AGENDA CULTURAL

24.3.17

Boné na casa do chapéu

 
Hélio Consolaro*

Sem estar esperando alguém, a campainha de minha casa tocou durante o dia de ontem, era uma voz masculina. Pelo interfone, cumprimentei-o e solicitei com quem queria falar. 

Ele respondeu:

- O sol está muito quente e eu preciso de um boné.

E ontem não foi um dia tão ensolarado. Não quis vender nenhum produto, não pediu alimento, queria mesmo um boné. Bateu campainha na casa de um sujeito que usa chapéu para pedir um boné. Nem sei se sabia desta particularidade. 

Podia ser alguma brincadeira de alguém. Se fosse um chapéu, teria um para lhe passar, mas ele quis um boné.

Respondi-lhe:

- Já vou!, sem abrir o portão. 

Tenho o coração meio mole, mas não sou trouxa. Eu me lembrei de um boné dependurado atrás da porta de meu escritório, brinde de um advogado de causas previdenciárias, Idalino Almeida Moura. Peguei-o e fui para o alpendre da casa com ele na mão.

- Boa-tarde!

- Boa-tarde!

Sujeito bem apessoado, meia idade, sem nenhum traço de mendicância, com a careca exposta, mas foi pedir um boné na casa do chapéu.

- Então, caminho a pé e a careca está precisando de uma proteção.

Pediu assim na cara dura como se fosse executar um serviço para mim, como se fosse minha obrigação socorrer a sua necessidade. Não deu nenhuma dica que me conhecesse.

- Segura aí!

Joguei-lhe o boné por cima da grade. Não me senti seguro para abrir o portão. Ele pegou o boné e saiu caminhando com a cabeça coberta. 

Podia ser uma brincadeira de um amigo, a armadilha de um inimigo. Ele esperava receber um boné de propaganda política e aí faria um escândalo. Sabe-se lá! 

Na verdade, o meu medo e minha desconfiança me afastou daquele homem; não puxei conversa com ele, não lhe pedi se estava mesmo querendo um chapéu... Desumanidades de nossa vida moderna.

Afinal, se saiu bem. Ele visitou a casa do chapéu e saiu com um boné na cabeça.   

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras.

23.3.17

Nero, de verde e amarelo


Arlen Pontes*

Sim o romano. E não, não é difícil uma comparação lídima do governo "júlio-claudiano" com o des-governo do "temer-morano" (é eu sei, não ficou bom) mas "morano" é o mais próximo que posso escrever de 'moro', ou posso ser conduzido de forma coercitiva —afinal, não há mais democracia nem liberdade de expressão.
Em tempo, o primeiro dos tiranos aqui descrito, Nero —"um quase vice" do seu tio Cláudio, quando viu que sua 'batata' ia assar, logo culpou os cristãos, claro, quem mais iria tacar o terror, digo, o fogo em Roma.

Vejam só o perfil dos cristãos à época: seguiram o filho de Deus, ajudavam os pobres, partilhavam da refeição... pronto, tá aí - "comunistas". Essa turma de 'petralha' já dava trabalho até mesmo no ano '0' DC.

E lá se foi Roma, destruída pelo fogo do imperador.

Já o segundo tirano ou vampiro como queiram, que também foi um vice - não um vice de verdade, está mais para um aproveitador sanguessuga - quando também sentiu a 'batata' ardendo, tratou logo de se proteger.

Nomeou coligados e correligionários, abraçou o capeta e beijou as aves, não, não é o "ave Caesar", mas os tucanos (e veja lá que tem prefeito que assumiu que matava "dos seus" quando pequeno) para se manter no poder.

E para não fugir da correlação fatídica entre o tirano e o vampiro, este segundo não tacou fogo em Brasília, mas fez pior.
- Busca por destruir de forma incoerente o futuro de todos os que trabalham e um dia vão trabalhar neste país, tirando deles (inclusive eu) direitos que foram conquistados durante anos de luta com uma "reforma" que está mais para desconstrução previdenciária.

Prejudicou de forma imensurável a médio e longo prazo o mercado, onde justamente o Brasil era mais competitivo frente às outras potências mundiais, a agropecuária, divulgando resultados de uma operação policial que ate agora, só há suspeitos disso e daquilo.

E para tudo isso, consorciou-se com um juiz que só enxerga uma sigla partidária, enquanto expõe o sigilo de uns, as "bundas brancas" do des-governo não saem nem em nota de rodapé da Playboy, triste.

E o Nero, nem usou verde e amarelo.
Mas entre enfrentar um incêndio de cinco dias ou uma destruição que levará anos para poder ser cessada, fico com a depravação de Nero do que a "fudida" coletiva em mais de 200 milhões de brasileiros de uma só vez.

*Arlen Pontes, arte-finalista, Buritama-SP

Troca de cor do teatro, da casa da cultura e da biblioteca municipal

Folha da Região, 23/03/2017
Hélio Consolaro*

Nem ia escrever sobre essa bobagem, mas me convenci de que precisava dar uma palavrinha, afinal, fui citado na matéria acima. Todas as cores do mundo são lindas, nós é que fomos atribuindo significados a elas, até chegar às vezes ao preconceito.

Não foi o ex-prefeito Cido Sério que mandou pintar tais prédios de vermelho. Ele baixou no início de sua administração um decreto determinando as cores dos prédios públicos municipais. A cor vermelha aparecia bem discreta, uma faixinha.

Os dois prédios, tanto da Casa da Cultura Adelino Brandão (não esqueçamos nunca de homenagear o patrono) como Castro Alves, ficam em área bem central, enquanto a biblioteca municipal Rubens do Amaral em zona nobre, todos bem antigos. Tais prédios não recebiam reforma há mais de 30 anos.

Na hora de pintar, conversei com um artista plástico, pedindo-lhe uma sugestão: qual cor dava mais imponência a um prédio antigo. Ele me disse que era o vermelho. Assim foi. Muitas empresas tem seus prédios vermelhos, como também é a cor do espírito santo, como é a cor de partidos também. E assim por diante.

No caso do Museu dos Ferroviários Moisés Joaquim Rodrigues, inaugurado em 2016, que é um prédio restaurado da Vila Ferroviária, ficou novinho em folha, não exigi como secretário que constasse do projeto as cores. Está lá também bem bonito e tecnológico noutras cores.

Se os atuais administradores querem pintar os prédios com o azul, cor da bandeira Araçatuba, cor do céu, etc., mas também uma das cores do PSDB, para marcar a mudança, que façam, sem minha objeção. Não deixarei de frequentar o teatro e a biblioteca por causa disso. Apenas torço para que as políticas públicas culturais avancem, trocar de comando é um dos benefícios da democracia. 

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Ex-secretário municipal de Cultura de Araçatuba

21.3.17

Operação Carne Fraca: somos comedores de carniça?


*Hélio Consolaro

Comedores de cadáveres somos, com certeza, pois matamos os animais para comê-los, somos de certa forma necrófagos também; quando fedem, passamos para osurubus, vermes e outros seres vivos que adoram carniça sem lhes fazer mal. No mundo rural, isso acontecia normalmente, de forma simples; no mundo urbano, esse processo ganha complexidade.  

Quando este blogueiro era criança, na zona rural, vivíamos de estilingue na mão, minha mãe sempre me dizia:


- Cuidado! É pecado matar urubu!


Como eu era meio cego e não sabia, só consegui matar um passarinho em toda a minha vida, mas havia um certo cuidado com os urubus, por serem os faxineiros do mundo. Como não sabem caçar, então vivem de comer o fato consumado.


A gastronomia e a culinária escondem o porquê de usarmos a pimenta em alimentos, principalmente nas carnes. Como antigamente não havia geladeira e nem freezer, nossos ancestrais se viravam com outros procedimentos e produtos para conservar a carne, sem mau cheiro, como o charque (sal e sol) e a pimenta.


Se inserimos o vinagre em nossa culinária para desinfetar alimentos crus (os japoneses usam o gengibre para tanto), a pimenta tinha originariamente a função de encobrir o gosto de carne estragada em nossos pratos.  


Sobre a operação "Carne fraca" da Polícia Federal que investiga a venda de carne estragada, empacotada (processada), ou seu reaproveitamento nos embutidos: linguiça, mortadela, salame, salsicha, há muitas ponderações a fazer.


Por que a Polícia Federal se meteu nisso? Não é competência do Ministério da Agricultura fazer a fiscalização da carne? Sim, o famoso carimbo do SIF, mas acontece que os fiscais estavam sendo corrompidos pelos frigoríficos. 


Toda ação tem efeitos colaterais, uma delas é mostrar que parte de nosso empresariado é corruptor, e sem corruptores não há corruptos. Outro efeito é fazer uma cortina de fumaça justamente na hora em que discutimos a Reforma da Previdência. Como também, prejudicar o Brasil na concorrência do mercado internacional da carne. E assim por diante. 


Se espremermos o nosso cérebro, vamos descobrir outras coisas, como: a carniça está instalada em Brasília.


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras.

19.3.17

Chega! Eu me rendo! Sou sócio do TAG



TAG é uma espécie de clube do livro, Editora Globo, Porto Alegre. Paga-se mensalmente para receber um livro e alguns adereços. Depois daquela propaganda passar por mim no Facebook milhões de vezes, eu gritei:

- Chega! Eu me rendo! Vocês, marqueteiros, não vão me deixar de consciência pesada por ser um leitor e não aderir!

Assim já li o primeiro: O Xará, gostei muito e reproduzo aqui a apreciação de dois escritores brasileiros sobre o livro. Já chegou o segundo (Hélio Consolaro).

SOMOS TODOS ESTRANGEIROS

FEVEREIRO 2017

Carne podre? Claro

Arlen Pontes*
Muito mimimi... todos sabem que os embutidos, salame, salsicha, presunto e mortadela são produzidos em sua origem com carne de cavalo, carcaça de porco (incluindo a cabeça), carcaça de peixe e carcaça de gado inteira, muito das vezes já expostas ao tempo durante semanas..
Só lembrando, o resfriamento como alternativa para preservação da carne só surgiu no século passado, então é óbvio que a humanidade sempre consumiu carne podre, podre e com larvas, que dava mais "sustância".
Sei que quase ninguém suporta o gosto fétido do chocolate, mas para quem gosta, é sempre bom refrescar a memória que mais de 30% do chocolate é composto por traços de baratas, moscas, pelos de ratos e outros insetos carnudos.
Eu sempre consumi carnes de todos os tipos e seus embutidos, e o máximo que consegui de prejuízo com isso até hoje foi o financeiro.
É muito mimimi para algo que todos nós sabemos, se você gosta de leite então pare de beber, se você consome massa de tomate industrializada você provavelmente já comeu a porcentagem equivalente de uns dez ratos inteiros.
Então menos barulho e mais carne podre.
Ah, um salame de cavalo, porco, peixe e papelão por favor, que hoje eu tô com fome.
*Arlen Pontes, arte-finalista, Buritama-SP

18.3.17

Bate-boca de prefeitos: conversa de desqualificados


Hélio Consolaro*

Algumas pessoas me procuram na fila do banco, em eventos culturais, enfim, na rua, perguntando que acho da administração do novo prefeito de Araçatuba, Dilador Borges.

Tenho dito que ainda é muito cedo para emitir uma opinião, porque só teremos um perfil do prefeito depois de um ano de sua administração, pois respeito a democracia e, como candidato derrotado, reconheço o vencedor. Nem que eu tivesse perdido por um voto, não ia propor o impeachment do vencedor. Saber perder faz parte de minhas parcas virtudes. E parece ser também do Luís Fernando da Lomy.

Por que um ano? No primeiro semestre, o vencedor ainda não desceu do palanque; no segundo, ele cai na real. Aos poucos, vai descobrindo que fez promessas impossíveis e que as críticas feitas ao prefeito sainte não tinha muito fundamento.

O jornal O LIBERAL, coluna Bastidores, edição de sábado, 18/03/2017, publicou uma nota muito interessante que ilustra aquilo que estou dizendo: “SUSTO DOS INEXPERIENTES: alguns membros do governo de Araçatuba que não tinham experiência do serviço público ainda levam alguns sustos. Acostumados às decisões imediatas do setor privado, ainda precisam aprender a conviver com as limitações legais e financeiras da área pública. Tudo é mais lento. Prazos precisam ser cumpridos. Não há como queimar etapas”.

Muitos desses sustos, as falhas dos inexperientes, não são assumidos pela nova administração, então jogam a culpa no falecido, ou seja, no antecessor.

Apesar de Cido Sério ter vendido a alma para o diabo, se esforçando para eleger uma bancada multipartidária na Câmara Municipal de Araçatuba para defendê-lo, “os seus queridos vereadores” passaram para o lado de lá. Ninguém faz a sua defesa.

Assim, ele mesmo teve que vir a público e se defender. Assim o bate-boca de Dilador Borges e Cido Sério pela imprensa e redes sociais  se estabeleceu, parecendo conversa de desqualificados.

Esse negócio de “Sustos dos inexperientes” vai me render outra crônica. Aguarde.


-->
*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Candidato a prefeito de Araçatuba, 2016, derrotado

16.3.17

O canto dessa cidade é meu

Se você, caro internauta, pesquisar no Google o mesmo título da notícia acima, encontrará muitos jornais noticiando a mesma coisa em várias cidades brasileiras. Isso significa que não se trata de um fenômeno de Birigui.

Vamos espremer nossos cérebros para descobrir a causa disso tudo. Prender os vândalos e dar um cacete em cada um é atacar o efeito, não resolve o problema. Façamos a pergunta: por que acontece esse vandalismo praticada por seus próprios moradores ou por jovens da própria cidade?

Vamos aceitar a hipótese de que sejam jovens e de que eles estão embriagados ou drogados, por isso praticaram o vandalismo. Qual a razão os leva a quebrar equipamentos públicos do lugar onde moram? Faltou educação dos pais, da escola? Ou todos nós temos responsabilidades no cartório por tal comportamento?

Há um sentimento muito forte que plantamos na alma das crianças e dos jovens, principalmente os mais pobres, os negros, que podemos chamar de "a semente do mal". Ele se chama REJEIÇÃO, cujo efeito aparece forte quando eles estão descontrolados, ingeriram alucinógenos. Rejeitar as pessoas é plantar a guerra, é chamar a violência.

E a nossa sociedade capitalista, que valoriza demasiadamente o TER pratica a rejeição a todo instante. Não ter um poder aquisitivo para comprar um tênis, por exemplo, é uma rejeição, sem falar na pobreza absoluta, no preconceito racial. Não estamos construindo uma sociedade que acolhe a todos, então, fica mais difícil construir o amor.

Resolve muito pouco nos rodear de cercas elétricas, morar com condomínios fechados. O redemoinho da violência chega lá, por isso precisamos construir uma cidade acolhedora, onde todos se sentem importante e participante daquele lugar, com a ideia forte do pertencimento.


O canto da cidade
Daniela Mercury e Tote Gira

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu

O gueto, a rua, a fé
Eu vou andando a pé pela cidade bonita
O toque do afoxé e a força de onde vem
Ninguém explica, ela é bonita

O gueto, a rua, a fé
Eu vou andando a pé pela cidade bonita
O toque do afoxé e a força de onde vem
Ninguém explica, ela é bonita

Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou

Não diga que não me quer
Não diga que não quer mais
Eu sou o silêncio da noite
O sol da manhã

Mil voltas o mundo tem
Mas tem um ponto final
Eu sou o primeiro que canta
Eu sou o carnaval

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu

Não diga que não me quer
Não diga que não quer mais
Eu sou o silêncio da noite
O sol da manhã

Mil voltas o mundo tem
Mas tem um ponto final
Eu sou o primeiro que canta
Eu sou o carnaval

Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou
Uô ô verdadeiro amor
Uô ô você vai onde eu vou

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu

14.3.17

Vereador esquentado

Vereador Jaime José da Silva (PTB), Araçatuba
O vereador Jaime José da Silva (PTB) está igual a peixe: caiu duas vezes na rede (net) neste início de ano: na Vivo e no trânsito. Por aquilo que ele conta, tinha razão nas duas vezes. Com a Vivo, ele representou muita gente na explosão que ele teve pelo mau atendimento da loja, recebeu aplausos. No trânsito, como a vítima foi um anônimo, ele perdeu a razão, levou pau de todos os lados. 

Mas quem conhece o vereador no seu cotidiano, inclusive na Prefeitura de Araçatuba, sabe que ele tem esse jeito esquentado, quer na hora que quer e pronto. Se não fosse a braveza do "Dr. Jaime", como secretário municipal de Cultura eu não teria conseguido terminar o Museu dos Ferroviários Moisés Joaquim Rodrigues, porque o patrono era o seu sogro. Por causa disso, ele foi meu aliado. A sua braveza acelerou o processo, não deixou a peteca cair, transformou-se em bravura.

A sociedade vai jogando pra gente máscaras durante a formação de nosso caráter e cada um veste a sua, quando menos se espera, ela cola definitivamente, fica difícil arrancá-la. Essa megera, a sociedade, assim a classificava o poeta araçatubense Aldo Campos, põe a máscara na gente e depois nos critica, como se fôssemos o grande culpado.  



Ontem, ouvi a entrevista do jogador Dudu, do Palmeiras, que foi entrevistado no programa "Bem Amigos", SporTV, apresentado por Galvão Bueno. Dudu era um jogador esquentado, chegou a empurrar juiz de futebol, foi muito pobre, mais que o Dr. Jaime, mas percebeu que esse pavio curto dele estava prejudicando-o, está se consertando com a ajuda de técnicos, de psicólogos, está descobrindo que só ele é perdedor sendo assim.  

A mudança de comportamento do Dudu é um grande exemplo a ser seguido pelos esquentados. Anda pedindo desculpas para todo mundo.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras.

12.3.17

Preta Gil: mulher empoderada

Em entrevista , cantora falou também sobre maternidade: "Se Deus me permitir ser mãe novamente, eu serei uma mãe bem bacana".

Laís Gomes Do EGO, no Rio 

Preta Gil  (Foto: Marcos Ferreira / Ego)Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)
Dia Internacional da Mulher (Foto: EGO)








Preta GPreta Giil sempre foi uma mulher à frente do seu tempo. Quando expressões como "feminismo" e "empoderamento" ainda não estavam tão em voga, ela já fazia seu trabalho de forminguinha nas entrevistas que dava, nas músicas que cantava e na forma como sempre se posicionou.
Aprendi que muito do que foi direcionado a mim não era exatamente pra mim, era para a mulher, era para as gordinhas, para as mulheres que se mostram independentes, que assumiram seus sentimentos, seus desejos, sua posição." Preta Gil
Filha de Gilberto Gil, ela herdou do pai o sobrenome, a veia artística e o jeito leve de ver a vida. Foi mãe de Francisco aos 21, decidiu cantar profissionalmente aos 30 e casar novamente, aos 40. Aos 42 e com uma carreira consolidada, ainda sonha com muitas conquistas profissionais e pessoais, entre elas, ser mãe novamente. Dona de si, de uma personalidade forte e de um carisma único, Preta sempre deu a cara a tapa e bancou todas as suas decisões. Levou (e leva) algumas pedradas no caminho, mas não se arrepende de nada que tenha feito na vida. "Se fiz é porque tinha verdade, e verdade é valor para mim. Aprendi que muito do que foi direcionado a mim não era exatamente pra mim. Com o tempo eu aprendi a conviver com a crítica e preconceito e também cresci a partir disso", conta ela, a terceira entrevistada da série "Mulheres Empoderadas" - em homenagem ao Dia Internacional da Mulher -, produzida pelo EGO.
Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)
Pergunta: Você sempre foi uma mulher revolucionária. Aprendeu a ser uma mulher mais forte no amor ou na dor?
Resposta: No amor e na dor, a vida é a grande escola que nos ensina a cada queda, a cada vitória. Não me arrependo de nada que tenha feito e se fiz é porque tinha verdade, e verdade é valor para mim. Aprendi que muito do que foi direcionado a mim não era exatamente pra mim, era para a mulher, era para as gordinhas, era para as mulheres que se mostram independentes, era para as mulheres que assumiram seus sentimentos, seus desejos, sua posição. Com o tempo eu aprendi a conviver com a crítica e preconceito e também cresci a partir disso. Fui a luta, em busca de meus sonhos, fiz grandes amigos, tive grandes conquistas mas tudo isso veio da minha percepção de que eu deveria não me aceitar sendo como eu sou independente dos outros, bem como não baixar a cabeça a quem de alguma forma se incomoda com a minha liberdade e a minha felicidade. 
P. O que a Preta de 42 anos diria para a Preta de 24?
Fique firme, as coisas boas estão reservadas, mantenha-se fiel aquilo que acredita, não seja ansiosa, dê um passo após o outro, trabalhe, lute pelos seu sonhos.
P. Você lutava pelo feminismo, pela quebra de padrões quando muita gente fazia o contrário. Foi criticada por isso?
Pois é, isso não tinha um nome, mas sempre existiram mulheres que foram à luta mesmo em um mundo machista. Cientistas, políticas, atletas, executivas, artistas... são muitas as mulheres que são pilares da sociedade e que lutaram por seus direitos como cidadãs. A novidade é que as mulheres estão se unindo, estão certas de que não são - e realmente não são -, escravas de um modelo ultrapassado em que olham para a mulher como objeto de prazer ou exploração do ponto de vista masculino. Fico feliz ao observar esse despertar de consciência que aos poucos toma forma no inconsciente coletivo. O jogo não está ganho, há muito que evoluir e parte dessa evolução é a necessária união das mulheres, que é a única forma desse movimento existir e transformar a sociedade.
Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)
P. Existem comentários muito maldosos sobre sua relação com o Rodrigo. E a maioria vem de mulheres. Ao que você acha que se dá essa 'guerra' das mulheres, essa mania de mulher falar mal de outra mulher?
R. O desamor e a desunião são os verdadeiros venenos de nossa sociedade moderna , não importa o gênero. O ódio está em toda parte e devemos nos policiar quase que diariamente a não aceitar a dor, o medo, preconceito e a violência como algo normal. A mulher que julga a outra, aponta a celulite na outra, que dissemina a fofoca. A maldade é uma mulher que está fadada a ficar só, a não ser respeitada. Se xingamos a nossa mãe, se julgamos a nossa irmã, se falamos mal da nossa vizinha estamos fazendo isso com nós mesmas. Precisamos nos unir, precisamos nos mostrar fortes, capazes, precisamos amar ao próximo e a 'próxima'. Esse mundo precisa de amor e amor é a própria essência do aspecto feminino e maternal que está em nós, e inclusive nos homens.
P. Você acha que se tiver filhos hoje vai ser uma mãe melhor que há 20 anos?
R. Não sei se melhor, mas certamente seria uma mãe mais experiente, diferente da que fui. Uma mãe que já é avó tem o dobro de chance de ser a melhor mãe do mundo. A vida nos ensina a cada dia e nosso caminho é progredir, é ir além, olhar pra frente. Se Deus me permitir ser mãe novamente, eu serei uma mãe bem bacana.
Não podemos tolerar injustiça e preconceito de qualquer espécie, seja com quem for. Espero que nossa sociedade descubra o valor do amor que se perdeu. Amor não tem sexo, não cobra, não explora."
Preta Gil
P. Como faz para lidar com tantas atividades e obrigações?
R. Não sou diferente de qualquer mulher que vai à luta. Consigo se eu  nem não pensar que tenho que fazer isso tudo, sou como um jogador em campo, se a bola cair no meu pé, quero fazer o gol. Estou "em campo" por que sonhei um dia estar onde estou, minha vida é o meu trabalho e eu o encaro de frente. Vivo um dia após o outro, dou o melhor de mim e acredito que quando a gente faz o que gosta e tem amor envolvido, a satisfação é bem maior que a insatisfação. Amo meu trabalho, meus fãs, minha família e sempre estarei pronta para orgulhar a todos, mas antes de tudo a mim mesma. Gosto da sensação de estar inteira em cada coisa que faço.
P. Como você vê a importância do feminismo no Brasil a longo prazo?
R. Olha, eu acho que devemos lutar pelo que acreditamos ter importância. O equilíbrio é saudável, a igualdade é necessária para uma sociedade justa .O ser humano tem a obrigação de ser feliz e fazer feliz, independente do gênero. Não haveria uma sociedade sem os homens ou sem as mulheres, nada é somente uma coisa ou outra. Existe a luz, a escuridão, a penumbra e o clarão. Há sempre o caminho do meio, há sempre maneiras de dialogar e evoluir. Não podemos tolerar injustiça e preconceito de qualquer espécie, seja com quem for. Espero que nossa sociedade descubra o valor do amor que se perdeu. Amor não tem sexo, não cobra, não explora. Se amarmos a nós mesmos e ao próximo a união de propósitos florescerá.
Preta Gil  (Foto: Marcos Ferreira / Ego)Preta Gil (Foto: Marcos Ferreira / Ego)