AGENDA CULTURAL

21.12.18

Para entender os coletes amarelos

Só os intelectuais não entendem os coletes amarelos
CARTA CAPITAL: Os movimentos horizontalizados se tornaram padrão dos protestos desde as manifestações de 2008

Por David Graeber

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Impressiona-me o fato de que a profunda confusão, e até a incredulidade, demonstrada pelos comentaristas franceses - e os do mundo todo - diante de cada "ato" sucessivo do drama dos Coletes Amarelos, que hoje se aproxima rapidamente de seu clímax insurrecional, é o resultado de uma quase total incapacidade de entender os modos como o poder, o trabalho e os movimentos organizados contra o poder mudaram nos últimos 50 anos, e particularmente desde 2008. Os intelectuais em geral fizeram um trabalho muito ineficaz para compreender essas mudanças. 

Deixe-me começar por oferecer duas sugestões quanto à fonte de parte da confusão: 

1. Em uma economia financeirizada, só os mais próximos aos meios de geração de dinheiro (essencialmente, as classes de investidores e de administradores profissionais) estão em posição para empregar a linguagem do universalismo. Em consequência, qualquer afirmação política baseada em necessidades e interesses particulares tendia a ser tratada como manifestação de política identitária, e no caso da base social dos Coletes Amarelos, portanto, não pode ser imaginada como nada além de protofascista. 
2. Desde 2011, houve uma transformação mundial das suposições de senso comum sobre o significado de se participar de um movimento democrático de massas - ao menos entre os que têm maior probabilidade de fazê-lo. Modelos de organização mais antigos "verticais" ou vanguardistas rapidamente deram lugar a um espírito de horizontalidade em que a prática (democrática, igualitária) e a ideologia são em última instância dois aspectos da mesma coisa. A incapacidade de compreender isso dá a falsa impressão de que movimentos como os Coletes Amarelos são anti-ideológicos e até niilistas. 

Deixe-me dar uma certa retrospectiva para essas afirmações. 

Desde que os Estados Unidos dispensaram o padrão ouro, em 1971, vimos uma profunda mudança na natureza do capitalismo. A maior parte dos lucros corporativos hoje não deriva mais da produção ou mesmo da comercialização de alguma coisa, mas da manipulação do crédito, da dívida e das "rendas reguladas". Conforme os governos e as burocracias financeiras se tornam intimamente entrelaçados, sendo cada vez mais difícil diferenciá-los, riqueza e poder - especialmente o poder de criar dinheiro (isto é, crédito) - também se tornam efetivamente a mesma coisa. (Era para isso que chamávamos a atenção no Ocupem Wall Street quando falamos sobre o "1%", os que têm a capacidade de transformar sua riqueza em influência política, e a influência política novamente em riqueza). 

Apesar disso, os políticos e os comentaristas da mídia sistematicamente se recusam a reconhecer as novas realidades. Por exemplo, no discurso público ainda devemos falar em política fiscal como se fosse basicamente uma maneira de o governo captar receita para financiar suas operações, enquanto na verdade é cada vez mais uma maneira simples de (1) garantir que os meios de geração de crédito nunca possam ser democratizados (pois só o crédito oficialmente aprovado é aceito no pagamento de impostos) e (2) redistribuir o poder econômico de um setor social para outro. 

Desde 2008, os governos têm bombeado novo dinheiro no sistema, que, devido ao notório efeito Cantillon, tendeu a se acumular majoritariamente nos que possuem ativos financeiros e seus aliados tecnocratas nas classes gerenciais profissionais.

Na França, é claro, estes são exatamente os macronistas. Integrantes dessas classes sentem que são a personificação de qualquer universalismo possível, suas concepções do universal firmemente enraizadas no mercado, ou cada vez mais aquela atroz fusão de burocracia e mercado que é a ideologia reinante no chamado "centro político". Os trabalhadores nessa nova realidade centrista são cada vez mais alijados de qualquer possibilidade de universalismo, pois eles literalmente não podem pagar. 

A capacidade de atuar por preocupação com o planeta, por exemplo, mais que as exigências da mera sobrevivência, é hoje um efeito colateral direto das formas de geração de dinheiro e distribuição administrativa das rendas. Qualquer um que seja obrigado a pensar só nas necessidades materiais imediatas próprias e de sua família é visto como afirmando uma identidade particular; e enquanto certas identidades podem ser admitidas (com condescendência), a da "classe trabalhadora branca" só pode ser uma forma de racismo. 

Vimos a mesma coisa nos Estados Unidos, onde comentaristas liberais conseguiram afirmar que se os mineiros de carvão dos Apalaches votassem em Bernie Sanders, um judeu socialista, deveria de alguma forma ser uma expressão de racismo, assim como a estranha insistência de que os Coletes Amarelos devem ser fascistas, mesmo que não tenham percebido isso. 

São instintos profundamente antidemocráticos. 

Para compreender o apelo do movimento, isto é, do surgimento repentino e da disseminação descontrolada de uma política verdadeiramente democrática e até insurrecional, acho que há dois fatores amplamente despercebidos a se levar em consideração. 

O primeiro é que o capitalismo financeirizado envolve um novo alinhamento de forças de classe, principalmente opondo os tecno-gerenciais (cada vez mais eles, em seus "empregos de merda", como parte do sistema de redistribuição neoliberal) contra uma classe trabalhadora que hoje é mais vista como as "classes cuidadoras", as que alimentam, tratam, mantêm, sustentam, mais que os "produtores" à moda antiga. 

Um efeito paradoxal da digitalização é que enquanto ela tornou a produção industrial infinitamente mais eficiente deixou a saúde, a educação e outros trabalhos no setor de cuidados menos eficazes, isso combinado com o desvio de recursos para as classes administrativas sob o neoliberalismo (e cortes de atendentes no Estado do bem-estar social) significou que, praticamente em toda parte, foram professores, enfermeiros, funcionários de lares de idosos, paramédicos e outros integrantes das classe cuidadoras que estiveram na vanguarda da militância trabalhista. 

Choques entre funcionários de ambulâncias e policiais em Paris no início de dezembro podem ser vistos como um símbolo vivo do novo arranjo de forças. Mais uma vez, o discurso público não acompanhou as novas realidades, mas com o tempo começaremos a ter de nos fazer perguntas totalmente novas: não que formas de trabalho podem ser automatizadas, por exemplo, mas quais nós realmente queremos que sejam, e quais não. 
Por quanto tempo desejamos manter um sistema em que quanto mais o trabalho de alguém beneficia ou ajuda outros seres humanos, menos recebe por ele. 

Segundo, os acontecimentos de 2011, a começar pela Primavera Árabe e passando pelos movimentos nas praças ao Ocupem, parecem ter marcado uma ruptura fundamental no bom senso político. 

Uma maneira de saber que um momento de revolução global realmente ocorreu é que as ideias consideradas loucura pouco tempo antes de repente se tornam suposições básicas da vida política. A estrutura sem líder, horizontal e diretamente democrática do Ocupem, por exemplo, foi quase universalmente caricaturizada como idiota, visionária e imprática, e, assim que o movimento foi suprimido, pronunciada como o motivo de seu "fracasso". 

Certamente ele parecia exótico, inspirando-se fortemente não apenas na tradição anarquista como no feminismo radical e até em certas formas de espiritualidade indígena. Mas agora ficou claro que ele se tornou o modo padrão de organização democrática em toda parte, da Bósnia ao Chile a Hong Kong ao Curdistão. Se um movimento democrático de massas emerge, essa é a forma que hoje se espera que assuma. 

Na França, o Nuit Debout [Noite de Pé] pode ter sido o primeiro a adotar tal política horizontalista em escala maciça, mas o fato de que um movimento originalmente de trabalhadores rurais e de cidades pequenas e autônomos adotou espontaneamente uma variação desse modelo mostra o quanto estamos lidando com um novo senso comum sobre a própria natureza da democracia. 

Praticamente a única classe que parece incapaz de entender essa nova realidade são os intelectuais. Assim como durante o Nuit Debout, muitos na "liderança" autonomeada do movimento parecem incapazes ou indesejosos de aceitar a ideia de que formas horizontais de organização eram na verdade uma forma de organização (eles simplesmente não conseguiam compreender a diferença entre uma rejeição às estruturas de cima para baixo e o caos total). 

Por isso agora os intelectuais de esquerda e de direita insistem que os Coletes Amarelos são "anti-ideológicos", incapazes de compreender que para os movimentos sociais horizontais a unidade da teoria e da prática (que para os antigos movimentos sociais radicais tendia a existir muito mais na teoria do que na prática) realmente existe na prática. Esses novos movimentos não precisam de uma vanguarda intelectual para lhes fornecer uma ideologia, porque eles já têm uma: a rejeição das vanguardas intelectuais e o abraço à multiplicidade e à própria democracia horizontal. 

Existe um papel para os intelectuais nesses novos movimentos, certamente, mas ele terá de envolver um pouco menos de fala e muito mais escuta. 

Nenhuma dessas novas realidades, seja das relações entre dinheiro e poder, ou as novas compreensões da democracia, provavelmente vão desaparecer tão cedo, haja o que houver no próximo ato do drama. A terra se moveu sob nossos pés, e talvez seja bom nós pensarmos sobre onde estão de fato nossas fidelidades: com o pálido universalismo do poder financeiro, ou com aqueles cujos atos diários de cuidado tornam a sociedade possível. 
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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