AGENDA CULTURAL

13.9.15

Braseiro: um passo à frente

Hélio Consolaro*

Fui ao teatro municipal Castro Alves como se vai trabalhar, a minha função de secretário de Cultura me dá essa sensação. Como não sei mais separar trabalho de lazer (talvez tenha chegado à perfeição), então fui ao teatro também para me divertir.

Acontece que o teatro não só diverte, mas faz pensar, nos deixa nervoso, concordamos ou discordamos com aquilo que se apresenta no palco, por que ele existe também para questionar a realidade que nos rodeia.


A apresentação do texto de Marcos Barbosa foi resultado de uma residência artística (precisamos entender melhor essa nova modalidade) promovida pela Secretaria Estadual de Cultura, via Poiesis, com apoio do Sesc e da Secretaria Municipal de Cultura de Araçatuba-SP. 

Entrei zen no teatro e saí tenso. Foram 50 minutos de muita violência, cujo clima fora dado pelo filme curta-metragem passado antes, feito especialmente para a peça de teatro. As personagens são membros de uma família: pai, mãe, dois filhos e a avó materna. A exemplo de Vidas Secas, não são nominadas.

O texto é de Marcos Barbosa, um cearense, escrito no ano de 2000, quando tinha 23 anos de idade. No Sertão nordestino, numa casa em ruínas, Avó, Pai, Mãe e Filho tentam encontrar uma maneira de salvar o Filho Mais Velho, que foi pego roubando nas terras do vizinho, Zé Galinha. 

O primogênito tinha a vida ameaçada pelo Zé Galinha, acusado de roubos, mas na verdade eram pretextos. No final da peça, percebemos que a discussão central dela é a propriedade da terra. O autor escondeu isso em toda a trama.


A solução do problema passa por todas as personagens, mas nenhuma consegue encontrar um jeito de salvá-lo da morte. Até trocar um filho pelo outro chegou a cogitar, causando uma grande tensão.

A própria avó que acusava a todos por não encontrar uma solução, quando chega nela: entregar a propriedade ao Zé Galinha para resgatar o neto, não desapega e prefere ver a morte dele.

“Braseiro” é uma peça de mensagem essencialmente política, mas que não quer ser um panfleto, quer ser arte. A função poética da linguagem sobrepuja às demais.

O elenco sob a direção de Mauro Júnior trabalhou muito bem. O teatro de Araçatuba deu um passo à frente com a residência artística de “Braseiro”.

Os atores souberam viver a tragédia e nos deixar tensos na plateia. Aprendemos a viver os problemas de cada um em nosso dia a dia, à medida que cada personagem precisava encontrar a saída para o problema.  A arte cumpriu o seu papel.

*Hélio Consolaro é professor, jornalista, escritor. Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP

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Braseiro
Texto: Marcos Barbosa
Direção, cenografia, iluminação, figurinos, maquiagem: Mauro Júnior
Elenco: Eduardo Amaral (pai), Sílvia Teodoro (avó), Devanira Moura (mãe), Patrick Leal (filho mais novo)

Trilha sonora  original: Patrick Leal

Direção de produção: Fernando Fado

Assistência de produção: Júlio Benedito

Operação de luz, som e projeção: Geovanna Leite e Fernando Tavares

Fotos: Everton Campanhã

Realizador audiovisual: Patrick Leal

Registro audiovisual: Lalucci Filmes

Curta-metragem
Direção, fotografia, edição: Patrick Leal
Elenco: Fernando Tavares, Valtemir Juca, Ed Barba, Cido Nunes Pereira, Mauro Júnior

Supervisão: Mauro Júnior 

Um comentário:

ricardo matioli disse...

SALVE SALVE OS DEUSES DO TEATRO E AS PESSOAS QUE SABEM ESCOLHER O QUE DIZER AO MUNDO!