AGENDA CULTURAL

7.8.20

Viver e deixar o outro viver. Abaixo o fanatismo religioso


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

O Sebastião Jr, pré-candidato a prefeito de Araçatuba pelo PT (pois candidato bom tem que ser assim, porreta, não tolera injustiça, não faz média com a intolerância e o preconceito) me chamou a atenção para uma numa notícia: "Mãe perde guarda da filha após jovem participar de ritual do candomblé". Juro que li isso muito rapidamente numa notificação do UOL (leia-se Folha de São Paulo) na tela do computador e não dei a devida atenção. 

Como acontece todos os absurdos por esse mundo de meu Deus, nunca imaginava que isso estava acontecendo em Araçatuba, debaixo de meu nariz. Com a indicação do Sebastião, corri atrás da notícia. 

Como é difícil ser negro, viver em paz, num país que foi construído por gente de cor. Não podem nem professar a religião de seus ancestrais. Ninguém denuncia alguém que leva uma criança pela mão a uma igreja evangélica, católica e outras. O fanatismo faz criar a intolerância, a inventar a mentira, a calúnia, a produzir fake news.

Todas as religiões têm algo estranho, elas trazem em seus ritos a ancestralidade. A católica tem como símbolo uma homem sendo torturado numa cruz. Que imagem mais mórbida, mais chocante, com tanta violência. Como sou católico, acho o crucifixo a coisa mais normal do mundo.

Os evangélicos pentecostais entram em transe, gritam, durante os cultos. Como moro ao lado de uma igreja assim, escuto as mais variadas manifestações. Nunca chamei a polícia para internar todos num hospício. E isso faz 38 anos. Porque não atrapalham o meu sono, não me impedem de fazer as festas de vez em quando no fundo de meu quintal. Já me acostumei tanto com eles, que são meus vizinhos amigáveis. Isso se chama tolerância, vivo e deixo o outro viver também.

No mesmo quarteirão onde moro (ele é diverso e ecumênico, graças a Deus), há uma casa com um terreiro de candomblé. Na sexta feira, há os cultos, embora seja quase defronte à minha casa, o barulho é abafado e baixinho, nunca me incomodou. Quero que eles vivam, tenham a sua fé, são meus irmãos. 

Já participei de várias campanhas eleitorais. Todos os candidatos visitam igrejas e também os terreiros. Ser candidato é uma aprendizagem, ser prefeito, vereador, secretário municipal também; a pessoa passa a conhecer todos os metros quadrados da cidade.  

Não vou descadeirar a evangélica que fez a denúncia, inventou uma série de coisa, porque ela foi cegada pelo fanatismo. As nossas autoridades não podem navegar no mesmo atraso, estamos sob o vigor da Constituição Cidadã de 1988.  

(Sebastião Júnior, obrigado, continue assim, não se cale diante do descalabrado, pensando que está ganhando votos.) 

LEIA A NOTÍCIA DO UOL, CLICANDO AQUI.  
           

5.8.20

Marketing pessoal - Gervásio Antônio Consolaro



    Um mundo onde os sonhos se tornam realidade e os objetivos são alcançados, um mundo onde as oportunidades se transformam em conquistas e onde o trabalho é fonte de prazer e satisfação.

     Existem várias dicas que procuram ensinar neste sentido, com intuito de ajudar as pessoas de qualquer idade, sexo, classe social ou nível de escolaridade a transformar seus sonhos em realidade.

     Devemos lembrar que sucesso não é ter uma casa na praia, um carro importado na garagem, um iate na marina ou um jatinho no hangar. Sucesso nada mais é do que atingir um objetivo, seja ele qual for. Desta forma, passar no vestibular, conseguir o primeiro emprego, ser promovido etc.

      Anule seus pontos fracos e deficiências: tão importante quanto conhecer seus pontos fortes é conhecer seus pontos fracos, deficiências e limitações. É inseguro, não gosta de acordar cedo, não é formado, é fechado, reservado, não gosta de liderar ou assumir riscos. Apenas um ponto fraco será o suficiente para obstruir sua caminhada rumo ao sucesso se a habilidade que você não domina é justamente um pré-requisito para a carreira que escolheu.

    Adote uma conduta digna de admiração: verdade que deveremos cuidar de nossa saúde física, mental e espiritual e investir em nosso visual. Mas isso caro leitor é só o começo. É preciso, agora, atingir o lado emocional das pessoas. É importante que você se torne uma pessoa digna de admiração e respeito por todos que venham a ter contato com você ao longo da vida. O comportamento é tão importante quanto o conhecimento, pois de nada vale o conhecimento sem a devida humildade.

     Ninguém gosta de se relacionar ou trabalhar com pessoas arrogantes, prepotentes, rudes, pessimistas, de baixo astral, mal-humoradas e que vivem se lamentando ou reclamando de alguma coisa. Gostamos, sim, de nos relacionar com pessoas otimistas e bem-humoradas, que estejam a maior parte do tempo de alto-astral e que raramente reclamam de algo. Ou será que não pode haver bom humor e descontração no ambiente do trabalho? Não só pode como deve. Aliás, o humor é tão importante que até faz parte dos famosos quatro Hs do sucesso: Humor, Honestidade, Habilidade e Humildade.

    Se as pessoas gostarem de se relacionar com você, suas chances de se defrontar com boas oportunidades profissionais. E mais : se gostam  de você, vão gostar de trabalhar com você.-“Aja sempre de forma correta. Isto irá agradar algumas pessoas e surpreender as demais.”  Mark Twain”

     Cumprimente a todos, conhecidos e estranhos: “Olá como vai?”, “Oi tudo bem”?, “Bom dia, como está”?. Como é bom encontrar pessoas que nos recebem com um efusivo e alegre cumprimento. Em contrapartida, nada mais desagradável que encontrar um conhecido e ver que, apesar de tê-lo notado, ele passa direto e nem o cumprimenta.

     Cumprimente com um sonoro “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” todos que você conhece. Familiares, amigos, conhecidos, colegas de trabalho etc.

    Por fim, recomenda-se cumprimentar pessoas que você não conhece, tais como porteiros de prédios, de empresas, secretárias, ascensoristas etc. Soa simpático educado.” “Todos gostam de um cumprimento” Abraham Lincoln,

Gervásio Antônio Consolaro, ex- delegado regional tributário do estado/SP, agente fiscal de rendas aposentado. Assessor executivo da Prefeitura de Araçatuba, administrador de empresas, contador, bacharel em Direito e pós-graduação em Direito Tributário. Curso de Gestão Pública Avançada pelo Amana Key e coach pela SBC.

Trombose da covid no soalho da boca - Alberto Consolaro

Em A e B = vasos sublinguais de pessoas saudáveis. Em C a F = microtromboses apontadas pelas setas e asterisco nas imagens apresentadas no trabalho da pesquisa


Uma corrente turbulenta sai do coração, vai pelos tubos e canais dos vasos sanguíneos a passear pelos tecidos do corpo com seu líquido cheio de barcos ou células de defesa, além de nutrientes e estímulos químicos em sua composição.

Sangue não pode parar e, se parar nos vasos, coagula e isto passa a chamar-se trombose. Naquela parte de tecido que fica sem o sangue que seria levado pelo vaso trombosado, as células necrosam, mas podem sobreviver se receberem sangue de vasos vizinhos colaterais que compensam esta falta. Órgãos com muitos vasos colaterais são mais resistentes na trombose, mas outros como os rins e o cérebro ficam mais em perigo se vasos fecharem, pois têm poucas opções alternativas de fonte sanguínea.

Quando se fala em vaso sanguíneo, quase todos comparamos com mangueiras e canos com paredes bem espessas. Pode até ser correto para os vasos médios e grandes como aorta, carótida e femoral, mas não serve para a grande maioria. A quase totalidade deles são extremamente finos e semipermeáveis e, se fotografados no seu conjunto, como em uma parte do braço por exemplo, se parecem com um prato de espaguete pela quantidade e forma de se organizar! Se quer ver como são muitos fininhos e em grande número é muito fácil.

1. A pele na superfície tem uma camada de proteína chamada queratina, mas nas mucosas da boca e outras cavidades esta camada não existe ou é muito delicada. Isto deixa as mucosas transparentes com a cor de tecido com sangue embaixo delas, lhe dando aquela tonalidade rosada.

2. Vá na frente do espelho e levante os lábios e fique observando-os internamente. Isto pode ser feito também levantando a língua ou dobrando as pálpebras para fora. Na mucosa você verá uma quantidade incontável de linhas bem finas, delicadas, vermelhas e contínuas. Se pudéssemos aumentar o tamanho destas linhas, iam parecer as ruas lotadas de carros, ou sangue, numa grande cidade vista de um helicóptero.

O difícil é ser simples, dizia Manoel Bandeira. Olha que ideia simples e espetacular. Na covid-19 a trombose nos pequenos vasos de órgãos – ou microtromboses - como pulmão, cérebro e coração é muito importante. É preciso avaliar e observar isto para fins de controle e tratamento.

Os pesquisadores DAE Santo, ACB Lemos e CH Miranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, usaram uma metodologia simples para avaliar isto: em 13 pacientes com covid-19 em ventilação mecânica, analisaram e fotografaram os vasos do soalho da boca, que tem a mucosa muito transparente e fina, e detectaram numerosas interrupções do fluxo sanguíneo por microtromboses (medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2020.07.09.20149971). Assim, propuseram esta manobra como uma possível forma para avaliar, por extrapolação, o que estaria ocorrendo no pulmão e especialmente no cérebro!
Simples assim! Clarice Lispector dizia: “Não se enganem senhores, atrás da simplicidade existe muito trabalho” e o escultor romeno Constantin Brancusi afirmou: “A simplicidade é complexidade resolvida”!



Alberto Consolaro – Professor Titular da USP - FOB Bauru-SP - consolaro@uol.com.br



4.8.20

Com quantos golpes se faz uma canoa? Por Carlos Botazzo[1]


 A incrível história que não tem fim

Era o 11 de setembro. Amanhecera um pouco nublado, porém pouco depois as nuvens se foram e um sol ralo tomou conta do céu. Embora o azul refletisse embaixo como um cinza brilhante, seria equivocado e nem de longe se poderia dizer que aquele era céu de brigadeiro. Para o pequeno grupo que naquela hora da manhã se achava no interior do prédio mais solene da cidade, as notícias não eram boas e alguma tensão mantinha-se no ar, eletrizando os que se achavam próximos. Havia indefinição e isso gerava uma certa angústia. Então, o avião foi visto. E logo depois viram outro. Vindos do norte, fizeram acentuada curva à esquerda e aprumaram na direção do imponente edifício. Primeiro um, seguido logo de perto pelo outro. O Hawker Hunter da dianteira mergulhou e o que vinha atrás fez o mesmo. Passaram raspando pelo topo, mais ou menos se encaixando por entre os prédios das ruas paralelas. A primeira explosão sacudiu a estrutura desde seus alicerces, que pareciam estar sendo arrancados do lugar onde ancestralmente haviam sido colocados. 
Dizem que foram moldados por grandes pedras, justo para suportar fortes abalos. Enquanto o pequeno grupo se refazia do impacto e tentava respirar em meio à fumaça e à poeira dos escombros, os Hawker fizeram uma segunda incursão e logo uma terceira, uma quarta e logo já não havia mais o que fazer. Quase metade do edifício jazia em ruinas e focos de incêndio iniciavam a destruição fina do lugar. Em poucos minutos, o acervo documental e a rica memória ali abrigada foram consumidos para sempre. Outra memória se ia a iniciar, mas dessa vindoura absolutamente ninguém sequer suspeitava que poderia ter algum dia lugar na história. Salvo o Homem que era o objeto daquela caçada. Agora, aos aviões sucederam-se os blindados e outros carros de combate terrestre. O forte canhonaço completava em detalhe a destruição que os aviões não haviam dado conta. O destino naquela manhã, trágico que fosse, acabava de ser traçado. O destino, esse estranho que nos acompanha, criador-criatura que marca conosco as linhas da nossa própria existência, havia esgotado seu repertório de premonições e prodromias. É forte o cheiro de gasolina, a fumaça tudo cobre e a respiração fica a pouco e pouco mais difícil. O Homem pede aos próximos que saiam, não permaneçam ali, que se salvem. Alguns o ouvem, nem todos. O homem concilia ao destino, em tom breve, seu amor pela terra natal e sua fé no futuro. Su profunda fe en el futuro. Ouve-se, ouviram os presentes, um seco estampido. Alguns juraram ter ouvido um som seco, sim; e, todavia, característico da castanha esmagada. O Homem é encontrado com o crânio dilacerado. Ao lado do corpo estendido num sofá, o fuzil.[2]

Palácio de La Moneda bombardeado no 11 de Setembro de 1973
Ao final desse dia 11 de setembro de 1973, o cenário de destruição que assolava Santiago estende-se a todo o país. Centenas, milhares de presos começaram a ser levados para o Estado Nacional, em Ñuñoa,[3] e centros de detenção menores. Todos improvisados porque não havia cárcere suficiente para tanta gente. Houve resistência, mesmo depois da queda de La Moneda. Não durou muito, alguns dias apenas, talvez semanas, e todavia houve. Houve também fuzilamentos sumários naquele e nos próximos dias e meses. Repetindo: neste fatídico 11 de setembro foram assassinadas mais de mil pessoas. A cifra chegaria a quase cinco mil assassinatos nos meses seguintes. O rigoroso toque de recolher, se desobedecido, era castigado com a morte. Ninguém saía nem entrava. Sindicatos, fábricas, escolas, igrejas, associações, partidos políticos, as câmaras técnicas, o Parlamento, os governos provinciais, os Ministros de Estado: nada restou intocado já ao final deste primeiro dia. Digamos então em reverência Primeiro Dia. Carnificina no Primeiro Dia. Muita. A morte do Homem no Palacio de La Moneda marcou o começo da grande carnificina. Salvador Allende Gossens foi o primeiro. Depois dele, milhares. Com crueza e fealdade, os comandantes militares colocaram seu bloco na rua.

Melhor dito, seu exército, que já não era mais o exército da nação, mas tão somente uma força armada que, pretorianamente, obedecia seu general. Antes conhecido como O Medíocre, agora entronizado como comandante-em-chefe, ao cair a tarde desse Primeiro Dia ele já se havia transformado em Dictator Maximus. Assassinato. Truculência. Carnificina. Barbaridad genocida. O país estava perplexo como nunca antes havia estado. Chocado, seria melhor dizer. E chocado permaneceu por muito tempo.

O que é choque, qual seu efeito? Digamos um choque emocional, um choque violento, a morte de alguém muito querido em circunstâncias trágicas. Ou, digamos que tenha havido um cataclismo (kataklysmós), com destruição e mortes em poucos minutos. Já vimos esta cena: pessoas andando perdidas, pra lá e pra cá. Balbuciam coisas sem sentido, andam sujas, andrajosas, melecadas. Um golpe de Estado, no entanto, não é um evento natural. Por mais cataclísmico que seja, o golpe é produto humano, fruto de relações políticas, portanto, relações de poder. Uma pessoa chocada é vulnerável. Pode parecer idiotizada, ficar idion, ou seja, referida a si, fechada em si mesma. Não mais reativa ao que acontece do lado de fora.

Como vulnerar uma pessoa  propositadamente, como transformá-la em zumbi, alquebrá-la, retirar dela qualquer substrato de vontade e discernimento? Como fazer com que ela “colabore” com a autoridade?

No livro A Doutrina do Choque, a ativista política canadense, Noemi Klein, nos conta como.[4] Ela relata que pesquisas em psicologia comportamental conduzidas nos anos 1950 indicaram como isso seria possível. Um projeto na Universidade de McGill, Montreal, submeteu voluntários a tratamentos desumanos: privação sensorial com isolamento completo por dias e semanas. Na fala do coordenador do projeto, Donald Hebb, “a privação sensorial é na verdade uma forma de conseguir monotonia extrema. Causa perda de capacidade crítica, o pensamento é menos claro, os pacientes queixam-se de que nem sequer conseguem sonhar... Enquanto fazíamos nossas experiências, começamos a pensar que é possível que algo que produza mal-estar físico e inclusive dor poderia ser mais tolerável do que simplesmente as condições de privação que estávamos a estudar”. Donald Hebb interrompeu as pesquisas: “Não tinha ideia, quando o propus, o quanto perversas estas armas, potencialmente cruéis, poderiam chegar a ser.” Hebb denominou privação sensorial de arma. Perversas armas.

Pouco tempo depois, ali mesmo, teve início outro projeto coordenado por Ewan Cameron. Se antes com Hebb os voluntários tinham a liberdade de
interromper a cooperação, com Cameron as vítimas não tiveram a mesma sorte. Segundo Hebb, “o que ele fez foi mais longe do que havíamos feito. Trabalhamos estritamente sob a condição de que os sujeitos em estudo tinham a liberdade de sair quando o desejassem e alguns o fizeram”. No Memorial Allan Institute, da McGill, Cameron conduziu experiências com pacientes psiquiátricos e não devia satisfações éticas a ninguém. Ali, literalmente ele se entregou ao projeto 
de esvaziar ou apagar o cérebro dos seus
pacientes, um protótipo do que ficou
conhecido como técnica de 
brainwhashingA velha e conhecida lavagem cerebral. Tirar tudo de suas cabeças, dessubjetivá-los, para os reconstruir a partir do zero. Choque elétrico, sono induzido e repetição de mensagens gravadas, estas eram algumas das técnicas por ele utilizadas. Militares norte-americanos e de outros países demonstraram grande interesse e acompanharam de perto as pesquisas de Cameron. A CIA levou à prática o trabalho dele, codificado num manual de instruções denominado “KUBARCK”.[5] Tortura de prisioneiros era um dos tópicos. E então choques elétricos, espancamentos, fome, sede, privação de sono, calor ou frio extremos, ameaças. Quanto tempo até que o sujeito desmorone? Entre outras, essa foi a pergunta. A resposta permitiu
apontar os caminhos práticos que
poderiam “quebrar” um prisioneiro,
com que ele deixasse de resistir. Em
conjunto, os achados de Cameron seriam
muito úteis na guerra psicológica que abria
suas primeiras fronteiras. A guerra fria
estava prestes a conhecer novos patamares.[6]

Submeter prisioneiros a maus-tratos não é coisa nova. O novo é o uso racional e
metódico dessa forma de violência e a
possibilidade de ser ensinada. O que se quer é a colaboração da vítima, a
informação, não sua morte. Entretanto,
um prisioneiro pode ser assassinado por meios torpes e, neste caso, não importa a quanto de tortura e a quantas tormentas ele será submetido até que a morte sobrevenha. No genocídio argentino, entre 1976 e 1982, prisioneiros foram enviados aos Centros Clandestinos de Detenção, Tortura e Extermínio, cerca de 300 em todo o país. La Perla, nas cercanias de Córdoba, foi o mais importante deles. Quase todos os sequestrados lá detidos iriam ser mortos, logo não fazia diferença e viessem a colaborar ou não. Assim, desde o momento da detenção eram submetidos a tratamentos degradantes. Todas as mulheres foram sexualmente abusadas ao longo do tempo em que lá estiveram e mesmo alguns homens; todos foram submetidos a excruciantes torturas físicas; choques elétricos e espancamentos se sucediam dia e noite até o dia da batalha final.[7] O objetivo das forças militares argentinas era esse: matar, eliminar, reduzir a escombros aquelas pessoas classificadas como inimigas da pátria. O que acontecia nesses lugares – porque em certa altura toda a gente bem fazia ideia - era mantido apenas em parte silenciado. Informações “vazavam” à sociedade e não raro um corpo mutilado era deixado à mostra em logradouros públicos de grande circulação. O cadáver cumpria sua função de peça de propaganda política. Aquilo era mesmo para ser visto e não para ser ocultado: faremos tremer até os inocentes, diziam. Ao ler as reflexões de Feinmann[8] acerca desse período, recordei que no navio 
negreiro era produzido um choque 
assemelhado. No momento em que o grande tumbeiro levantava âncoras com sua carga humana completa, ensardinhada  nos porões abaixo do convés, um cativo era escolhido pela tripulação, conduzido forçado até o mastro principal, sendo ali amarado e, diante de todos, chicoteado até a morte. Choros, gritos, lamentos, urros, sangue, urina, fezes. Os despojos eram atirados pela amurada e faziam o deleite de tubarões famintos. A cena daquele “desmonte” da negra carne, produzida como um teatro de requintada crueldade, gerava nos circunstantes um estado tal de pavor que garantia a travessia do mar oceano sem maiores transtornos com a disciplina.

Voltemos a Naomi Klein. Não muito longe da McGill, na outra margem do Lago
Michigan, num outro laboratório se
preparavam formas novas de intervenção. Não em indivíduos, mas em coletivos ou na sociedade. Era gente limpa e culta, mais limpa e culta que os auxiliares de Cameron. E não se tratava de choque elétrico nem de fármacos e sim de
economia política. Lá, na Illinois University, pontificava Milton Friedman. Klein o chama de “o outro Dr. Choque”: choque neoliberal, como veio a se chamar décadas mais tarde.

Neoliberalismo ou ultra-liberalismo significa eliminar a esfera pública da vida econômica de uma nação. Por economia entende-se os modos de produzir a vida, todas as formas, incluindo as subjetivas. Pronto, tudo isso virou mercadoria, num estalar de dedos. Tudo isso deve virar mercadoria, sustentava a economia política de Friedman. Só assim haverá felicidade. Se alguns têm muita riqueza e muitos pouca ou nenhuma, isso apenas se deve ao mérito dos primeiros. Ou a acasos genéticos, loterias, como se diz. O caso é como convencer os cidadãos a aceitarem redução de direitos e ganhos, e mesmo a extinção de alguns deles; menor renda, maior jornada, inseguridade social,
precarização, manipulação da comunicação, violência institucional, criminalização étnica, aumento da miséria, é assim que o choque neoliberal de Milton Friedman trabalha. Tem sido assim no mundo globalizado desde algumas décadas. Quer dizer, desde o começo dos anos 1980. De lá para cá, para a maioria do povo as possibilidades de morrer à míngua ou nas mãos de agentes do Estado ou, que seja, sofrer alguma violação aumentaram.

Naomi Klein vai dizer que uma sociedade não aceitaria ser submetida a tais restrições passivamente. E, todavia, se tiver quebrada sua vontade, tais políticas de privatismo maximizado e destituições violentas poderiam ser implementadas. Por isso ela fez comparações entre a quebra da vontade de um sujeito e a quebra da vontade de uma nação, de um povo.

Noemi Klein faz essas comparações entre tortura e economia ultra-neoliberal. São muitas, podemos crer. Em seu livro sobre como nações podem ser “chocadas”, ela diz que isso pode acontecer “por guerras, ataques terroristas, coups d’état desastres naturais”. E são outra vez
“chocadas” por corporações e políticos que
exploram o medo e a desorientação deste
primeiro choque para impulsionar a
“terapia” do choque econômico. E então
as pessoas que ousam resistir a essa
política de choque são, se necessário
“chocadas” pela terceira vez - pela polícia e por soldados, pela prisão e interrogatórios. Ou seja, o estado catártico produzido no indivíduo por ação violenta, também poderá ser produzido nas sociedades, como fenômeno de massa.

Ilustração cruzando as duas datas: 11 de setembro de 1973 e 11 de setembro de 2001
No Chile isso tudo aconteceu mais ou 
menos em simultâneo, já naquele primeiro 
dia. Quarenta anos depois, publicação 
brasileira deu o seguinte destaque: “Vitorioso, Pinochet impôs sua ferrenha ditadura e se vangloriava de controlar até o movimento das folhas (...) Junto a um grupo de discípulos de Milton Friedman, impôs um modelo liberal ao extremo que levou ao lançamento da economia após a privatização de empresas e serviços do Estado”.[9] Tal modelo, ou melhor, projeto, denominava-se El Ladrillo. O Tijolo. O tijolo com o qual se construiria nova e original experiência, todavia de feição familiar: eliminação do controle de preços, venda de empresas estatais, eliminação dos impostos de importação e cortes dos gastos públicos, entre outras medidas. Friedman comemorou tal esfuziante momento e o chamou de “movimento rumo ao livre mercado”.

Já antes Friedman vinha recebendo estudantes estrangeiros em seu laboratório na Illinois University, lugar onde se havia apropriadamente entronizado Alfred Von Hayek, o papa do neoliberalismo. Lá concluíram seus cursos de mestrado e doutorado. Alguns eram brasileiros, entre os quais Paulo Roberto Nunes Guedes, hoje o mais famoso deles. Estudantes estrangeiros da Chicago School of Economics foram estagiar no Chile, para ver na prática como se devia fazer, como se devia acabar com a servidão. Em 1972, ainda no governo Allende, Friedman abrira um programa de formação em “livre mercado” para estudantes de economia chilenos. Os da Universidade Católica foram para lá, depois apelidados “The Chicago Boys”. Saiu deles, naquele longínquo 1973, o primeiro tijolo que décadas depois viria a matar velhos precariamente aposentados.

Ativistas de direitos humanos exibem retratos de pessoas desaparecidas durante o regime militar em manifestação pelo 44º aniversário do golpe liderado por Augusto Pinochet contra o presidente Salvador Allende, em Santiago, no Chile — Foto: Claudio Reyes/AFP
Todos sabem que nenhum outro Estado foi tão extensivamente saqueado quanto foi o Chile na ditadura Pinochet. E claro que este saque só poderia ser feito às custas dos trabalhadores e do povo. Sem parlamento, sem partidos políticos, sem sindicatos, sem assembleias, sem discussão com a sociedade: decidia-se de manhã, botava-se em prática à tarde. Vamos privatizar tudo o que pode ser privado, vamos acabar com o monopólio estatal do cobre, vamos aproveitar que todo mundo está atordoado pra passar a boiada inteira, vamos controlar essa porra toda aí, porra! E vamos vender o Banco do Chile, porra! Deixa cada um se foder do jeito que quiser![10]




[1] Araçatubense aposentado e escritor bissexto.
[2] É farta a literatura sobre esse momento, incluindo relatórios técnicos e ensaios. Julguei de interesse partilhar matérias divulgadas em setembro de 1973 por jornal brasileiro que fez a cobertura do golpe. Confira em https://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/com-palacio-de-la-moneda-cercado-allende-se-suicidou-para-nao-renunciar-9841769. E principalmente aqui:  https://www.ebc.com.br/noticias/40-anos-do-golpe/2013/09/o-dia-final-de-salvador-allende.
[4] The shock doctrine. The rise of disaster capitalism. New York: Metropolitan Books/Henry Holt & Company, 2007. Confira o documentário com o mesmo título. Disponível em https://vimeo.com/26773488.
[5] Kubark Counterintelligence Interrogation. Disponível em      https://nsarchive2.gwu.edu/nsaebb/nsaebb27/docs/doc01.pdf. Confira também https://science.howstuffworks.com/torture-manual1.htm.
[7] Centenas deles foram dopados, acomodados em aviões e atirados vivos no Rio da Prata. Para outras informações sobre os CCDTE confira: http://www.apm.gov.ar/lp/1-la-perla-centro-clandestino-de-detenci%C3%B3n-tortura-y-exterminio
[8] Feinmann, José Pablo. Filosofía y derechos humanos. Buenos Aires: Planeta, 2019.
[10] Anotações da Reunião Ministerial do Governo do Brasil, realizada em 22 de abril de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TjndWfgiRQQ

3.8.20

Ganhou na Mega-Sena. E agora?


Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Araçatuba-SP

Araçatuba tem um novo milionário, sozinho, apostando R$ 4,50, ganhou metade da Mega-Sena, enquanto um  grupo de Brasília ganhou a outra metade. 

O milionário interiorano pode ser o meu vizinho. Não pode ser. Não vi nenhuma manifestação de alegria, nem contida, no meu quarteirão. 

Quem ganhou, se já sabe disso, deve ser um sujeito que gosta de dinheiro e acredita em Papai Noel. Não é como este cronista que não joga em loteria por medo de ficar rico e apenas trocar as características dos seus problemas.

O contemplado deve ter conferido as dezenas: 01-07-10-12-33-42. Talvez jogue nelas há anos, insistente: numa hora, vai dar. E deu! É impossível que não tenha conferido o resultado, depois de ficar na fila da lotérica para jogar.  

Não sei se evangélico joga na loteria. Se for e a igreja permite, vai logo contar para o pastor a sua sorte, deixará um gordo dízimo. Se não tomar cuidado, depois de várias mordidas, o novo rico não terá mais dinheiro. 

Será que o sortudo lutou muito para receber o auxílio emergencial de R$ 600,00 naquela agência desgraçada da Caixa Econômica Federal... Chegou a prometer num rosnar: "um dia volto aqui em melhores condições". E voltou. 

Agora, ele vai falar, cheio de panca, com o gerente:

- Boa tarde!

E se senta sob o olhar contrariado dos funcionários naquele sofá macio. O gerente faz um perfil da criatura e responde:

- Auxílio emergencial é do outro lado...

O contemplado se atreve (não faria isso nunca antes, pois tinha um medonho complexo de inferioridade) a cochichar algo no ouvido do gerente, que se espalha em alegria e puxa-saquismo. 

- Parabéns! Agora o senhor passou do outro lado! Vamos investir isso, temos muitas opções!!! 

Talvez o contemplado com a Mega-Sena esteja carregado de dívidas. Brasileiro sem dívida é raro. Dessa vez, ele vai limpar o seu nome na praça, deixando o credores contentíssimos.

Ou então o araçatubense sortudo que empurra um carrinho da Acrepom, recolhendo lixo reciclável pelas ruas da cidade. Agora, com tanto dinheiro, vai comprar uma camionete para fazer o serviço. O ganhador sem horizontes.

Seja lá quem for o premiado, vai realizar alguns sonhos, resolver as demandas familiares. Como foi um dinheiro ganho com facilidade, poderá gastá-lo rapidinho. Pobre quando ganha muito dinheiro de repente (leia histórias de jogador de futebol), não tem prática em administrar bens, perdê-lo é a coisa mais fácil do mundo.

A melhor vida é construída com dignidade, o suficiente para viver sem esmolar ou esnobar. "Aurea mediocritas", escreveu Horácio, poeta romano. Isso se constrói na luta pessoal e na luta política.
  

   

2.8.20

O Jair que há em nós - Ivann Lago


“O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência... em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.

Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.

O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.

O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.

Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.

Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. (...)

Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.
Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.

Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.
Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.

O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.

Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.

O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício. 
Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo?”

Ivann Lago
Professor e Doutor em Sociologia Política