AGENDA CULTURAL

26.9.14

Cachaça literária

Hélio Consolaro*

Essa Nega Fulô é um poema de Jorge de Lima muito bonito, em ritmo de jogral, sempre usado nas escolas. Clique no linque anterior, leia e ouça o poema.

No meu último aniversário, os funcionários da biblioteca municipal Rubens do Amaral, em vez de livro, me deram uma tentatora nega fulô, neguinha ajeitada, marca de uma cachaça de alambique do Rio de Janeiro. Ela é uma botija de terracota, bem embalada, parecendo uísque, coisa de dar orgulho.

E assim, fazendo cruzadinha, fui bebericando um pequeno copo, contrariando os conselhos de minha mãe que me suporta ver tomando cerveja, bíter, uísque, jamais pinga. Não sou escravo dela, nem gosto tanto da malvada, apenas degusto as boas marcas. 

Preconceito puro da mama, bebida de gentinha. Mal sabe ela que a cachaça brasileira ganhou fama e o mundo.

E a danada veio com prefácio, num livro preso ao gargalo, feito pelo escritor carioca José Cândido de Carvalho. Cachaça literária, motivadora de grandes inspirações. 

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

Leia aqui o seu prefácio:

NÊGA FULO EM BOTIJA DE TERRACOTA

A embalagem da Nêga Fulo é obra do premiado escultor Geraldo Simplício, o Nêgo. Trata-se de uma botija de terracota, de concepção artesanal; tanto na forma como no material utilizado – argila modelada queimada em forno.

O resultado é uma obra inédita, original e decorativa, sendo o primeiro recipiente em terracota a harmonizar arte e designer comercial.

Assim como o produto, esta embalagem também é produzida em quantidade limitada.

O NÊGO QUE EMBALOU A NÊGA

Falar do Negô é falar dos tipos e da vida do povo. Geraldo Simplício é assim. Gente humilde que se fez grande. Negô, com sua escultura de raízes populares, com seu jeito simples, pequeno mundo.

Nasceu em Aurora (Cariri) Ceará. Em 1966, realizou sua primeira mostra em Crato, Ceará. Medalha de Bronze no Salão de Maio de 1971.

1.º Prêmio Escultura 13.º Salão Fluminense de Belas Artes. Prêmio Aquisitivo Salão Brasileiro de Belas Artes. Individual no Museu Nacional de Belas Artes, 1976.

A NÊGA FULÔ É DO MAJOR

Nêga Fulo é a cachaça produzida com carinho e sabedoria pelos velhos mestres alambiqueiros da Fazenda Soledade. Cachaça feita em casa, na famosa propriedade do senhor de engenho Major Bragantino Guedes. Cachaça que não é produzida em grande escala porque tem um “toque caseiro” na sua fabricação. Isso não mudou.

BOA QUE NEM FULÔ NÃO TEM

Tem um detalhe especial que só a Negâ Fulô podia ter. Ela é guardada forte e pura em tonéis de carvalho.

Isso enobrece a bebida, apura o sabor, refina o gosto e avisa a cor. Por isso Nêga Fulô é boa. A mais gostosa cachaça brasileira.

UMA INVENÇÃO IMORTAL: NÊGA FULÔ

O Major Bragantino Guedes, que viveu cem anos e outros cem viveria se não sofresse ofensa de cobra, duas invenções imortais deixou no mundo:

Nêga Fulô e sua propriamente escrava Nêga Fulô. Ninguém como o major para fabricar uma talagada como a dele, vivinha em folha, tão viva que só faltava falar. E muita gente só falava movida à cachaça Nêga.

O sujeito chegava e pedia:
- bota quatro dedos de Nêga Fulô que dela eu preciso para falar bonito no pé do ouvido da filha do comendador Pedro Novais.

De fato, Nêga Fulô era uma obra de arte, um inesquecível momento de bom gosto na vida do major Bragantino, fina de trato e de jeito.

Já saía do alambique rindo e era rindo que entrava nos copos e subia às almas. O que fazia farmacêutico Bentino Cruz, grande apreciador do ramo das águas, e o orador oficial do Grêmio Recreativo e Literário Fagundes Vale Varela, dizer orgulhozão:

- nada melhormente para clarinear as idéas como o elixir do major Bragantino Guedes. Viva o major, viva sua água mineral Nêga Fulô, prolongalista da vida. Viva!

O farmacêutico falava complicado, mas fazia justiça às qualidades de pureza da inventoria do major. Pois é essa imortalidade que volta agora para alegria dos que volta agora para alegria dos que sabem apreciar uma cachaça de fino trato. Nêga Fulô está às suas ordens.

Escrava das botijas dos pés.

Gentil cortesia de
José Cândido de Carvalho

Brasil 1827
Fazenda Soledade
Estado do Rio de Janeiro

Um comentário:

Biblio Ata disse...

Que presente bem dado! Ficamos felizes em saber que agradou tanto! O sr merece!