilidade como apoio da equipe educativa, mapa tátil do andar, piso podotátil e uma maquete da Serra Pelada. Além disso, o app Musea traz conteúdos da exposição em videolibras e audiodescrição de obras.

O app Musea está disponível para download gratuito na App Store e no Google Play.

Compositor de trilhas de filmes de Mazzaropi é homenageado em espetáculo no Sesc Birigui

Elpídio dos Santos teve músicas gravadas por nomes como Renato Teixeira e Fafá de Belém; espetáculo será apresentado no dia 27, com entrada gratuita


Elpídio dos Santos foi um maestro, compositor e violonista nascido na cidade de São Luís do Paraitinga (Vale do Paraíba). Com uma obra relevante para a tradição musical paulista, foi parceiro de Mário Zan (1920-2006), Anacleto Rosas Júnior (1911-1978) e Priminho, e teve algumas de suas composições gravadas por nomes como Renato Teixeira, Sérgio Reis, Fafá de Belém, Tonico e Tinoco e As Galvão. Além disso, compôs 25 trilhas para os filmes do cineasta Amácio Mazzaropi. 

Sua morte completa 50 anos em 2020. Em homenagem ao músico, a Cia. Navega Jangada de Teatro traz ao palco do Sesc Birigui o espetáculo “Os quatro cantos de Elpídio”, na quinta-feira (dia 27), às 20h. A entrada é gratuita e os ingressos serão distribuídos na Central de Atendimento a partir das 20h.

Em cena, o público acompanha a menina Catarina que, apaixonada por uma música, segue uma viagem atrás de um compositor que toca seu coração - Elpídio. A história é contada e cantada por oito festeiros, que passam por devoções, carnavais e personagens como Mazzaropi, até chegar ao homenageado.

Pesquisa
A Cia. iniciou sua pesquisa musical e biográfica sobre Elpídio dos Santos em 2009. O universo de Mazzazropi e seus filmes foi bastante presente neste processo e também aparece em cena. Junto à família do músico, o grupo recolheu histórias, conheceu músicas inéditas, lembranças, apreciou suas esculturas, e soube algumas curiosidades, como o fato de ele adorar fazer mágica em suas horas vagas. A pesquisa aprofundou-se ainda pela região de São Luís do Paraitinga (terra natal de Elpídio) e sua cultura.

A criação é de Talita Cabral (que ainda assina o texto e a direção) e Rodrigo Regis. O elenco é composto por Ritta Gut, Gabriel Ivanof, Rodrigo Regis, Dicinho Areias, Alef Barros, Melina de Moura, Rebeka Teixeira e Thiago Mota. A direção musical é de Rodrigo Régis.

Grupo
A Cia. Navega Jangada de Teatro, fundada 2008, desenvolve um trabalho de pesquisa que tem como referências o teatro popular, a corporalidade do ator, o teatro de animação, a linguagem não verbal e a música ao vivo como forma de narrativa. O grupo possui um vasto repertório de espetáculos, contações e intervenções, circulando por diversas unidades do Sesc, Sesi, entre outros locais como ONGs, Casas de Cultura etc; atuando também na área da arte-educação, com oficinas e vivências.

Serviço
Espetáculo “Os quatro cantos de Elpidio”
Dia 27, quinta-feira, 20h
Teatro do Sesc Birigui
Rua Manoel Domingues Ventura, 121, Vl. Xavier
Grátis – Retirada de ingressos 1h hora antes
Informações: www.sescsp.org.br/birigui

A influência da religião pentecostal no voto dos mais pobres - Victor Araújo



Na hora de votar, questões morais são mais importantes do que redistribuição de renda para esse grupo, mostra tese de Victor Araújo, pesquisador do CEM.

Janaína Simões
A religião pentecostal influencia a preferência de votos dos mais pobres por partidos que não têm em sua plataforma de governo políticas de redistribuição, mesmo sendo eles os mais beneficiados por elas. Um dos fatores para explicar essa opção é o fato de seus líderes religiosos atuarem como ‘cabos eleitorais’ e enfatizarem em suas falas e pregações questões morais que, muitas vezes, conflitam com as pautas dos partidos mais à esquerda no espectro ideológico, aqueles que tradicionalmente propõem políticas redistributivas. 

É o que constata Victor Araújo, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), em sua tese de doutorado em Ciência Política, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Seu objetivo foi entender por que os mais pobres não votam, ou votam menos frequentemente do que se esperaria, em partidos e candidatos que têm como proposta criar e executar políticas de redistribuição, como o Bolsa Família ou o Programa Luz para Todos. Intitulada “A religião distrai os pobres?”, a tese analisa o pentecostalismo e o voto redistributivo no Brasil. “Não é que os pobres sejam irracionais ou não queiram votar por redistribuição, é que parte deles ranqueia a dimensão moral acima da questão da renda”, destaca.

Os modelos mais tradicionais na Ciência Política assumem que a variável que mais importa para o eleitor na hora de votar é a renda, mas isso não condiz com o fato de que os indivíduos com menor renda deixam de votar em partidos de esquerda mais frequentemente do que o esperado. “Esses partidos, por sua vez, são os atores que, historicamente, nas democracias, estão ligados a políticas redistributivas. Na América Latina, por exemplo, evidências empíricas sugerem que a ascensão de governos de esquerda nos anos 2000, fenômeno que ficou conhecido como Maré Rosa, está associada ao aumento do gasto social com saúde e educação”, afirma.

A pesquisa compara as tendências de votos dos católicos; dos evangélicos tradicionais – as igrejas protestantes históricas como batista, metodista, presbiteriana; e dos pentecostais nas eleições presidenciais brasileiras entre 2002 e 2018. Araújo foi orientado pela pesquisadora do CEM e professora do Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP, Marta Arretche. 
O Brasil é um país muito pouco secularizado. Dados da pesquisa mostram que mais de 85% das pessoas admitem ter religião, e grande parte é cristã, com maioria católica, seguida por evangélicos Entre 2000 e 2010, o número de cristãos evangélicos no país cresceu 61%, alcançando 22,2% (42.310 milhões) da população. Do total de evangélicos no Brasil, 57% (24 milhões) se declaravam pentecostais em 2010. E dois entre três novos convertidos às igrejas evangélicas pentecostais são provenientes do catolicismo, religião que perde 1% da população a cada ano. É a chamada transição religiosa.

Na literatura mais tradicional da Ciência Política, a religião explicaria o fato de os mais pobres não votarem em partidos que têm propostas de redistribuição porque as igrejas criariam uma espécie de estado de bem-estar social (welfare state) alternativo. Elas conectariam as pessoas a diversas redes que podem lhes oferecer serviços de proteção numa situação de crise: cesta básica, acesso a redes de networking para conseguir emprego, e de ajuda para lidar com fatores como consumo de drogas. No entanto, essas redes existem em diversas denominações religiosas, e o comportamento eleitoral entre elas é bastante distinto, observa Araújo. 
Os modelos quantitativos elaborados por Araújo mostram que a probabilidade de pentecostais votarem em partidos de esquerda é muito pequena em comparação com católicos e evangélicos tradicionais, mesmo quando mantidas as características (renda, nível escolar, local de moradia etc.) dos indivíduos constantes. É um processo que ocorre desde as eleições de 2002, pelo menos. “Eles tendem a não votar em partidos de esquerda há muito tempo. A novidade está no fato de que esse grupo do eleitorado aumentou e passou a ser importante ter seu apoio para vencer eleições no Brasil”, ressalta. 

Para Araújo, esse comportamento é um paradoxo. Isso porque trata-se de uma população mais pobre – 75% ganha menos de dois salários mínimos - menos escolarizada, com menos acesso à informação e que está concentrada nas áreas periféricas das grandes cidades, onde essas igrejas estão presentes em maior número. Apesar da baixa renda e, mesmo que sejam beneficiados por políticas de redistribuição, as pautas calcadas nas questões morais se sobrepõem à renda na hora do voto, aponta o pesquisador.
 
(Foto: Marcos Santos - USP Imagens)

O papel dos brokers 
Isso ocorre, segundo a tese, por causa de uma soma de fatores. Um deles é a influência das lideranças religiosas pentecostais, que atuam como brokers, ou ‘cabos eleitorais’. Elas utilizam em seus discursos e pregações o elemento moral, e este acaba tendo mais peso na decisão de voto dos seguidores dessas religiões do que o fator renda. “Essas lideranças mobilizam explicitamente o eleitorado de baixa renda contra os partidos de esquerda. Fazem isso porque a agenda moral dos partidos de esquerda conflita com a dessas igrejas”, completa.


É o caso de temas como legalização do aborto, do consumo e venda da maconha e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, pautas que costumam ser relacionadas aos programas de partidos de esquerda que enfrentam grande resistência entre pentecostais. Segundo cálculos feitos por Araújo, com base nas informações do Latinobaròmetro, a probabilidade de apoio à união homoafetiva, por exemplo, é 57% menor para um evangélico tradicional e 71% menor para um evangélico pentecostal. Já a probabilidade de um católico se posicionar a favor é 45% maior.

Nas igrejas católicas e evangélicas tradicionais, a pauta moral está presente, mas não é vocalizada como nas pentecostais. Ele exemplifica: na eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, a direção nacional da Assembleia de Deus veio a público dizer que, depois de muita oração, o Espírito Santo havia indicado que este seria o candidato escolhido para melhorar o Brasil. “Manifestações desse tipo são constantes nas igrejas pentecostais. Analisei dados de redes sociais e documentos históricos para mostrar que isso ocorreu em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização e que os pastores usam argumentos morais para mobilizar os membros de suas igrejas contra os candidatos de esquerda”, comenta.

Araújo utilizou dados de nível individual para mostrar os efeitos da conversão ao pentecostalismo sobre o julgamento moral dos eleitores. Ele usou dados em painel que considera os mesmos indivíduos em vários momentos ao longo de vários anos. Depois de convertidos, os indivíduos passam a ver mais corrupção nos políticos, mas exclusivamente nos de esquerda. 

O pesquisador também trabalhou com dados georreferenciados envolvendo uma igreja específica no Rio de Janeiro (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e constatou que nas sessões eleitorais muito próximas dessas igrejas, os candidatos de esquerda nas eleições presidenciais tiveram sempre desvantagem. Na tese, Araújo concluiu, ainda, que nos municípios em que cresce a proporção de pentecostais, decresce a proporção de votos em partidos de esquerda. A rejeição aos candidatos de esquerda também tende a ser maior nas porções do território brasileiro com alta concentração de evangélicos pentecostais, como sugerem os modelos espaciais utilizados pelo autor.

Outro fator que explica a opção de voto está no baixo consumo de informação por parte dos pentecostais. As lideranças religiosas e a igreja acabam sendo suas principais fontes. Como eles também frequentam mais as igrejas quando comparados com seguidores de outras religiões, passam mais tempo sob influência dos brokers. Também confiam mais nas suas lideranças na comparação com católicos e evangélicos tradicionais. “Um indivíduo com filiação evangélica pentecostal tem uma chance cinco vezes maior de frequentar a igreja uma vez por semana ou mais. E a chance de um evangélico pentecostal avaliar bem a liderança de sua igreja é cerca de quatro vezes maior na comparação com outras religiões”, aponta Araújo na tese. 
No caso específico dos católicos, é mais difícil para os padres atuarem como brokers porque a hierarquia é muito maior. A liturgia segue padrões que vêm do Vaticano. O padre não tem tanta margem para, na homilia, se colocar de forma clara em relação a questões políticas. Católicos e evangélicos tradicionais também têm maior acesso à informação, o que os torna mais críticos em relação aos discursos. 

O peso das questões morais para pentecostais está relacionado a diferenças teológicas entre as igrejas. “O catolicismo e o protestantismo tradicional estão muito mais concentrados no plano da ação individual e o pentecostalismo no coletivo. Para pentecostais, “além de seguir as doutrinas bíblicas, é preciso garantir que os valores do reino também sejam difundidos em todos os setores da sociedade, o que inclui a arena política, a instância onde são tomadas as decisões. Por isso, a necessidade de votar em candidatos alinhados aos valores cristãos”, explica. Até 2035, os evangélicos serão maioria no Brasil e os católicos serão o segundo, de acordo com as estimativas demográficas, conta Araújo. Ou seja, trata-se de uma corrente do eleitorado em expansão que tende a não votar nos partidos de esquerda. Como conclusão, a tese mostra que será cada vez mais difícil para um partido de esquerda obter sucesso nas eleições presidenciais no Brasil nos próximos anos, a não ser que consiga quebrar a barreira e dialogue com esse eleitorado.


Sobre o CEM:
Criado em 2000, o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Cepid-Fapesp) e reúne cientistas de várias instituições para realizar pesquisa avançada, difusão do conhecimento e transferência de tecnologia em Ciências Sociais, investigando temáticas relacionadas a desigualdades e à formulação de políticas públicas nas metrópoles contemporâneas. Sediado na Universidade de São Paulo (USP) e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o CEM é constituído por um grupo multidisciplinar, que inclui pesquisadores demógrafos, cientistas políticos, sociólogos, geógrafos, economistas e antropólogos.


Atendimento à imprensa
Janaína Simões
Assessoria de Comunicação do CEM 
E-mail: imprensa.cem@usp.br
Fone (FFLCH-USP): 55 (11) 3091-2097 

23.2.20

Parasita: os moradores do porão

Cena do fime Parasita

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Eu estava com saudades de cinema, sala, plateia assistindo ao mesmo filme e escolhi "Parasita", após ganhar o maior número de prêmios do Oscar 2020.

O meu hábito é alugar filmes pelas plataformas, já que meu televisor é conectado à internet, smart. Na primeira semana, depois do Oscar, as sessões de Parasita eram cedo, voltei para casa, fiquei só na vontade. Eu me lembrei das sessões dos antigos cines de Araçatuba, quando lotar o primeiro horário era um fato normal.       

Estranhei o comportamento da crítica. Ninguém falava nem bem e nem mal, ignoraram o filme. Não houve aquela  badalação cheia de entusiasmo. Dizer que o filme foi premiado apenas para globalizar ainda mais o Oscar era desculpa esfarrapada. 

Quando Trump, o presidente dos Estados Unidos, condenou o filme, fiquei com mais vontade de vê-lo.  Leia o que nacionalista disse: Aliás, o quão ruim foi a cerimonia da Academia?” começou o político. “‘E o Oscar vai para... Um filme da Coréia do Sul’. Que história é essa? Nós já temos problemas o bastante com a Coréia do Sul no comércio e agora nós os premiamos como melhor filme do ano? É bom? Eu não vi” seguiu Trump, que foi aplaudido por seus seguidores. A Neon, distribuidora, foi curta ácida: "Compreensível, ele não sabe ler.” O filme não é falado em inglês, por isso é legendado.

Então, lá foi o Consa ao Cineflix do Shopping Praça Nova, sessão das 22h.  Eu sou persistente. O Shopping à meia-noite parece uma igreja vazia, pois o filme durou 132 minutos.

Só para comparar, o Cine Pedutti da General Glicério, onde hoje é um centro cultural de uma escola, cabiam 700 pessoas (e as sessões lotavam); uma sala do Cineflix comporta 137 pessoas. Naquela época, a TV era incipiente, havia cinco cinemas na cidade.  

O país do filme Parasita é a Coreia do Sul, lembre-se da marca Samsung, o lado capitalista das duas Coreias. O país que copiou o modelo econômico norte-americano com competência, privilegiando a educação. Se o filme fosse da Coreia do Norte, o diretor Bong Joon Ho iria receber um míssil na cabeça, como aconteceu com o general iraniano.

O filme prova que o capitalismo não consegue eliminar a pobreza, fazendo com que todos se tornem consumidores, porque apesar de todo o desenvolvimento sul coreano, a marginalização, a mendicância, a pobreza está instalada. Os pobres que moram nos porões não são negros e nem indianos, são coreanos com cara de japonês. Ricos e pobres têm a mesma cara. 


Cena do fime Parasita
A primeira parte do filme chega ao grotesco, a segunda é uma tragédia, mas em meio a tanta violência, ainda sobra um espaço para o riso. Por mais que o chefe da família Ki-Taek desse um jeitinho para sair da pobreza, a vida acaba em violência para a sua família. 

Enquanto que nas cidades brasileiras as enchentes prejudicam os moradores dos vales, das vázeas, na Coréia do Sul a gente do andar de baixo é que se enchem de água. Escolas se transformam em abrigos coletivos, etc, etc, etc. Os mesmíssimos problemas. Como dizem os economistas indianos Raghuram Rajam e Luigi Zingales, precisamos salvar o capitalismo dos capitalistas.

Apesar de todos os problemas da Coreia do Sul, eu não moraria na Coreia do Norte, porque não dá para trocar a liberdade pelo bem-estar social. Com democracia, é possível encontrar saídas para nossos problemas.

22.2.20

O carnaval dos fardados - Carlos Botazzo


Numa certa altura dos anos 2000 entrevistei o prefeito de importante cidade do interior paulista. Na época, eu era pesquisador-cientifico do Instituto de Saúde de São Paulo, o IS. Lá, vínhamos de discutir e investigar numerosas situações de privação social, drogadição, trabalho infanto-juvenil e tráfico, enfim, coisas a que pesquisadores sociais estão acostumados, porém – surpreendentemente – não a sociedade em geral. Anos depois iríamos ajudar a construir o Tribunal Popular, que discutiu crimes do Estado brasileiro contra populações indígenas, quilombolas e outros povos da floresta; a tortura, o encarceramento em massa e o genocídio contra a população pobre, preta e periférica.

Por essa mesma época, e durante algum tempo, acompanhei um ex-detento em andanças pela periferia de São Paulo, na região onde ele e sua família moravam, e pude (com muitos sobressaltos!) perceber a dura realidade cotidiana daqueles que habitam os bairros populares nas bermas distantes. Observei o movimento da polícia e o dos traficantes, conversei com ladrões e arrombadores (o senhor acredita na inocência dos bancos?), partilhei mesa de bar com poetas e literatos populares, tive de ouvir declamações intermináveis e novas músicas compostas por compositores que jamais teriam suas canções divulgadas pela mídia, me acerquei de cineclubistas, livreiros, colecionadores de ritmos antigos – rumbas, tangos, boleros ou rock primitivos – e pude observar, ao lado deste impressionante ritmo de vida, como a vida dessas pessoas é marcada pela repressão. E de como a vida incerta das pessoas pobres segue seu rumo, sem depender muito do Estado e de suas políticas “sociais”. Parte dessas andanças eu as registrei num artigo publicado no Boletim do Instituto de Saúde, de que gosto muito.[1] 
Aliás, todo esse número do BIS foi dedicado a temas de violência e saúde.
Voltando ao prefeito. Na ocasião em que a conversa se deu, meu interesse estava voltado para o comércio de drogas ilegais e ainda a relação local com as forças policiais. Estive em entrevista ao prefeito por conta dos nossos projetos e porque mantínhamos forte interlocução com os escritórios regionais e com os sistemas locais de saúde. Poucos desses pré-projetos prosperaram e, todavia, restou um enorme aprendizado das coisas da vida, dessas que não cabem nem nunca caberão num artigo científico ou numa dissertação ou tese.

A conversa ia num bom ritmo - saúde, educação, políticas afirmativas -, o prefeito esse tinha excelente raciocínio e capacidade ímpar de explanar suas políticas, demonstrando excelente apreensão das coisas de sua cidade. E então me ocorreu perguntar: prefeito, quem vende maconha aqui nesta cidade? quem controla esse comércio, o senhor tem ideia? A conversa embatucou durante alguns minutos ao cabo dos quais ele respondeu – alguém deve vender, eu imagino, não é coisa da qual eu passe perto nem ninguém que conheça. Não é coisa que tenha importância para a cidade, acredito nisso porque essa questão do comércio nunca foi um problema colocado em discussão pelos movimentos ou faça parte das reivindicações da população, nem mesmo na periferia.

Achei tudo muito simples. Mas o que o prefeito informava não cabia no conjunto das observações que antes eu havia feito na periferia de SP. A saber, o do extenso, sinuoso e invisibilizado conúbio entre polícia e tráfico, a vacuidade das acusações formais, o artificialismo dos processos judiciais e a detenção exageradamente elevada de suspeitos, assuntos já por demais debatidos no Brasil na imprensa especialista e fora dela. E se o prefeito não tinha nenhuma ideia deste comércio então podia ser que não tivesse também nenhuma ideia de como a polícia atuava. E me chamou a atenção justamente porque a população daquela cidade historicamente apresenta altos percentuais de negros e pardos na sua composição demográfica, um dos maiores de todo o interior. Por este motivo, pareceu que seria relevante saber das forças policiais na cidade. Porque poderia ocorrer, e de fato eu não sabia, de as operações policiais serem definidas em conjunto, comando militar e município. E estas foram as perguntas: o senhor participa da vida da Polícia Militar na cidade, tem contato formal e regular com os comandantes? O senhor é consultado quando há troca de comando? O senhor é avisado ou existe deliberação conjunta quando é realizada alguma operação da PM, uma blitz, por exemplo?

Eu estava diante do chefe do poder civil. Civil, civis, civitatis, civilidade, civilização. A cidade, a polis. Prefeitura, municipalidade, múnus, o que tem mandato ou o que tem o dever de conduzir os assuntos públicos visando ao bem de todos os cidadãos, com base na lei, o eleito pela maioria para governar a cidade. Então ele me diz não, nunca sou consultado quando há troca de comando nem a prefeitura é avisada quando vai ocorrer alguma operação. Blitz também não, já fiquei detido numa delas. As relações são protocolares. Numa única ocasião veio me visitar um capitão pm que era relações públicas e só. Muito simpático o relações públicas.

Manu militari. Ali, num rasgo, ficou claro que passadas duas décadas desde a ditadura o país mantinha-se cindido: poder civil e poder militar. Encostado num o poder do outro sobre os cidadãos, um tocando cotidianos assuntos triviais enquanto o outro decidindo sobre a vida e a morte. No limite. A mesma PM que restou intocada dos dispositivos ditatoriais, aquilo que Ulisses Guimarães certa vez chamou de entulho, esses dispositivos construídos com a finalidade de auxiliar na repressão aos opositores políticos, ali, naquela entrevista, ela me aparecia em sua forma acabada: a do poder paralelo. E se antes, lá nos anos 1970, visava a reprimir ou a eliminar o inimigo interno, o comunista, o terrorista, o inimigo da pátria e da religião, agora o inimigo interno se havia transmudado: é o preto, o pobre, o periférico, o ladrão comum, o batedor de carteira, e eventualmente o assaltante de banco ou o quadrilheiro de caixas eletrônicos.
Assim se passaram dez anos, vinte anos. Agora, passados golpes e contragolpes, já existem outros inimigos internos: os estudantes secundaristas, os estudantes das universidades públicas, os professores das universidades públicas, as mulheres; homossexuais, indígenas, quilombolas; os invasores de terras (não os de terno e gravata), os defensores dos invasores de terras, os defensores da terra e das águas, os defensores dos bichos; e ainda os que defendem a soberania nacional. Todos condenados, estamos todos condenados. Porque somos o Outro. O povo. Se diz hoje o que se dizia antes: quem trabalha não tem tempo para balbúrdia; quem não deve não teme; ora e trabalha, deus te protegerá e quem assim procede colherá bons frutos; descansa, irmão, e não cobices mais do que podes ter; cumpra teu dever.

Agora essa polícia militarizada, treinada e fortemente armada quer mais, ela pode mais. Tem representantes em todas as instâncias do parlamento que amplificam demandas nada civilizadas, pois se trata da re-emergência do Nefasto: o fascismo bruto está de volta. E querem o poder, eles sabem e há quem queira, e esses que querem não aparecem nesta condição. Todavia, reivindicam e chantageiam, como se pudesse fazer parte da cidade e do logos a opinião armada.

Momo, finalmente, reina!

*Carlos Botazzo, 74 anos, São Paulo. Professor universitário. Escrito em 20/02/2020. 


[1] A vida aí fora (ou há vida aí fora). BIS; 33, agosto/2004.