AGENDA CULTURAL

9.7.20

Praga de padre - Antônio Reis


Estátua do Padre Anchieta
O Brasil é dos países que tem mais seguidores da Igreja de Pedro. Talvez o acúmulo de riqueza por parte desta instituição explique nossa desigualdade social. Na hierarquia do clero, o padre é o chão de fábrica, empregado de uma empresa que vende uma mercadoria chamada fé. E ai de quem duvidar.

O pároco sabe dos fuxicos de sua freguesia, conhece os muquiranas pelo valor do dízimo, bajula pecuarista para ganhar a novilha da quermesse do padroeiro, almoça na casa de uma beata e janta na casa do comerciante mais carola da comunidade. Tem o céu dentro da boca e se sente no paraíso com frango ao molho pardo. A prova dos nove é o vinho do padre.

Visto sempre como um sujeito bonachão, o estereótipo é um tipo esbranquiçado com sotaque italiano e sem vocação para casamento, mas lembrem-se de que as aparências enganam. O folclore conta que a mulher que fornica com padre vira mula sem cabeça, embora as missas sejam frequentadas por belas potrancas e nenhuma delas mutilada rente ao pescoço.  

Quando alguém cai num golpe, diz-se que foi vítima do conto do vigário. A palavra vigarista teria origem em uma tramoia entre dois padres  mineiros que disputavam a imagem de Nossa Senhora para adornar suas paróquias, que ficavam lado a lado. Um deles, sugeriu que o a imagem fosse atrelada ao lombo de um burro e o caminho tomado pelo animal definiria o destino da Santa. E assim foi feito, mas o que propôs a solução era o dono do quadrúpede. Ou seja, para entrar em pendengas religiosas só mesmo sendo burro.

Há coisa de duas décadas, o Brasil foi surpreendido pelo midiático padre Marcelo Rossi, posteriormente acometido por depressão. Dizem que, por ser corintiano, foi vítima de olho gordo de torcedores de certo timinho aí que não tem Mundial. Atualmente, o sucesso é o padre Fábio de Melo, um influencer cara de coxinha, desses que andam com camisa amarela da Seleção Brasileira.

Há também os padres mais arrojados. Entrou  para a história recente do País o italiano Vito Miracapillo, que até 1980 atuava na diocese de Palmares, em Pernambuco, e em 7 de setembro daquele ano se recusou a celebrar missa alusiva à Independência, alegando que o Brasil não era independente. O destemido religioso foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, uma invenção da ditadura militar, e expulso do Brasil pelo último gorila que nos presidiu.

No fim de semana, se tornou público trecho da homilia do padre Edson Tagliaferro, da Igreja Nossa Senhora das Dores, da cidade de Artur Nogueira. Ele falou pelas redes sociais cobras e lagartos sobre o Bozo. O religioso desabafou, falou até em pecado e confissão de culpa. Isso, publicamente. Porque interiormente, sabe lá qual a foi o desejo de Tagliaferro. Dias depois o presidente testa positivo para covid-19. Lembrei-me de um braganceiro, compadre do meu pai e pouco dado às coisas da religião: “Praga de padre mata cavalo gordo”.

(*) Antônio Reis é jornalista e ativista do Grupo Experimental.

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