AGENDA CULTURAL

19.2.18

Dr. Normanha foi embora para Pasárgada, mas voltou

Hélio Consolaro*

Há gente de todos os tipos, as ciências tentam organizar uma tipologia. Há o tipo de pessoas que vem ao mundo a passeio, não quer saber de trabalho. Quase sempre não consegue cavar sua própria subsistência.

Há outras pessoas que colecionam flores, emoções, paixões, fogem da normalidade, pegam um balão e vão para Pasárgada. Essas são as melhores amigas, com elas se vivem os melhores momentos, mas não as transformem em inimigas, porque as vísceras virão à tona.  

O saudoso Dr. Normanha (Carlos Alberto Normanha), pediatra, que  acabou de nos deixar, tinha esse perfil. Voou por esse mundo afora, deixando Araçatuba.

Com todo esse temperamento quente, ele era uma doçura de pessoa, haja vista o que as as mães falam dele como pediatra. Profissional competente e paciencioso. Tratava cada criança como única. Um homem assim tinha que participar do mundo das artes também, era violinista. 

Não vou desfiar casos e casos que vivi com o Dr. Normanha em campanhas políticas, porque correria o risco de construir um estereótipo em curto período, mas ele sempre quis viver intensamente a vida. Era a sua filosofia de que melhor viver menos, mas intensamente, do que viver muito com mediocridade, cheio de cuidados, regimes alimentares, por exemplo. 

Politicamente, ele era um homem de esquerda, mas não se enquadrava na disciplina organizacional; tentou a direita, também não se integrou. Na campanha de eleição municipal de 1988, ele era candidato a vice e eu a prefeito de Araçatuba-SP. O comitê ficava na Duque de Caxias esquina com a av. dos Araçás (na época prolongamento da rua Anita Garibaldi). Fora ligado à esquerda mais clandestina durante a ditadura militar. 

Recém-filiado ao PT em 1988, instalou um freezer na sede do partido (comitê) e encheu-o de cerveja. Ele deu as diretrizes:

- Já que queremos o socialismo, vamos aplicá-lo em nossa realidade. Quem for beber, se sirva e deixe o dinheiro aqui nesta caixinha.

Acabaram-se as cervejas, e a caixinha continuou sem nenhum dinheiro. Ficou decretado o fim do socialismo, e hoje no PT fala-se quase nada dele. 

Então, o companheiro Normanha nasceu, cresceu, viu as contradições do mundo, não as suportou. Leu o poeta Manuel Bandeira e voou, foi embora para Pasárgada, porque lá você tinha a mulher que queria, na cama que escolheria. Viveu naquele mundo mágico. No dia 18 de fevereiro de 2018 (dia de seu falecimento), voltou, caiu  das alturas como se fosse personagem de uma história infantil. Voltou à insignificância de terráqueo. 

Tenho a impressão de que agora você vai encontrar a verdadeira Pasárgada. Não sei se lá há mulheres, mas se tal cidade existir, não for apenas imaginária, deve ser um mundo melhor. 

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro da Academia Araçatubense de Letras.

Um comentário:

Gabriel Araujo dos Santos disse...

Quando eu indagava do meu sogro o motivo de seus momentos de tristeza, ele respondia: "Talvez não vai entender, mas quando estiver na minha idade, e a cada dia receber a notícia de que um amigo seu partiu, aí vai me dar razão". E ha quanto tempo venho dando a minha mão à palmatória, e agora mais uma vez tiro o chapéu para o meu sogro, tão certo ele estava, e eu não entendia... Mais um vazio em mim, mais uma razão para a minha tristeza, a partida do meu vizinho e amigo, o Dr.Normanha...