Rancho antigo |
Emília Goulart*
Atualmente, quando ouço a palavra rancho, me bate uma velha
saudade de vida na roça. Meus parentes dão risadas e dizem que eu sinto esta
saudade porque nada era obrigação, tudo para mim era divertimento. Que com eles
é diferente.
Cheguei a pedir a uma
tia, ótima colhedora de algodão que aproveitava as boas safras para faturar uma
boa grana, que ela me levasse qualquer dia nesta colheita onde todos ganhavam
dinheiro.
Com o consentimento de minha mãe, que nunca me proibira de
fazer alguma coisa, falava-me dos perigos, mas consentia que eu explorasse
minha curiosidade, que eram bem diferentes das curiosidades atuais.
Madrugada, e minha tia já havia preparado minha marmita de
boia fria. Partimos felizes, a lavoura de algodão era perto e caminhávamos
entre o gado, ela sabia dialogar com os animais...
- Oi boi, afaste-se porque esta menina é preciosidade da
minha irmã.
Saudade da minha tia Elpídia, Erpídia para os pais e irmãos,
caipiras com raízes bem fincadas na roça.
Hoje sinto até uma agonia quando se referem a ranchos para
falar de mansões a beira do rio. Os ranchos que conheci eram outros.
Rancho era uma casinha de caboclo, pau a pique, chão de
terra cobertura de taboa. Um jirau, banco, uma cama, tudo armado sobre
forquilhas, onde até um colchão de palhas embalava os sonhos. Todo rancho de
caboclo tem uma viola pendurada, mas no rancho do meu tio, quem o acompanhava
nas noites enluaradas era um cavaquinho. O rancho ficava bem no meio de uma
lavoura de arroz.
Pela manhã, nos finais de semana, quando minha mãe selava o
cavalo e dizia:
- Vamos lá no rancho do Antônio.
Eu sabia que
cavalgaríamos uns seis quilômetros por uma trilha dentro da mata. “Engraçado
que minha mãe só tenha me falado de lobo mau, quando viemos morar em Araçatuba
e eu tinha 14 anos”!
Bem deixa voltar para o rancho, que se eu seguir nesta
trilha o lobo vai matar a fome.
Quando chegávamos ao rancho, meu tio nos esperava com uma
codorna na mão, e com a outra tirava do bolso um estilingue e se exibia
orgulhoso. Voltava ao arrozal e dele saía com uma abobrinha para que minha mãe
fizesse com os ovos mexidos, ovos que minha avó mandava para o filho.
Minha mãe tinha um carinho muito grande por seus irmãos, depois de casada, ela conseguiu estudar um pouco,
mas meus tios não tiveram esta oportunidade. Lá longe, naquele rancho, ele
passava a semana à espera de minha mãe ou de outro irmão que ia em direção a
outras lavouras.
— Cê vai pra’quelas bandas? Antão-se, leva essa matula pro
Antonho - pedia minha avó. – (e pedido de minha avó era uma ordem) - vê lá se tá
tudo bem?
Rancho moderno |
Ranchos como esse são precursores de algumas histórias penduradas
no passado de muitas pessoas, como os espantalhos que, espalhados pelas
lavouras, afastavam os pardais sem prejudicar o meio ambiente. Ah... Os caipiras
eram conscientes em preservar a natureza.
Ranchos, eu me pergunto? Com luz elétrica, água encanada, Jet
ski nos jardins esperando que se ligue o motor que assustará os peixes e
espantará as codornas. Cervejinha gelada e caipirinha no copo, tudo para “aliviar
as tensões da vida moderna”. Os caipiras não precisavam disso: era só tirar o
chapéu olhar para o céu. Se via uma nuvem, agradecia a Deus, se não via,
agradecia também porque caipira é sábio.
Quem perdeu a palestra que o professor Luiz Mozzambani Neto proferiu durante a 5ª Jornada Literária de Araçatuba não sabe o que perdeu. O
professor deve ter estudado muito para falar deste assunto. E embora o caipira
circule em todos os cantos do país, ainda há muito preconceito com as nossas
raízes.
*Emília Goulart dos Santos é escritora de Araçatuba,
acadêmica da Academia Araçatubense de Letras.
4 comentários:
Adorei, Hélio muito obrigada.
muito boa esta cronica da Emilia, idéia genial do Helio em publicá-lo em seu blog. parabéns!
o comentário anterior é meu :
Marianice
Parabéns, como é bom saber que o meu gosto não é o único, a srª me fez voltar na minha infância e concordo em tudo que disse, maravilhoso e por coincidência "consa" é o apelido carinhoso de minha mãe.
Deus a abençoe Emilia.
Edson
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