AGENDA CULTURAL

10.4.15

Um dia de fúria

Hélio Consolaro*

O título desta crônica é um filme protagonizado por Michel Douglas, ator norte-americano, cujo enredo é um cidadão que resolve ser o contraventor, o errado por um dia, porque cansou de fazer tudo direitinho. Resolveu dar trabalho para a polícia.

Um filme policial de 1993 que mostra como é viver em nossas cidades. O personagem William Foster resolve reverter o seu dia: “Hoje o bandido sou eu!”.

O trânsito de Araçatuba com excesso de carros nas ruas está tirando até as mulheres do sério, fazendo-as perder a calma, se descabelando.

A bancária de 29 anos estacionou o seu carro, um Hyundai I-30  (não se trata de gentinha) entre as garagens de duas residências, na Chiquita Fernandes (rua de bairro nobre de Araçatuba). Segundo ela, o seu veículo não atrapalhava a saída ou entrada das duas garagens. Quando foi pegar o carro para ir embora, foi abordada pela dona de uma das casas aos xingos e gritos. Baixaria total.
No mesmo dia (18/3/2015), dessa vez a vítima foi uma funcionária da empresa que controla a Zona Azul do município, de 37 anos. Um Renault Sandero (também não é gentinha) de cor cinza estava estacionado na rua Marechal Deodoro, centro, com o cartão de estacionamento preenchido de forma incorreta e incompleto. A funcionária da Araçapark deixou uma notificação no para-brisa do carro.

Quando a funcionária caminhava pela rua Rio Branco, centro, começou a ouvir buzinadas. O Renault Sandero, conduzido por uma mulher, vinha na direção dela. Ela chegou a "jogar" o carro na calçada, na direção da vítima, numa tentativa de intimidação e atropelamento. Logo em seguida a condutora chamou a vítima de "vagabunda" e foi embora. O entrevero deve ter gerado denúncias no fórum local.

Para não ser objeto de páginas de jornais, seção policial, este croniqueiro procura andar devagar, nem tanto, para não prejudicar o trânsito e bem calminho. Confesso que já fui nervosinho nas ruas da cidade, mas atualmente a sabedoria da velhice tomou conta de mim. E ainda se leem alguns recados nos vidros traseiros do carro da frente alguns adesivos irritantes: “Está nervoso? Vai pescar”; “Está com pressa, sai mais cedo de casa”. 

Ter uma casa no campo é apenas letra de música, a minha vida acontece mesmo é na cidade, que é cada vez mais interdependente. Nem peidar alto no apartamento é mais possível, porque a vizinhança toda escuta.

Então, é se adequar, treinar o espírito para que sejamos pacienciosos para continuar mocinho, sem trocar de papel com o bandido.


*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

5 comentários:

HAMILTON BRITO... disse...

O faz um se humano ser ou nao gentinha é um carrão...legal.

aidil araujo lima disse...

Moro no campo. Ufa!!!! Consegui. E vejo que essa questão de maus tratos acontecem em todos lugares, isso depende de educação. Acredito que deve ter colocado o termo não é gentinha de forma irônica. Ou não???

Iran Marcius disse...

Gentinha ou não o que se percebe é a total e absoluta falta de cidadania. Todo mundo está cagando para o que é direito dos outros. Em frente aos colégios particulares é um festival de filas duplas. "Madames" ou "figurões" não podem parar seus carros alguns metros à frente e descer para buscar seus filhos. Eles tem que parar o trânsito inteiro porque seus pequenos príncipes (nem eles mesmo) podem andar um pouco. Em frente à padaria Delli é um festival de carros estacionados no canteiro da avenida e às vezes até em filas duplas também. Vagas de deficientes? Esquece. É a mesma coisa que dizer que o estacionamento é permitido pra qualquer um. A minha pergunta é: pra que serve a guarda municipal? Não seria essa uma das funções desse pessoal? Por que em nenhum desses lugares, frequentados por esse pessoal mais "endinheirado" tem uma fiscalização firme pra esses absurdos? Enfim, triste ver que estamos indo cada vez mais pro buraco com essa mania de achar que o mundo tem que nos servir. Ótima crônica.

Vitor Biasoli disse...

Muito bom o registro e comentário sobre esses episódios de descontrole que é cada vez mais comum entre pessoas de "situação sócio-econômica estável".
Especialmente o descontrole de mulheres que, até pouco tempo atrás, dificilmente protagonizariam cenas desse tipo.

Douglas Augusto disse...

O texto expõe bem o que temos vivido em Araçatuba. O comentário do Iran é muito pertinente e preciso, pois vejo isso quase todos os dias...