AGENDA CULTURAL

23.8.18

Prepare o seu coração para as coisas que vai ler

Livro "As últimas testemunhas", 1985, 307 páginas, capa dura, com suplemento de contextualização. Edição da TAG - Experiências Literária

Sempre me interessou o espaço de uma alma humana, pois é justamente lá que tudo acontece.  Eu vejo a grande história por meio de pequenas histórias. Svetlana Aleksiévitch

*Hélio Consolaro, professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba-SP, Andradina-SP e Itaperuna-RJ

Alterado em 26/08/2018

O livro "As últimas testemunhas", de Svetlana Aleksiévitch da literatura documental russa foi publicado em 1985, quando tinha 37 anos. Ainda viva, completou 70 anos.

Ela ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2015 fazendo mais jornalismo ou a chamada literatura documental, mas na verdade publicou livros, portanto, no sentido lato, fez literatura. 

A escritora bielorrussa (russa branca) não se limita a passar informações ao leitor, sendo polifônica (não toma posição política no texto, a não ser a favor da humanidade) provoca emoções. Alguns chamam isso de gênero híbrido, Svetlana prefere chamar "romance de vozes". 

As pessoas de quem ela colheu depoimento são todas mais velhas do que ela, porque Svetlana nasceu em 1948 e a Segunda Grande Guerra terminou em 1945. Atualmente, os depoentes estão velhinhos ou são falecidos.

A autora de tanto ouvir casos da população conterrânea, barbaridades, maldades cometidas, cujos relatos não constam dos livros acadêmicos de história, nem em filmes sobre a guerra, resolveu gravar os depoimentos e depois compôs o livro "As últimas testemunhas".

Seu mestre, mentor, antecessor é o célebre escritor bielorrusso Ales Adamovich. Seu último ato de apoio à discípula foi lhe emprestar dinheiro para que ela comprasse um gravador de voz. Isso na década de 80.   

É importante registrar que a Svetlana não chegou a ser uma escritora dissidente, era apenas tolerada pelo establishment russo antes da Perstroika, mas seu mundo narrado nos seus livros é a cultura russa. 

As crianças de "As últimas testemunhas" eram russas e eram sacrificadas pela invasão alemã, com aldeias incendiadas, casas dizimadas, famílias fuziladas na frente de crianças. Os preferidos pelos soldados alemães eram os membros do governo comunista, representantes dele nas aldeias e os judeus, mas podemos dizer que a violência atingia a todos. Ela quer mostrar no livro quanto sofrimento custou ao povo da União Soviética a  "A Grande Guerra Patriótica".

Ao ler o livro, a minha reação não foi diferente, estremeci. Desacreditei menos no ser humano. Se há um Deus que criou o mundo e Ele for bom como imaginamos, Deus abandonou a sua criatura diante do erro cometido, criou um ente tão vil. Se eu tivesse o sobrenome "Guerra", depois da leitura desse livro, mudaria de nome.


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 Svetlana Aleksiévitch
BIOGRAFIA: filha de um militar soviético de origem bielorrussa e de uma ucraniana, Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia em 31/05/1948, mas cresceu em um vilarejo na Bielorrússia, onde se estabeleceu com a família logo após a aposentadoria do pai. A escritora trabalhou como repórter em um pequeno jornal assim que terminou o colégio, para depois ingressar no curso de jornalismo na Universidade de Minsk.

A escritora e jornalista refinou ao longo de sua obra um estilo único, desenvolvido a partir da observação da realidade e ostentando as melhores qualidades narrativas da tradição da literatura em língua russa. Em 2015, recebeu o prêmio Nobel de literatura, por seus "escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo", segundo as palavras de Sara Danius, secretária permanente da Academia Sueca.

Da autora, a Companhia das Letras publicou os livros "Vozes de Tchernóbil, "A guerra não tem rosto de mulher" e "O fim do homem soviético". 

LEIA MAIS SOBRE O LIVRO E SUA AUTORA:


Entrevista de Svetlana Aleksiévitch

Vozes russas de todos os cantos Por Denise Regina de Sales

A história que voa no vento - Sérgio Rodrigues

Um comentário:

Gabriel Araujo dos Santos disse...

Cada dia mais solidifica-se minha admiração pelo escritor, cronista, poeta, professor e jornalista e também aguerrido Consolaro, sempre a surpreender com as suas pesquisas literárias, e vem ele com valiosos tesouros buscados longe, longe e muito longe, e ficamos nós boquiabertos diante de tudo que nos dá de mão beijada. Ele respira, dorme e acorda, a banhar a alma nas águas da literatura. Ainda bem que não se afoga, para o bem de todos nós. De minha parte, obrigado.