AGENDA CULTURAL

26.3.18

Brasil e China: quase iguais

Sala de aula na China
Marcelo Mendonça, - correspondente do Blog do Consa na China*

Nanchang , março 2018

Queridos amigos e familiares, recebo regularmente perguntas suas sobre a minha vida de professor universitário aqui na China, e sobre como é o país. Vou responder coletivamente.

Estou há seis meses aqui, e ainda que leia diariamente o principal jornal em língua inglesa, viva fazendo perguntas a alunos e amigos e assista o canal de TV em inglês, conhecer realmente um país leva anos.

Vou contar as minhas primeiras impressões de um ocidental de meia idade que vive numa cidade de 5 milhões de habitantes, capital de um estado de relativa baixa renda (23º PIB entre 31) no leste da China.

Na verdade, a vida aqui e no Brasil não me parece tão diferente. Se deixamos de lado aspectos econômicos, pois não seria justo comparar uma economia latino-americana com a economia mais dinâmica do mundo, veremos que existem inúmeras semelhanças.

Por exemplo, o site meteorológico que consulto (tipo Climatempo) é excelente, acerta até a hora em que vai chover. As luvas de látex (aquelas de lavar louça) duram muito, tanto é que ainda estou usando o primeiro par que comprei.

As etiquetas de roupa que dizem "100% algodão" são verdadeiras. Até agora, a minha pele alérgica a fibras sintéticas comprova isso. Meus alunos são incrivelmente pontuais! Chegam antes da hora marcada, quando combinamos saídas de compras. Colegas que chegam a uma reunião cinco minutos tarde pedem mil desculpas.

Tal como aí, existe um clima geral de honestidade. Por exemplo, um homem que tem um carrinho de lanches, nas horas de muito movimento, deixa uma caixinha onde os clientes põem o dinheiro e pegam o troco.

O governo tem um enorme programa de eliminação de pobreza. Nos últimos anos, 68 milhões de pessoas foram beneficiadas. O plano prevê fazer o mesmo com os 40 milhões restantes até 2020. A taxa de pobreza caiu de 10,2% a 4% nos últimos 5 anos. O gasto público nesse setor cresceu 19,2% nos últimos 4 anos. Essa é a outra semelhança.

O presidente Xi Jinping é admirado dentro e fora do país. Muitos cidadãos o chamam carinhosamente de "tio Xi". Em 2014, Harvard fez uma pesquisa em 30 países sobre a imagem pública de 10 líderes mundiais. Xi ficou em primeiro. Temer não participou porque ainda não tinha chegado ao poder.


Recentemente o congresso decidiu abolir o limite constitucional de apenas uma reeleição presidencial. A mídia internacional, claro, criticou a decisão. Mas Wall Street, um pessoal nada bobo e que enxerga por trás das historinhas que a mídia conta, recebeu muito bem a notícia. As pessoas com quem falei aprovam a ideia. Os argumentos delas me lembram aquele ditado que diz que não se mexe em time que está ganhando.

No tema segurança, acho que estamos um pouquinho melhor do que aí. Ando nas ruas com tranquilidade a qualquer hora e vejo mulheres sozinhas fazendo o mesmo. Ainda não ouvi nenhum caso de assalto. Nos 2 bancos que frequento, a segurança depende de um senhor de meia idade armado, às vezes, de um pequeno cassetete.

Igual que aí, existe corrupção aqui. Vejo importantes semelhanças. O governo está combatendo seriamente o problema. 

Milhares de cargos públicos estão sendo investigados e há punições. Nos últimos 5 anos, foram 1,6 milhões. Em 2017, 1.300 fugitivos suspeitos de crimes econômicos foram presos no exterior e devolvidos ao país. US$ 152 milhões foram recuperados.
O esforço de limpeza acontece nas forças armadas também. Nos últimos 5 anos, mais de 100 oficiais foram demitidos. Em outubro de 2017, um general de 66 anos que estava sendo investigado por suborno suicidou-se em sua casa de Beijing. Não suportou a vergonha.

E, igual que aí, os bons resultados do combate a corrupção aumentam a confiança no governo. Em 2016, 92,9% dos entrevistados estavam satisfeitos com a campanha anticorrupção.

Como aí, há mendigos aqui. Até agora vi três (3). E o asfalto é ótimo, devo ter visto uma meia dúzia de buracos em ruas secundárias antigas.

Pois então, aqui estão as minhas primeiras observações. Apesar de todas essas semelhanças não podemos nem devemos nunca, jamais, esquecer de uma importante diferença, que está no sistema político. Aqui, infelizmente, vivemos num regime socialista que, como todos muito bem sabemos, é uma perversa criação de Belzebu. Vocês vivem no capitalismo criado por Deus para o governo dos homens na Terra e promoção da justiça social. Abraços!


*Marcelo Mendonça, professor universitário brasileiro na China. Correspondente do Blog do Consa.

Um comentário:

Gabriel Araujo dos Santos disse...

Apreciei, e muito. Sobretudo o Consa a trazer notícias tão interessantes e instrutivas lá do outro lado do mundo. Parabéns!!!!