AGENDA CULTURAL

2.12.07

Vôti, cara! Sou de Araçatuba!


Hélio Consolaro

Comemorar o aniversário da cidade onde moramos tem um significado muito importante. Não se limita a pipocar fogos e discursos bem a gosto dos políticos, pois esses são efêmeros, mas criar um vínculo entre o habitante e sua casa.

Conversando com uma gaúcha que, recentemente, mudou-se para Araçatuba (você percebeu como a cidade tem novos habitantes) e assistiu ao destile dos 98 anos, ela me disse que ficou escandalizada. Pelo desfile de escolas e estudantes, ela não pôde conhecer nada da história de Araçatuba e acrescentou:

- Transformaram o destile, a solenidade de comemoração em politicagem, quando serua um momento privilegiado de cultivar as tradições, a gente do lugar.

Levantemos o nariz e olhemos além do Baguaçu. Sim, caro leitor, se o planeta é nossa casa maior, o país, a província e a cidade são cômodos dele. Nesse tempo de globalização, felizmente cresce a consciência planetária, pois somos cidadãos do mundo, mas, em movimento contrário, nos apegamos com mais força às comunidades locais.

Como é bom saber que o planeta todo é minha casa, mas também é ótimo gostar do lugar onde moramos, ter um canto só nosso, em que podemos cultivar nossa história e a privacidade. Para que esse sentimento nasça em cada um, a cidade precisa ser de todos e não só de alguns.

Este croniqueiro adota a propriedade privada até aí, quem sabe ter uma fazendinha ou uma chácara para plantar, voltar às raízes e colher o próprio alimento, fazer nossas coisas. Passou disso, vira ganância, é querer ter além da necessidade. Não sou tão louco quanto o médico Patch Adams, mas estou a caminho.

Para o pessimista, não há muito que comemorar nestes 99 anos de Araçatuba, nada presta, tudo está ruim. Até concordo, pois uma região com menos de um século e já está totalmente devastada, com sua natureza quase morta, onde urubu faz ninhos em arranha-céus por falta de árvores frondosas.

Por outro lado, sou otimista, porque acredito no ser humano, embora tenha com freqüência ataques machadianos. Nos momentos pessimistas, considero-me parte de uma espécie que não deu certo, abandonada por Deus no cosmos. Nos momentos de Pollyanna, ainda acredito em que temos condições de superar coletivamente nossos problemas.

Esta Folha está fazendo tudo para que as comemorações dos 100 anos de Araçatuba não se transformem num palanque eleitoral, já que haverá eleições municipais no próximo ano. Num esforço de resgatar a história, as tradições, as personalidades que a construíram (ou a destruíram) para que possamos criar em nossa população, principalmente nos jovens e nas crianças, o vínculo com a cidade. Aquele sentimento de pertença.

Meu neto, o Consinha, com três anos de idade, nasceu em Salto-SP, mas vive em Araçatuba há dois. E ele me disse:

- Vôti, vô!

Aquilo foi emocionante, porque a interjeição “vote” é bem nossa. É isso, caro leitor, precisamos ter orgulho de dizer:

- Vôti, cara Eu sou de Araçatuba!

Estar lá fora, com vontade de voltar. Se morar aqui, doido para fazer de Araçatuba um lugar digno de morar. Isso é araçatubismo.

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