AGENDA CULTURAL

24.6.26

São João, menino do povo - Luiz Antonio Simas

Que não percamos, abençoados por João Menino, as dimensões encantadas de renovação da vida.


Há quem implique com as festas populares, encarando-as como celebrações que alienam as comunidades dos perrengues do cotidiano, como se fossem ritos de esquecimento sem maiores profundidades. Há quem confunda festas com eventos desprovidos de sentidos mais amplos que o da mera celebração escapista de datas estabelecidas pelo calendário.

Minha maneira de encarar as festas é outra. Encaro os festejos populares como ritos de reavivamento de laços sociais. É nas festas, sobretudo nesses tempos marcados pelo esfacelamento dos sentidos comunitários da vida, que o indivíduo se dissolve novamente na coletividade, fortalece pertencimentos, tece sociabilidades e cria redes de proteção social. Festejar é também, dentre diversos outros sentidos, insurgir-se contra a desumanização, o individualismo e a decadência da existência como experiência compartilhada.

Junho é o mês de São João Batista, primo de Jesus Cristo. Ele aparece nas escrituras como um profeta de poucos amigos, que comia gafanhotos no deserto e não sorria. Decapitado a mando de Herodes Antipas, o pregador iracundo virou na cultura popular o São João do Carneirinho e das capelinhas de melão.

A igreja santificou o homem. O povo humanizou o santo. Entre nós não prevaleceu o pregador furioso, moralista e incorruptível, que não deu trégua ao trio Herodes, Herodíades e Salomé e urrava aos ventos contra a união, que desmoralizava a lei de Moisés e envergonhava a Galiléia. Batista conclamava o povo a apedrejar o casal que aviltava as escrituras.

O nosso São João é o menino, filho de Isabel, primo de Jesus, aconchegando no colo o Cordeiro de Deus. O raro santo comemorado no dia do nascimento, e não da morte. É linda a infantilização de João, o profeta que virou criança no cristianismo popular.

E o que dizer da fogueira, forte nos ritos agrícolas pagãos e reimaginada pela cristandade popular e não canônica? Diz a tradição que Isabel mandou acender uma fogueira quando João nasceu, para que Maria, grávida de Jesus, recebesse a notícia ao ver os fumos subindo. A fogueira, portanto, anuncia a chegada da criança e a afirmação da vida do menino, celebrada em estandartes e bandeirolas, no milho assado, no quentão, nos sortilégios da boa sorte.

A beleza maior que vejo em São João é mesmo essa: não louvamos o João dos testamentos, mas o aconchegado pelo povo. Não o profeta decapitado, mas a criança encantada e de caracóis nos cabelos que brinca na fogueira e comemora a renovação da vida pela alegria da festa.

Um evento da cultura não pode sucumbir à cultura do evento. Um evento da cultura é orgânico; guarda sentidos profundos e organiza o mundo. A cultura do evento mensura tudo pela sanha do mercado, pela financeirização desencantada da vida, pela urgência do tempo da produção, da disciplina e do relógio. Não nos enganemos. As celebrações de São João, e o mesmo vale para o carnaval, correm esse sério risco.

Conforme disse certa feita, a festa é a nossa maneira bonita de rezar o mundo. Que não percamos, abençoados por João Menino, as dimensões encantadas de renovação da vida.

*Luís Antônio Simas - estudioso da cultura popular 

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