AGENDA CULTURAL

27.12.16

Seu Nagib


Bié, O Prosador*

Dos três estrangeiros que havia na cidade, Seu Nagib era um deles. Já passava dos setenta anos, mas bem disposto, forte, tal um touro. Sempre de terno e gravata, além do costumeiro colete, a gôndola do relógio de bolso reinando absoluta. 

Teve três filhos, homens. Todos fizeram avançados estudos na capital, e por lá ficaram. Sua venda de ferragens e armarinhos; secos e molhados situava numa das ruas principais bem ali no que chamávamos de Largo da Igreja.

O estabelecimento, de muitas portas, daquelas de duas bandas que se abrem em par, via-se em constante ebulição, pois até ferraduras ali se vendiam, e os animais eram ferrados no pátio dos fundos da propriedade.

Casou-se com moça do lugar, e parecia um dos nossos, tal a sua participação nos acontecidos do cotidiano da cidade. Havia um senão. Era, como se dizia, cristão ortodoxo, e não frequentava nenhuma liturgia na igreja local, cuja presença formal se restringia aos eventos ditos sociais, casamentos e passagens fúnebres.

De tempos em tempos, viajava à capital, onde, diziam, participava dos ritos da religião de seu povo. Mas não era motivo para a inexistência de um bom relacionamento com o vigário, cujas obras sociais e religiosas contavam sempre com as generosas contribuições do respeitável libanês.

Entretanto, no sermão da “Descida da Cruz”, o Largo da Igreja lotado de fiéis, o vigário desandou em terríveis ataques ao “ganancioso do sangue de Cristo”, referindo-se com todas as letras ao comunicativo negociante.

Tudo porque na Sexta-Feira Santa ele atendera alguns roceiros que vieram de grotas distantes para o rito sagrado. E ali na venda, apenas meia porta entreaberta - cerrada, como se costuma dizer - fizeram umas compras de nada, e daí a pouco Seu Nagib já se recolhia, feliz pelo atendimento àquelas simplórias e humildes criaturas.

Apesar do pesado das palavras, Seu Nagib não mudou de cara. Continuou na lida como se nada tivesse acontecido, mas trazia consigo uma tristeza, a de ter perdido a amizade do vigário.

Percebeu, com o correr dos dias, que os freguês rareavam, mas não a ponto de causar um baque danoso às finanças do estabelecimento.
        
Num domingo de importante celebração litúrgica os fiéis se surpreenderam com a sua presença inesperada à missa daquele dia.

À hora do sermão, no momento em que o vigário vinha do altar em direção ao púlpito, que ficava num dos lados da nave da igreja, Seu Nagib se adiantou e escalou as escadinhas em direção ao que também poderíamos chamar de parlatório. Abriu a portinhola, entrou e a fechou de novo com o trinco.

A igreja como que levitava, e o vigário, tomado de surpresa, estacou no meio do caminho. Perdeu a cor e a fala, e inventando tosse e engolindo seco ficou a esperar pelo que viria após.

- Esta aqui é a Bíblia do meu rito, a Bíblia da religião do meu povo, a Bíblia que todos nós podemos ler. Não é a que os católicos, apostólicos e romanos estão proibidos de ler, que pode levar as pessoas à loucura. Essa também nos leva à loucura, mas à loucura de Deus, não à loucura dos homens, homens como o Sr. Vigário, que parece nunca ter tido acesso à passagem do Evangelho em que o samaritano, originário de um povo odiado e menosprezado, foi quem acudiu o viajante assaltado e maltratado quase à morte pelos ladrões, enquanto um levita e também um sacerdote passaram à larga, eis que era dia de sábado. Digo isso, Senhor Vigário, porque vi naqueles roceiros a figura do viajante. O lucro que obtive na transação daquela sexta-feira não chegou a um centésimo do que apuro no meu cotidiano. Foram coisas simples e de insignificante valor que eles compraram, uns sortidos de pouca monta: querosene e creolina para a cura dos machucados de suas criações. Sal para o tempero de suas refeições, e macarrão para os almoços dos domingos festivos. Não pense que a sua fala não me trouxe angústia. O Senhor podia ter-se alongado mais e mais, porém nunca mencionar que dispensava a minha amizade. Para o meu povo, a amizade é um dom de Deus. De que vale a flauta, por mais recursos de que disponha, se não puder contar com o sopro do músico? Assim, a amizade é para o homem como o sopro é para a flauta e os dedos são para a cítara. Considero-me, de fato, um homem de fortuna, e a minha maior fortuna são os amigos. O que faria de minha fortuna, se de amigos eu não dispusesse? Por tudo isso, confesso-lhe, Senhor Vigário, lamento perder a sua amizade, mas o meu coração permanece aberto e a minha estima pelo Senhor continuará viva até os fins de meus dias.

Fechou a Bíblia, cerrou os olhos e orou contrito. O vigário, ainda imobilizado por tudo que ouvira, a passos lentos e trôpegos retornou ao altar.

Após a consagração, virou-se para a assistência e falou:

- Deste lugar em que estou e até onde o Senhor Nagib se encontra há uma distância razoável. Daí até a mureta que divide o átrio sagrado do restante da igreja é a metade do caminho. Que cada um de nós dois faça o seu trajeto, e o nosso encontro se dará ali, na mureta onde os fiéis se ajoelham para receber a comunhão.

O vigário principiou por descer as escadas do altar, enquanto Seu Nagib ia pedindo passagem por entre os fiéis. Enfim, viram-se frente a frente!

Veio a cena derradeira quando o vigário, acolitado pelo sacristão, e pegando uma hóstia do Cibório, elevou-a como mandava o rito, e diz:

- Senhor Nagib, peço-lhe que aceite a minha amizade em nome de Cristo, cujo corpo agora lhe ofereço.

Era o momento em que todos os fiéis se achavam ajoelhados em sinal de respeito ao Corpo de Deus.

Os fiéis, como tocados por um só e mesmo pensamento, ergueram-se em bloco, e num silêncio respeitoso e benzendo-se repetidas vezes, presenciaram, caso inédito até então, a Primeira Comunhão – no rito romano - do próspero e prestimoso libanês ortodoxo Nagib Bahameb.


Por muito tempo ainda a cidade se perguntaria: quem converteu quem?

*Gabriel Araújo dos Santos, escritor, Campinas

Um comentário:

Gabriel Araújo dos Santos disse...

O comentário que me cabe é mandar o meu sincero e saudoso abraço a este homem, o Consa, de múltiplas visões, em que sobressai a visão de SERVIR|. Obrigado.