AGENDA CULTURAL

24.12.14

Absurdamente com nexo

Hélio Consolaro*

Não recebi o livro “Absurdamente sem nexo” para fazer divulgação. Paguei por ele, encomendei o livro cujo anúncio de venda recebi por e-mail. Como tenho uma dificuldade em vender meus livros, sempre me sensibilizo e compro livros oferecidos pelo sistema alternativo. Há tempos olho para ele, me cobrando: “Preciso escrever algo sobre o livro, a autora merece”.

Não me arrependi de comprar o livro, mas também não gostei dele. Com ele nas mãos, descobri o que pensa a juventude que se vestiu de preto e saiu protestando pelas ruas, Black bloc. Não sabem o que querem, mas sabem o que não querem. Absurdamente com nexo.


Como leram pouco, foram apertados a se explicarem, aí disseram que querem mesmo a volta da ditadura militar, como forma de irritar a geração 68, os perseguidos pelos militares (talvez pais e avós), fizeram uma declaração de propósito inconsequente. E hoje são classificados como direitosos, foram puxados (ou empurrados) para o lamaçal da direita brasileira.

Luciene Born se julga maior do que o mundo, quer mudá-lo, como o personagem de Monteiro Lobato: Américo Pisca-Pisca. Mas pelo menos o personagem lobatiana tinha propostas de mudança: colocar nas ramas da aboboreira, jabuticabas; nos galhos da jabuticabeira, abóboras. Certamente, num momento da vida de Luciane Born vai cair-lhe nada à cabeça, porque no seu livro apenas pichou. Nem tem o risco de a abóbora cair-lhe à cabeça.

Os escritores modernistas de 1922 também eram literariamente inconsequentes, não queriam o parnasianismo, repudiavam aquela imitação barata do estrangeiro, mas não tinham nada propor. Toda essa arrogância se limitou à literatura, às artes.

A autora de “Absurdamente sem nexo” tem a arrogância de afirmar que tudo está errado, só ela tem a verdade. Quem vomita certezas, não tem tempo e nem postura mental para ponderar sobre a realidade. Nada está certo, nada mesmo, até parece que o mundo existiu depois de Luciane Born descobri-lo.

O movimento de 13 de junho de 2013 não produziu nada culturalmente, diferente da reação à ditadura militar que criou um mundo cultural de reação, de resistência. Se o subtítulo do livro “Um breviário à procura de refutações” buscava um contestador, estou aqui, solitário, valorizando o trabalho de Luciane Born, porque a indiferença é a pior forma de ignorar alguma coisa. Não gostar e se manifestar é um bom começo para a divulgação do livro. “Absurdamente sem nexo” faz parte da cultura “Black bloc”.


É bom dizer que a autora não desvaloriza o mundo burguês, porque em sua biografia se diz jornalista, musicista e perita criminal. Ela não é uma cidadã fora do sistema, ou melhor, ao dar entrevista num vídeo do Youtube, ela se apresenta bem vestida.

Como escreveu Jorge Amado “todo jovem conformado é um velho precoce” e Luciane é inconformada. Tomara que toda essa revolta produza uma intelectual, alguém que se debruce sobre a realidade brasileira com um pouco mais de ciência.

Vá enfrente, revolucionária sem causa! Seu livro tem nexo.  


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP  

Um comentário:

Alexander José de freitas disse...

Eu estava procurando o texto intitulado o "Reformador do Mundo" do Monteiro Lobato, pois tem um curioso personagem chamado "Américo Pisca Pisca" que queria mudar o mundo mas acabou se dando mal por suas ideias e ideais de mudança. O estranho é que durante o período da ditadura, na escola, na sala de aula ele foi usado com o proposito de calar aqueles alunos que mais questionavam. Ainda lembro-me da professora advertindo: "vocês que ficam questionando tudo e todos podem se dar mal como ele". Outro personagem era o Chico Bolacha, um esterótipo do brasileiro, do mito da preguiça do brasileiro, assim como os Mexicanos eram retratados nos desenhos do "Ligeirinho". Chico Bolacha, personagem de uma prosa poética, (Na Chácara do Chico Bolacha) um trava-línguas da poetisa Cecília Meireles uma apoiadora do golpe militar, era costumeiramente usado para depreciar os alunos. Como eu disse antes procurava esses textos e personagens e me deparei com seu blog e a sua crítica sobre o livro "Absurdamente Sem Nexo". O curioso é que as analogias e as citações variam de situação em situação, época por época, propósito por propósito, realidade por realidade."Quem vomita certezas, não tem tempo e nem postura mental para pondera sobre a realidade". É isso aí.