AGENDA CULTURAL

2.6.20

Covid, confinamento e periferia. Experiências temporais - Carlos Botazzo



Carlos Botazzo, citoyen[1]

A pandemia do coronavírus e as medidas adotadas pelos governos para o isolamento social, com vistas e diminuir ou retardar seus mortíferos efeitos, provocaram numerosas interpretações e ensaios no intuito de compreender os novos significados que poderiam ser extraídos da experiência social típica dos tempos de peste. Albert Camus tem muito o que nos ensinar.
Mas não apenas ele. Juliana de Albuquerque publicou recentemente na Folha de São Paulo[2] matéria onde discorreu sobre certas questões existenciais que cercam a quarentena imposta como prática eficaz de isolamento para conter a disseminação do Covid (ia dizendo inseminação....).
No artigo - Primo Levi reproduz com clareza complexidade da vida em situações-limite -, Juliana articula duas categorias de alto interesse semiótico: confinamento e classe social. Inicialmente, ela se pergunta como os pobres da periferia estão ou estariam se sentindo trancafiados em suas casas e impossibilitados de ir-e-vir. Isso há dois meses, quando ainda a tragédia nos aparecia como discreta nuvem.
“Pobres da periferia”, quase dizia a Juliana. Eles, os pobres da periferia, são uma classe de pessoas. Já periferia é uma categoria de análise, que se dá como uma classe do urbano, um pedaço - e dos mais vistosos - das nossas formas de classificação social, justamente aquela que não trata de saber quantas geladeiras ou televisores as pessoas têm em casa, mas sim a precariedade da moradia popular, a renda, a escolaridade, o lugar do outro – o nosso lugar - na produção social. Que é deveras extensa. São categorias extensas, dominantes na vida, porque nossa vida é deste modo: não é feita de quantos televisores temos em casa e sim do quanto somos irmanados ou conectados de fato nas nossas suficiências ou insuficiências. Ou na nossa alienação.
Juliana queria dizer que ficar em casa confinado provoca novas e inesperadas situações, novas subjetividades, novos modos de produção das nossas referências espaciais e relacionais. É verdade, e podemos todos assinar e dar fé a essa declaração. São mesmo muitas coisas que se acham em causa neste momento. Irão suportar ficarem trancafiados os periféricos, literalmente ficar na tranca? Podemos concordar com as preocupações de Juliana.
E, todavia, alguns reparos são necessários. Primeiro, vamos procurar entender o que diz Primo Levi. Ou melhor, o que aconteceu com Primo Levi. Ele foi recolhido em Fossoli, norte da Itália, em dezembro de 1943. Com vinte e quatro anos, havia ingressado num grupo partigiani, e, todavia, não foi este o motivo principal de sua captura, antes o de ser um ebreo. Em janeiro de 1944 foi removido a Auschwitz, numa viagem de rigor excruciante que durou mais de uma semana. Lá, sobreviveu. Os soviéticos, que entraram na região em fevereiro de 1945, liberaram o campo e os poucos prisioneiros que ficaram para traz após a debandada das SS. Levi relatou as condições abruptas dessa internação num pequeno livro, editado dois anos após sua libertação. O título é, em si, um grito: É isso um homem? Se questo è un uomo..... Ele se perguntou por essa natureza insistentemente e não obteve resposta, mesmo quando, aos sessenta e sete anos, deu cabo da própria vida.
João Pedro morava em Itaoca, em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Ele não era ebreo nem se havia organizado como partigiani. Ebreo ou partigiani, esses não eram os defeitos dele, pois o defeito de João Pedro era outro, era de ser negro. Negro e pobre. Um adolescente negro, com a cara alegre e cativante como são a dos adolescentes. Mais velho talvez tivesse que lutar contra as adversidades da vida, e seria bem possível que João Pedro não tivesse claro como faria isso. Motivos provavelmente ele os tivesse, talvez pensasse, como muitos da sua condição, que estudar seria uma boa. O estudo pode ser uma arma, hão de dizer. A escola emancipa. A escola pobre, com seus professores pobres e que ensina aos pobres filhos dos pobres qual o lugar que eles terão no mundo, emancipa. Estamos em 2020. João Pedro continua entre nós. Virou uma estrela, como alguns gostam de dizer. João Pedro não respondeu a coisa certa ou não estava no lugar certo no dia em que a tropa invadiu sua casa. Morreu com tiros perdidos, dizem que na barriga. E voou para o céu a bordo de um helicóptero oficial. Era do Estado o tal helicóptero. Ao contrário de Primo Levi, João Pedro não deu cabo da própria vida.
Levi sempre acreditou que o retorno do fascismo era possível e passou a vida toda testemunhando. É preciso dizer o que aconteceu , afirmava, e passou os anos seguintes, as poucas décadas que teve, afirmando isso. Precisamos contar, sempre e sempre, porque - nos diziam lá dentro - não nos importamos se vocês saírem daqui vivos. Não sairão, mas é indiferente, pois se um dia vocês contarem o que aconteceu aqui, ninguém irá acreditar. A língua não dá conta, não é suficiente para relatar as atrocidades que se nos acometem. “Primo Levi insistiu ao longo de sua vida, em seus livros e manifestações públicas, que o testemunho cumpria a função de provocar o desbloqueio da memória coletiva. E que tinha ainda por função política contribuir na luta contra o fascismo.”[3] Precisamos contar, é muito possível que o fascismo retorne, eu já escuto os seus sinais.... afirmava um alucinado Primo Levi em 1986.
[pensei que queria eu também contar um pouco do nosso confinamento durante a ditadura civil-militar de 1964. Muito foi contado e não supreendentemente ainda muitos duvidam. Confinados que fomos e submetidos aos tratamentos de choque comuns, que todos os presos de ditaduras partilham. É um comum a violência institucional por aí neste mundo mesmo agora civilizado. Abu Ghraib: vimos aquelas cenas e não nos importamos. Vimos também as cenas de Auschwitz e igual que foi. Os alemães também viam aquelas cenas, preservadas nos filmes da época e que eram projetados nos cinemas lotados de Berlim antes do filme principal, em meio aos urros da plateia, aos risos e pedindo mais. Aqui, não tivemos filmes, mas tivemos Abílio Soares, Tutoia e Barão de Mesquita, tivemos a Casa da Vovó, as várias casas da vovó]
São vastas as possibilidades de intercâmbio linguístico entre Campo - Lager - e Periferia. Ou interfaces entre Campo e Plataforma Produtiva Escravocrata Brasileira. Está no nosso DNA e no do Estado. Por isso, se acha por inteiro no sistema prisional. Na antiga plataforma brasileira o sujeito ou se revoltava ou só sairia morto, direto da senzala para uma igreja do Rosário. Do campo não havia como ser diferente: saía-se pela chaminé, literalmente a única saída. No Campo foram depositados milhões de seres humanos, apenas isso – humanos. A Periferia é o lugar onde se acham depositados os milhões humanos pertencentes ao nosso velho modo de trabalhar. Vieram de longe, todos eles. Warum? Por quê. Não há porquê no Campo, aprendeu Primo Levi no primeiro dia. Na Periferia é possível perguntar.
Todos estimam que o problema do periférico é ficar em casa. Perigo real, ficar em casa. Por causa do acumulado de gente nos pequenos espaços periféricos. É coisa de pobre e é perigoso, dizem, ficar trancafiado em pequeno espaço, muita gente apertada o vírus gosta. Não havia esse vírus nos tempos do presídio Tiradentes ou da Ilha Grande. Mas o problema na perifa, galera, na real, não é ficar em casa. Se vai e se vem. Alguém quem que manter a economia funcionando. Não havia vírus no Presídio Tiradentes. Nem no Campo havia. O vírus era outro e não se morria de aperto. Não exatamente de aperto, como não se morre de aperto na Periferia. Morreu-se de Estado no Campo e no Presídio. Morre-se de Estado na Periferia. Na Periferia é possível perguntar: de que mesmo morreu João Pedro, ele que estava em casa? Warum?
Ma misi me per l’alto mare aperto[4], ouço João Pedro cantando com Dante.





[1] Aposentado.

[2] Folha - Colunistas - Juliana de Albuquerque, 7/4/2020.

[3] Percursos irregulares, 2019, p. 264. “... quanto del mondo concentrazionario è morto e non ritornerà più, come la schiavitù ed il codice dei duelli? quanto è tornato o sta tornando?” Primo Levi não conheceu o Brasil nem as prisões brasileiras. Do contrário, espantado ele diria: il mondo concentrazionario è davvero tornato!
[4] Dante, Divina comédia, Canto XXVI. É o canto onde Ulisses explica a Dante como morreu: ‘eu me meti pelo alto-mar aberto’.

Rotary e o racismo


31.5.20

Não consigo respirar!


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Em fevereiro de 2019, defronte ao supermercado Extra em Cabo Frio, Rio de Janeiro, um rapaz também morreu sufocado por um segurança contratado pelo estabelecimento, David Ricardo Moreira Amâncio. Isso foi no Brasil. 

A mãe de Pedro gritava: "Tá sufocando ele". Ela foi ignorada.

Agora ocorreu com George Floyd, cujo assassino foi um policial, Derek Chauvin.

Enquanto o policial apertava o pescoço do negro, este gritava a frase: "Não consigo respirar". Ela foi ignorada.

Há uma diferença: no Brasil o vigilante era um afrodescendente e o assassinado branco, Pedro Henrique Gonzaga. Bem diferente do que ocorreu nos Estados Unidos, um policial branco assassina um negro. Tanto lá como cá, a vida foi desprezada por coisas insignificantes, não importa a cor. O sangue tem apenas uma cor, é vermelho. Sangue azul é conversa para pretensiosos. 

A mulher com o coronavírus, desesperada, queria respirar. "Está me faltando ar!", gritava. Mas o hospital não tinha respiradores. Virou óbito da Covid-19.

Os pescadores fizeram a maior farra, fisgaram do rio um dourado que pulava como doido no anzol. A pescaria rendeu. O peixe não gritava, mas seu desespero revelava a falta d'água, não conseguia respirar. Foi para o tacho, ser frito.

Na Amazônia, vários fazendeiros e garimpeiros derrubaram extensas florestas para que ganhem dinheiro com aquilo que é de todos. A humanidade já está sentindo o ar poluído. Doenças respiratórias.

A frase de George Floyd virou um verso da poesia da igualdade. Numa sociedade em que seres da mesma espécie são mais do que os outros, "não consigo respirar" se transforma em denúncia. Dignidade passar a ser tão importante quanto o ar.

Em peças de teatro, em filmes, em performances, em espetáculos de danças em praças públicas a frase "Não consigo respirar" passa a ser uma denúncia de que existe uma sociedade desigual em que o ar da sobrevivência não existe.  

Quem matou George Floyd não foi o policial Derek Chauvin, todos os joelhos dos norte-americanos brancos que são conservadores, racistas estavam sobre aquele pescoço. 

Deixo o meu niilismo de lado para desejar à humanidade dias felizes, quando a única falta de ar que cada um sentirá nalgum dia será provocada pelo aperto do abraço da fraternidade!  

30.5.20

Os negros são eternos suspeitos? - por Josué Emídio

Tomei um "enquadro" na rua da minha casa. Para quem não sabe o que é um "enquadro", fui abordado por dois policiais em uma viatura.
- Mão pra cabeça, vira de costas. - disse um dos políciais de arma empunho, apontando para mim. - Me dá os seus documentos.

Entreguei a minha credencial do Sindicato dos Jornalistas. Ele ficou ficou surpreendido, e disse:

- Desculpe não tem como saber quem é quem. Teve um assalto aqui próximo e a descrição do suspeito se parece com você!

De prontidão perguntei:
- Qual o nome da vítima?
- Ma... Maria - respondeu o policial, titubiando. Pareceu estar mentindo!

Na sequência, ele entregou a minha credencial, entraram na viatura e foram embora.

Eu lhes pergunto:
- Eu sou um eterno supeito?
- Todos os negros são suspeitos?

No Estados Unidos, um negro foi covardemente assasinado por um policial. Aqui no Brasil, vemos frequentemente truculências de maus policiais que denigrem o nome da Corporação.

Até quando tudo isso irá ocorrer?

Josué Emídio


https://www.facebook.com/josue.emidio.7

29.5.20

Combate desigual



 Antônio Reis*

Uma guerra injusta, se é que existe guerra justa, estrangula um lado profundamente mergulhado no cruel combate. A destruição avança sobre um dos campos de batalha, onde se posiciona o lado mais fraco, apesar de mais numeroso. Do lado massacrado, as armas são precárias e escassas, como uma segunda Canudos, que teima em resistir. A artilharia inimiga parece mirar justamente os estrategistas dos esfarrapados. 

Nesta sexta-feira, 29 de maio do ano a ser esquecido, a baixa no exército massacrado é o jornalista Gilberto Dimenstein, vitimado por câncer no pâncreas e fígado. O talentoso paulistano, com passagem pelos grandes veículos de comunicação do país, fez da escrita sua arma de combate à corrupção, de promoção dos direitos humanos e da cidadania. Com vários livros publicados, entre eles “O Cidadão de Papel”, ganhador de um Jabuti, Dimenstein tem trabalhos premiados aqui e no exterior, como o site Catraca Livre, que tão bem representa o conceito de “acupuntura social”, defendida por ele, que significa pequenas ações voltadas à promoção da cidadania e inclusão social.

O desaparecimento de Dimenstein fará muita falta num momento que o inimigo avança com ferocidade sobre o exército esfarrapado, formado por assalariados, negros, favelados, gays, ambientalistas, defensores dos direitos humanos, artistas e a todos que têm a vida como bem supremo. Identificado com os valores democráticos, o jornalista combateu o bom combate porque enfrentou o nanismo moral e suas marionetes. Teve a genialidade de mostrar quem são e o que fazem os donos do poder e seus sabujos. Por isso, Dimenstein fará muita falta. Um combatente a menos, um duro golpe na cultura e na cidadania do país. Uma referência do jornalismo que influenciou muitos profissionais bem sucedidos.

Da mesma forma estão fazendo falta Clóvis Rossi, Otávio Frias Filho, Ricardo Boechat, Paulo Henrique Amorim e Nirlando Beirão, que tombaram nos últimos dois anos, e tinham na escrita cotidiana a arma de combate à sordidez de seres que se julgam humanos. São perdas imensas em tão pouco tempo. E num tempo em que chove ácido no lombo de quem tem sangue nas veias e coração no peito.  

O combate tem sido desigual, pois na contagem das vítimas, percebem-se as baixas em apenas de um dos lados combatentes, enquanto o outro avança com a artilharia da maldade, ódio, mentira e desprezo pela vida. E ainda há quem acredite que Deus é brasileiro.

*Antônio Reis é jornalista e ativista do Grupo Experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras).

28.5.20

A fé para viver melhor - Gervásio Antônio Consolaro




Em tempos de pandemia, precisamos ter muita esperança que vai melhorar, nada melhor ter fé, acreditar em um ser superior, através da religiosidade ou da espiritualidade, e para os ateus convictos, não tendo crença numa divindade, com certeza têm grandes propósitos nobres para manter a pulsão em viver, como família, amigos, poesia, filosofia, natureza. Para colaborar, fizemos algumas pesquisas para trazer um tema de importância na atualidade.

Estudos comprovam que ter algum tipo de crença religiosa ou espiritual faz bem à saúde, aumentando a qualidade de vida, a longevidade e até mesmo a velocidade com que se recupera de doenças. Pessoas de fé também são, no geral, mais felizes, otimistas e têm mais esperança no futuro. Centenas de estudos científicos ao longo dos anos mostram esses benefícios.

Mas é aí que a ciência termina. Ao menos por enquanto. É possível medir os efeitos da fé e da espiritualidade, a maneira como são processadas no organismo, no cérebro. Mas não é possível provar nada sobre o objeto – ou os objetos – da fé. Estatísticas variam, mas algo entre 85% e 98% da população mundial acredita em Deus ou algum tipo de força superior, apesar da impossibilidade de comprovar sua existência de forma categórica. 

Essa é a própria definição de fé: acreditar em alguma coisa contra todas as evidências.

A crença religiosa é tão prevalente que há quem defenda que fomos programados para isso, como disse o jornalista britânico Nicholas Wade, em seu livro O Instinto da Fé, ele defende de que o comportamento religioso inscreveu-se em nosso sistema neural há mais de 50 mil anos, por meio da evolução da espécie.

Seja por via da evolução ou não, a espiritualidade é um anseio de todos nós por algo transcendente. Já a religiosidade é algo mais específico: é a organização da fé em um sistema de crenças. Rituais, preceitos, como rezar, o que não fazer, tudo isso no campo religioso. As religiões fazem parte da cultura e, assim servem também para expor a visão do mundo de determinado grupo ou sociedade.

Viver mais e melhor: o psiquiatra americano Harold Koenig é um especialista mundial na relação entre a fé e saúde. Em seu livro Medicina, Religião e Saúde, comenta que pessoas que frequentam algum culto religioso ao menos uma vez por semana têm 40% menos chances de desenvolver hipertensão e 29% mais chances de viver mais, em um comparativo com as que não vão a qualquer tipo de rito.

Essas pessoas têm, em média uma tendência três vezes maior a ver o lado bom das coisas, e têm menor probabilidade de desenvolver depressão. Pessoas que seguem alguma crença vivem mais, são mais felizes e têm mais recursos internos para lidar com doenças graves.

Por fim, o que se sabe é que esses benefícios têm a ver com três fatores: o primeiro é a influência das religiões na adoção de hábitos saudáveis; o segundo é o apoio social, maior entre aqueles que participam de uma comunidade religiosa; e o terceiro é o valor que a pessoa atribui à crença em si, o que lhe dá maior senso de propósito e força para enfrentar as adversidades.  

*Gervásio Antônio Consolaro, ex-delegado regional tributário do estado, agente fiscal de Rendas aposentado. Assessor executivo  da Prefeitura de Araçatuba, administrador de empresas, contador, bacharel em Direito e pós-graduado em Direito Tributário .

Desinfetante ou antisséptico: e as câmaras? - Alberto Consolaro

Câmaras de “desinfecção” podem trazer danos às pessoas se usarem desinfetantes que lesam tecidos vivos!


Qual desinfetante usar? E antisséptico? O ar fica esterilizado? Posso confiar neste produto ou aparelho? A Anvisa disponibilizou orientações recentemente na Nota Técnica 51/2020 onde procurou orientar o uso de certos produtos e aparelhos. Três conceitos devem ser muito bem esclarecidos:
- Desinfecção é a “redução” de microrganismos patogênicos (ou que possam produzir doenças) em objetos e superfícies inanimadas que os contenham previamente e em seres vivos.
- Antissepsia é “redução” de microrganismos patogênicos em superfícies e partes de seres vivos e que os contenham previamente.
- Esterilização é a “eliminação completa” de patógenos em objetos e superfícies que os contenham previamente e não em seres vivos. Não existe esterilização química e a única forma de esterilização é pela autoclave, um aparelho que usa a temperatura, o vapor e o tempo para conseguir tal objetivo.
Os desinfetantes devem ser usados em objetos e superfícies e não em seres vivos, pois são muito mais fortes e concentrados do que os antissépticos. Eles podem lesar os tecidos vivos e não se deve usá-los no corpo. A norma técnica é clara: não existe “desinfecção de pessoas” e em lugar nenhum do mundo isto é recomendado. Os túneis, câmaras de desinfecção e similares não deveriam ser usados nem em animais!
A Anvisa orientou que câmaras, cabines ou túneis para a dispersão de desinfetantes em pessoas oferecem riscos, apesar de sua instalação em pontos de ônibus, entrada de empresas e terminais de passageiros. Os produtos mais utilizados nelas são hipoclorito de sódio, dióxido de cloro, peróxido de hidrogênio, quaternários de amônia, ozônio, iodo, triclosan e clorexidina, quase todos desinfetantes poderosos, tóxicos e lesivos aos tecidos vivos! Estes produtos foram assim descritos:
1.Hipoclorito de sódio: produto corrosivo que pode causar lesões severas dérmicas e oculares, além de produzir irritação nas vias respiratórias. Não deve ser misturado com outros produtos, pois o hipoclorito de sódio reage violentamente com muitas substâncias químicas e pode potencializar os efeitos adversos.
2.Peróxido de hidrogênio: a inalação aguda pode causar irritação no nariz, garganta e trato respiratório. Em altas concentrações do produto, pode ocorrer bronquite ou edema pulmonar.
3.Quaternários de amônio: pode causar irritação de pele e das vias respiratórias e também, sensibilização dérmica, mas não são corrosivos. As pessoas que se expõem constantemente a eles podem desenvolver reações alérgicas.
4.Iodo: os iodóforos causam menos irritação da pele e menos reações alérgicas que o iodo, porém causam dermatite de contato irritativa. Iodófor, iodófor ou iodóforos são preparados de iodo complexado com agente solubilizante, tal como um surfactante ou povidona (formando a iodopovidona). O resultado é um material solúvel em água com iodo livre na solução.
5.Ozônio: a exposição leve a moderada ao gás ozônio produz sintomas do trato respiratório superior e irritação ocular como lacrimação, queimação dos olhos e garganta, tosse improdutiva, dor de cabeça e subesternal, irritação brônquica, gosto e cheiro acre. Exposições mais importantes, como as de ambientes industriais, podem causar desconforto respiratório significativo com dispneia, cianose, edema pulmonar e hipotensão, podendo levar a óbito. O ozônio pode exacerbar o comprometimento das pequenas vias aéreas de adultos fumantes. É um gás comburente que pode acelerar fortemente a ignição e aumentar os riscos de incêndio.
6.Triclosan e Clorexidina: tais formulações não apresentam a mesma eficácia microbiológica do que as preparações à base de álcool 70% e também não substituem a limpeza das mãos com água e sabonete por 20 a 30 segundos. São antissépticos e não desinfetantes.
ALERTA FINAL
 Detalhe importante da nota técnica: ao contrário das roupas utilizadas nos laboratórios de alto nível de contenção, a paramentação utilizada normalmente pelos profissionais de saúde não é hermética e o material utilizado é leve, não resistente a líquidos, possibilitando o contato do produto químico com a pele e, em algumas ocasiões, com os olhos, elevando o risco de reações adversas.
Ainda alerta que, no caso hipotético de ser realizado o procedimento de desinfecção de pessoas, induz o relaxamento das medidas recomendadas de higienização pessoal e de desinfecção de superfícies, e assim, abre espaço à transmissão do vírus.
 
 Alberto Consolaro – Professor Titular da USP - FOB Bauru-SP. consolaro@uol.com.br 






27.5.20

As penosas obrigações de quem governa


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Se tudo fosse feito como manda o figurino da ética e dos bons princípios, a frase do título desta crônica seria a mais pura verdade.

Que força leva uma pessoa a abandonar o jardim de sua casa para querer cuidar das ruas da cidade? E quase sempre o político desestrutura a sua família nessa troca.

Sérgio Moro era uma pessoa com projeção social, respeitado por parte da população, podia até ser ministro do Supremo Tribunal Federal sem entrar na política. Por que se arriscou tanto para ser ministro de um presidente aloprado? Perdendo inclusive a magistratura. Trocou o céu de brigadeiro pelo inferno de um capitão. E assim há outros exemplos.

Nem sempre as melhores pessoas se candidatam eleitoralmente a um cargo público, porque não é fácil ouvir a sua vida particular na boca do povo. Há quem diga que juiz de futebol e político têm duas mães: uma para amar e outra para ser xingada.

Há muito gente que se atreve a candidatar-se porque pretende mesmo é trazer o dinheiro público para o bolso privado, seu e/ou dos outros. Geralmente quem chama todo mundo de corrupto, se eleito, vai fazer a mesma coisa, pois critica o outra por pura inveja, porque não está lá se chafurdar. Quem usa cuida.

Há alguns ditados populares que revelam o ambiente da política. Exemplo 1: se o adversário for muito limpinho, inatacável, coloque nele um rabo de palha e atice fogo. Exemplo 2: a arte de engolir sapo, dar uma de desentendido, para agregar em vez de dividir. Exemplo 3: há lideranças políticas que dividem para reinar, criam inimigos, inventam obstáculos. Exemplo 4: para os amigos, as benesses; para os inimigos, a lei. 

Para lhe falar a verdade, caro leitor, há  gente que se encanta com o poder, gosta de ser o centro das atenções, ter o prazer de mandar, tem astúcia. Nem por isso roubam e de vez em quando tais predestinados caem na graça popular. São chamados de estadistas.


Para alguns, governar é um sacrifício, se afastam da família, precisam fazer a vontade alheia, não a sua. Para outros, governar é viver nababescamente, sempre rodeado de amigos porque tem dinheiro sobrando, mulheres bonitas e bajuladores. Sempre tirando do cargo as insuportáveis vantagens.

Se pretende ser candidato neste ano a algum cargo, caro leitor, não se apresente como um demagogo, mas também não seja ingênuo, que nem falar em público sabe. A gente está precisando de gente honesta, mas esperta, com astúcia para discutir e governar a cidade. 


26.5.20

Candidatos mascarados



*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

As eleições municipais estão aí. Já estão falando em adiamento, por enquanto por meses, nós não podemos deixar virar aquela bagunça que havia durante a ditadura militar. 

Mudava-se eleição a toda hora, bastava a oposição ter chance de ganhá-la. Isso tinha até nome: casuísmo. Eu mesmo fui vereador em Araçatuba num mandato de seis anos por causa disso. O mandato acabara, eu já não sabia mais pedir voto.  

Fazer eleição durante a pandemia seria mesmo um paradoxo, mas os ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) admitem falar apenas em meses de adiamento para a pandemia não gerar benefícios às forças antidemocráticas.  

Se até dezembro o contato pessoal continuar draconiano, numa campanha eleitoral para vereador e prefeitos nas médias e pequenas cidades, fica impossível fazer eleições, pois os contatos são primários. Sem abraçar, mesmo que o abraço seja falso, impossível. 
Pegar na mão - não pode
Dar beijinho - também
Cumprimentar com os cotovelos ou os pés, ficaria meio esquisito.
Candidato com máscara. Como conhecê-lo. Se a lei igualá-la à camiseta, não vai poder escrever o nome e número do candidato nela.

A gente só ia conhecer mesmo os bolsonaristas, porque eles andam sem máscara, seguindo as ordens do chefe. 

Outro dia, um desses, bem radical, gritou, naquele português corretíssimo:

- Vem ne mim, corona! O Queirós é o meu protetor!

Será que os candidatos vão querer sair em fotos abraçados com Bolsonaro? Fazendo arminha? Dizendo "tá ok"?



Rotary: preservar o planeta Terra - Hipólito Ferreira

A Fundação Rotária aprovou a inclusão do meio ambiente como nova área de enfoque do Rotary ou sua adição às já existentes 
Revista Rotary - março de 2020

No mês de abril de 1991, o então presidente do Rotary International, Paulo Viriato Corrêa da Costa, foi a Minas Gerais para participar do plantio de cerca de dez mil árvores em Contagem. Na saudação, o governador 1990-91 do distrito 4760, Roberto Noronha, disse: “Agora que você está quase saindo da presidência, o que pensa do futuro?” A reação foi imediata: “Noronha, não estou saindo!” O governador, sorridente, gracejou: “Na minha terra, até o meio do mato a gente está entrando, e passando do meio, a gente está saindo…”

Em seguida, o grande presidente fez uma das mais inspiradoras defesas do programa piloto Preserve o Planeta Terra. Naquele ano, foram realizados quatro fóruns internacionais sobre meio ambiente, tendo um deles ocorrido no Brasil, em Manaus, a capital do Amazonas. Infelizmente, há cerca de 20 anos, esse programa foi descontinuado.
Hoje há no mundo uma grande conscientização quanto à preservação do planeta. Quase 200 países estão tentando limitar o aumento das temperaturas médias em atenção ao Acordo de Paris. Os Estados Unidos sofreram uma perda de 9 bilhões de dólares devido aos incêndios na Califórnia. Seca na Europa, tsunami no Japão, terremoto no Chile, enchentes na Índia e tufão nas Filipinas causaram grandes estragos.
Em janeiro, enchentes deixaram um rasto de mortes e milhares de desabrigados em Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nos dias de hoje, as emissoras de TV dão uma espetaculosidade no momento dos desastres e depois se recolhem. Aí, o Rotary sempre diz: “Presente!” Nenhuma parte do mundo está imune a desastres, mas os pobres são os que mais perdem com eles, ou seja, perdem tudo.
Na reunião de janeiro de 2020, a Fundação Rotária aprovou a inclusão do meio ambiente como nova área de enfoque do Rotary ou sua adição às já existentes. Em janeiro de 2019, foi estabelecido o Fundo Rotary de Resposta a Desastres como apoio para receber contribuições por meio dos mecanismos normais da Fundação. Além disso, foi criado o Subsídio Rotary de Resposta a Desastres para outorgar subsídios de até 25 mil dólares, desde que disponíveis no Fundo, sem a necessidade de parceiros.
Importante saber que esse não é um subsídio concedido por desastre e, sim, por distrito, e que, prestadas as contas, o distrito pode solicitar outro, até do mesmo valor. Buscar rapidamente contribuições de pessoas físicas, jurídicas – por meio da Associação Brasileira da The Rortary Foundation – ou usar o FDUC (Fundo Distrital de Utilização Controlada). Lembrar que esse Fundo é dinâmico – cresce e esvazia rápido – e, portanto, se ele for abastecido pelo distrito, o governador distrital ou o coordenador distrital da Fundação Rotária devem preencher o formulário online imediatamente.
Aqueles que terminam um mandato não estão saindo, pois liderança não obedece a calendário, não se extingue como os dias. Eles continuarão oferecendo oportunidades também a novos associados para despertar a consciência de se preservar o planeta Terra.
* O autor é Hipólito Ferreira, curador 2019-23 da Fundação Rotária.

Todos somos cegos? Ensaio sobre a cegueira

Foto de Orlando Brito 



“Este é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição.” (José Saramago)

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Só depois de 25 anos de seu lançamento, eu li o livro "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Como estamos vivendo pandemias, resolvi fazer a sua leitura, já que ele trata do tema.

Em 2018, enfrentamos a epidemia da cegueira. Setor do eleitorado não percebia a besteira que estava fazendo, estava cego. A ponto de dizer, como ouvi em sala de espera de banco: "Se Bolsonaro não prestar, a gente tira e põe outro! Brasileiro é foda!" Outros setores diziam que a cegueira estava do outro lado. A lucidez não mora só num lado. 

Em 2020, estamos enfrentando a pandemia do coronavírus. No começo, até este cronista não acreditava muito nessa conversa, mas houve gente que andou chamando-a de "gripezinha". 
José Saramago

O livro de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a ostentar um Prêmio Nobel de Literatura, apresenta também uma epidemia (ou pandemia), onde toda a população ficou cega, chamada de cegueira branca, porque o cego não via, mas não estava mergulhado na escuridão. A imagem sumia e no lugar ficava tudo esbranquiçado. Talvez fosse apenas falta de lucidez.

Até chamam o livro de de Saramago de "ficção científica", porque as personagens não têm nome: médico, mulher do médico, a moça dos olhos escuros, o primeiro cego, o homem de venda num dos olhos etc.; e nem determina o lugar onde acontecia a cegueira coletiva. 
O primeiro a ficar cego foi um motorista no semáforo à espera do sinal verde. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.” 

Aliás, quando o cineasta brasileiro Fernando Meirelles foi pedir que Saramago autorizasse transformação do livro em filme, a condição imposta foi não determinar o lugar da epidemia. E assim foi feito. 

E assim foi se alastrando, pegando até um médico oftalmologista, cuja esposa se fingiu de cega para poder acompanhar o marido ao isolamento dos contaminados num antigo hospício abandonado.

Na verdade, a narrativa do livro é distópica, pois  apresenta-a como uma espécie sem salvação, construída sobre a areia. Não há proposta que consiga a pôr nos trilhos. A utopia do mundo melhor não faz parte do livro, nem do jogo narrativo.

Considero que o livro "Ensaio sobre a cegueira" pode ser reescrito novamente, tendo como narradora a mulher do médico, a personagem que não ficou cega, que viu tudo, presenciou toda a tragédia. E participou dela ativamente, chegando ao assassinato em defesa do grupo de mulheres.

A convivência entre os cegos no isolamento onde já funcionara um hospício é um ponto forte do livro. Todos eram cegos, não havia guia de cego. Mesmo nessa condição, a pequenez da condição humana vicejava na convivência. A mulher do médico se fingia de cega, mas ninguém desconfiava disso porque os demais ao seu redor não viam que ela não tinha trejeitos de cego.

Outro momento forte da narrativa é após o incêndio do local da quarentena, quando os cegos ficaram perdidos pela cidade praticamente abandonados, nem podia voltar para suas casas, ninguém tinha experiência de caminhar pelas ruas como cego. Apenas o pequeno grupo de personagens da narrativa tinha o privilégio de ter a mulher do médico. Um privilégio para localizar alimentos nos empórios e supermercados abandonados. 

Um fator interessante foi a linguagem, porque as expressões que traziam a visão como centro se tornaram obsoletas. A voz ganha "status" de importância. O verbo "ver" que era quase sempre conjugado, também era logo rechaçado. A cegueira tira os olhos como o sentido-rei de nossa existência.

Para concluir, chamo o próprio Saramago com suas sábias palavras: “O sentido de responsabilidade é a consequência natural de uma boa visão, mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.”  

Neste tempo de pandemia do coronavírus, a leitura de "Ensaio sobre a cegueira" pode trazer certa lucidez. Boa leitura, com o corpo bem suado.    

22.5.20

Receita médica sem assinatura

Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, Tubaína, diz Bolsonaro (Folha de Sao Paulo)


O protocolo (receita médica sem assinatura) dada por gente que não é médico pelo uso da cloroquina no combate ao coronavírus:  foi um tiro n'água. Passaram a mão na bunda do Bolsonaro e ele fez que não viu. Saída honrosa.  S


O texto do protocolo, ou seja, o documento apócrifo, não foi assinado por nenhum médico nem pelo presidente Bolsonaro, pois não teve coragem, e nem mesmo os militares que tomaram o Ministério da Saúde dos médicos assinaram, fala que a cloroquina não presta para o combate do coronavírus.

O protocolo diz assim: "Se você quiser tomar cloroquina, que tome, mas ninguém é responsável por nada, pelos efeitos colaterais, problema seu, cidadão brasileiro". Mas que receita esquisita: fala que o remédio é perigoso e não tem o nome do médico que o receitou?


Foi o jeito que encontraram de o menino birrento, enfezado, mal-humorado aceitar a derrota (saída honrosa), mas para isso foi preciso demitir dois ministros e morrer muita gente. Se fosse antigamente, o presidente já estava internado num hospício. Como diz o jurista Miguel Reale Júnior: o Bolsonaro precisa ser interditado. 


Então. Puseram o "home" lá porque o povo gosta de gente doida, agora estão com vergonha do que fizeram e parte dos brasileiros ficam sofrendo junto.


Cloroquina ou tubaína? Tubaína, uai! Tem menos contraindicação, faz menos mal, docinha, gostosa.

20.5.20

Escova, dentifrício e fio: e os bochechos? - Alberto Consolaro


Enxaguante é um complemento da higiene bucal que sozinho, sem escovação, dentifrício e fio, praticamente não tem efeito!   
A boca é a região corporal com maior variedade e quantidade de microrganismos. O conjunto de bactérias, vírus, fungos e parasitas recebe o nome de microbiota, muitas vezes equivocadamente referida como flora ou microflora, nomes mais apropriados para os vegetais. O controle quantitativo da microbiota bucal é dificultado pelas reentrâncias e irregularidades das estruturas que compõem a boca.
IRREGULARIDADES
Entre a gengiva e os dentes tem-se uma interface que forma um “sulco”, onde cabem milhões de microrganismos. Nos dentes saudáveis, na parte oclusal dos posteriores e na face palatina de canino a canino, tem-se uma quantidade incrível de sulcos, fissuras e depressões onde se pode alojar milhões microrganismos.
No sulco gengival e nas irregularidades anatômicas dos dentes, a microbiota pode se organizar na forma de aglomerados e se fixar em locais inacessíveis a escovas, fios e enxaguantes. Igualmente, na superfície da língua, a irregularidade é espantosa e oferecida pelas papilas minúsculas aos milhares que retém muitos alimentos e acolhem zilhões de microrganismos. Nas tonsilas palatinas, na passagem da boca para a faringe, as irregularidades guardam ainda outra riquíssima microbiota que se adentra por dentro delas.
Se na boca tem próteses, aparelhos ortodônticos, placas, chupetas e outros objetos, as irregularidades aumentam mais ainda, redobrando-se os cuidados. Se houver cáries, gengivites e periodontites, devem ser tratados, pois aumentam muito mais a quantidade e a variedade da microbiota bucal, podem ser fonte de outros problemas na saúde do paciente.
BIOFILME
Nas superfícies dos dentes, gengiva, língua e de outras partes da boca, a microbiota pode formar películas bem organizadas em forma de verdadeiros “condomínios horizontais e verticais”. Neles, se tem vias de circulação, bairros com população específica e uma troca metabólica e nutritiva incrível, dignas de shopping centers humanos. Estes condomínios são os chamados biofilmes microbianos. Não são formados por dente e nem apenas por bactérias e, por isto mesmo, não devem ser chamados de biofilmes dentários e nem de biofilmes bacterianos, pois tem também vírus, parasita e fungos.
Estas películas são recobertas e envolvem os microrganismos com um “gel” ou uma “cola” de polissacarídeos quase insolúveis frente a saliva, alimentos e produtos químicos. São as bactérias que os produzem para se proteger e atuar como reserva nutritiva se em algum momento faltar alimento, pois estes humanos vivem fazendo dietas! 
Antibióticos, antivirais, enxaguantes e outros produtos não conseguem dissolver os biofilmes microbianos. A única coisa que conseguem desorganizar e remove-los são a escova dentária, os dentifrícios e o fio dental, ou seja, tem que ter uma ação mecânica qualquer.
DENTIFRÍCIO
Os dentifrícios são importantes no controle da microbiota bucal pois contém agentes químicos antissépticos, em especial água e sabão que, acompanhados da ação mecânica e bem direcionada da escova, desorganizam e destroem os biofilmes microbianos que se formam, infiltrando-se (via água e sabão) nas irregularidades. A escovação ou qualquer outra ação mecânica na língua deve ser leve para não machucar, mas é essencial que se faça para diminuir quantitativamente a microbiota bucal.
Depois da higiene bucal via escova, dentifrício e fio dental, o enxaguante atua como um complemento, mas não isoladamente e sem uma ação mecânica prévia ou simultânea! Se optar por usar este complemento ou auxiliar da higiene bucal, escolha aquele que não agrida quimicamente os tecidos da boca e que não seja co-carcinogênico (como os que contem álcool ou peróxido de hidrogênio/água oxigenada), ou seja, aquele que mais lhe agrade no sabor e conforto oferecidos!
POR FIM
A higiene bucal adequada é a melhor antissepsia que temos para esta região do corpo. Antissepsia é o conjunto de ações que diminua a quantidade de agentes patógenos em um local em que eles existiam previamente no contexto de um organismo vivo! 

Alberto Consolaro – Professor Titular da USP - FOB Bauru-SP - consolaro@uol.com.br 



Juntos no Dia do Desafio


Nesta edição, o Dia do Desafio, agendado para quarta-feira dia 27 de maio, acontecerá em formato virtual reunindo desafios, aulas, dicas e informações distribuídas pelas redes sociais no perfil do Dia do Desafio no Facebook, no instagram @esportesescsp e nos canais de parceiros e da rede do Sesc, em todo o Brasil e em diversos países do continente americano.

Coordenado mundialmente pela TAFISA - The Association For International Sport for All e, no Continente Americano, pelo Sesc São Paulo com apoio institucional da ISCA - International Sport and Culture Association e da UNESCO, consolidou-se como um dos mais importantes movimentos comunitários de combate ao sedentarismo.

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