AGENDA CULTURAL

3.7.12

Maestro Brandini

BATE-PAPO 
Folha da Região, 29/7/1998 
Pra ver a banda tocar 
      
A música, pode dizer-se, é a mais sensível das artes. Para ouvi-la e interpretá-la, além da vocação, é preciso sentir o que o povo gosta. É assim que Luiz Ferreira Gomes -- o maestro Brandini, como ficou conhecido -- de 79 anos, avalia a música. 
Ele, que na sexta-feira será homenageado no clube de seresta Chão de Estrelas pelos 45 anos de carreira, faz um retrospecto de sua vida ao repórter Pedro Aleixo Filho. A homenagem começa às 23h, com convite especial a todos os músicos, marcando o terceiro aniversário do Chão de Estrelas. Brandini será agraciado com o troféu Chão de Estrelas. 
Ele aprendeu a tocar de ouvido o cavaquinho, aos 14 anos, e participou em orquestras -- inclusive a Orquestra do Pedrinho, de Guararapes, que, em 1960, se apresentou ao lado de outros artistas na inauguração de Brasília. 
Regente por duas vezes da Banda Municipal de Araçatuba, maestro Brandini reformulou o repertório, incluindo nas apresentações músicas do momento -- entre elas canções de Roberto Carlos e Tom Jobim -- que arrastavam a juventude para a Praça Rui Barbosa, aos domingos, só "prá ver a banda tocar coisas de amor". Ver a praça cheia de gente, dançando, é um dos momentos que ele recorda com emoção neste bate-papo

Folha da Região -- O que o senhor pensa da homenagem que o clube de seresta Chão de Estrelas irá lhe oferecer, em nome dos músicos, nesta sexta-feira? 
Maestro Brandini -- O Raul Silva, dono do Chão de Estrelas, é muito meu amigo, desde moço. A homenagem vem pelos meus 45 anos de carreira na música popular. Eu sempre toquei em festas, no campo e nas cidades. Desde molecão eu tocava violão, cavaquinho, sanfona. 

FR -- Quando o senhor começou a carreira de músico popular? 
Brandini -- Ah, eu toco desde menino, com 14 anos. Eu aprendi a tocar foi por Deus, sozinho e de ouvido. No campo, eu ouvia o Valdir Azevedo, um mostro da música popular do cavaqunho, tocando pelo rádio. Eu escutava os programas transmitidos do Rio de Janeiro, me esforçava e conseguia tirar a música sozinho. Nas fazendas onde tinha uma festa, eu aparecia por lá com o meu cavaquinho, para tocar com os sanfoneiros. Um dia, vim para Araçatuba e me inscrevi no programa de calouros da Rádio Cultura. Estraçalhei. Toquei tudo que era mais difícil das músicas de Valdir Azevedo. Tanto que me acharam um assombro. 

FR -- Por que o senhor passou a se interessar pela música? 
Brandini -- A Rádio Cultura acabou me contratando para apresentações em programas. Acabei virando chefe regional da emissora, cargo que ocupei por oito anos. Depois, fui trabalhar na banda da Boate Marrocos de Araçatuba, com músicos da capital. Fiquei lá 12 anos tocando violão elétrico. Fui para o Clube dos Bancários, onde fazia as brincadeiras de domingo, as domingueiras. Aí, fui entrando no mundo do Carnaval, festas sociais, casamentos... Comecei a crescer na música assim. Toquei cavaquinho, pistão, violão e sanfona. 

FR -- De quais bandas o senhor fez parte? 
Brandini -- Fiz parte da Orquestra do Pedrinho, de Guararapes, que só trabalhava com músicos da capital. Era a melhor orquestra do interior de São Paulo e tornou-se conhecida nos países da América do Sul. O Pedrinho me viu tocar num baile de formatura no Araçatuba Club, gostou e me levou para São Paulo. Fiquei dois anos e dois meses lá. Um dia, a Grande Orquestra de Pedro J. Rodrigues, de Catanduva, me contratou. Voltei para o interior, mas também ela era uma orquestra de músicos viajantes. A gente tocava em muitas cidades, em outros Estados. Também em Catanduva tinha a Orquestra Marajoara e eu trabalhei com ela, tocando contrabaixo. Toquei ainda na orquestra de Renato Peres, muito boa e famosa, em Rio Preto na banda do maestro Areobaldo Monfredini, de Araçatuba. 
 
FR -- Como músico viajante, é verdade que o senhor chegou a tocar na orquestra popular que se apresentou na inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960? 
Brandini -- Foi uma das apresentações que mais me marcaram. Eu nunca teria pensado nisso. Não toquei, fui como estagiário, acompanhante da Orquestra do Pedrinho, de Guararapes, que tocou na presença de Juscelino Kubitschek, e ele fez questão que a gente almoçasse ao lado de autoridades do Brasil e do exterior. Nossa orquestra, a única a se apresentar, emocionou Brasília. Eram quatro pistonistas, cinco saxofonistas, pianista, contra-baixista, guitarrista, quatro trombonistas, baterista, dois cantores e o regente. Toquei no Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Goiás, Brasília. Também no Paraguai e na Bolívia. Havia épocas em que eu ficava de 40 a 60 dias fora de casa. 
FR -- Que mudanças o senhor fez nas duas vezes em que foi regente da banda municipal? 
Brandini -- O ex-prefeito João Cuiabano era muito meu amigo e me pôs como maestro da banda em 1965. Eu a modernizei, incluindo músicas de orquestras de dança. Antes a banda só tocava coisa antiga, do tempo do onça. A gente colocou músicas de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ari Barroso, Roberto Carlos, Antônio Marcos, Ângela Maria... Olhe, nossa fama correu tanto que, quando vinham cantores de São Paulo ou do Rio de Janeiro para Araçatuba, eles não traziam suas bandas, porque queriam que a gente os acompanhasse nas apresentações. A banda acompanhou Ivon Curi, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Nélson Gonçalves, Caubi Peixoto. No governo do prefeito Domingos Andorfato, voltei à regência da banda. 
FR -- A regência da Banda Municipal o marcou muito? 
Brandini -- Sim. A juventude nem aparecia na Praça Rui Barbosa quando a banda ainda tocava música de velho. Depois que mudamos o repertório, ía tanta gente que parecia caroço de feijão dentro dum saco. A praça se enchia de gente para ver a banda tocar. Todo o domingo era assim, menos quando chovia (risos). Não me esqueço daquele tempo. Tá no meu coração. 
FR -- Como surgiu o apelido Brandini? 
Brandini -- Meu pai se chamava Brandino Ferreira Gomes, por isso o pessoal em Alagoas nos chamava de "Os Brandinos". Quando viemos para São Paulo, virou "Os Brandini" porque é o jeito dos italianos falarem o plural. Viramos nordestinos paus-de-arara italianos (risos). Por isso adotei o nome artístico de Brandini. 
FR -- A sua carreira de músico influenciou um de seus filhos, que também é músico ... 
Brandini -- É o José Luiz Brandini. Eu formei um conjunto, uma vez, aqui em Araçatuba, e ele entrou como cantor. Era um conjunto com o Bolla, que hoje canta com a banda Maresia. O Zé Luiz pedia que eu o ensinasse a tocar o violão e ele aprendia rápido. Ele é mesmo muito bom músico, toca e canta de tudo. Toca em Campinas, onde mora, Minas Gerais, mas sempre reserva tempo para se apresentar em Araçatuba e Penápolis. Meu outro filho, Brandino, também foi um dos melhores caixistas de Carnaval. 
FR -- O que significa a música em sua vida? 
Brandini -- Desde que vim do campo, a música é minha vida. E eu não fiz outra coisa desde então que não fosse mexer com a música popular. Sou de Alagoas e o Nordeste é o lugar onde a música é a mais assanhada do Brasil. De cada cinco pessoas, um toca alguma coisa. A música é algo que está no sangue da gente. Ela domina, encanta, concentra, envolve... Posso dizer que a música é tudo na minha vida. Com ela cuidei da minha família e formei meus filhos. 
 

 

Foto: Sérgio Menezes
AUTODIDATA/ Brandini aprendeu a 
tocar de ouvido instrumentos de corda 


Nome: Luiz Ferreira Gomes (Maestro Brandini)
Filiação: Laudelina Maria da Conceição e Brandino Ferreira Gomes
Naturalidade: Água Branca – AL
Data de nascimento: 28/05/1919
Nome da cônjuge: Irene Rodrigues Gomes
Filhos: Brandino Ferreira Gomes, Humberto Ferreira Gomes, José Luiz Ferreira Gomes, Aloísio Ferreira Gomes, Maria de Lourdes Ferreira Gomes e Madalena Ferreira Gomes
Data de falecimento: 19/01/2009 em Araçatuba - SP

Um comentário:

Heitor Gomes disse...

O conheci pessoalmente. Era meu amigo. Grande artista. Apaixonado pela musica. Deixou saudade. Heitor Gomes