AGENDA CULTURAL

28.1.16

Casa antiga de janelas azuis

Sede da Academia Araçatubense de Letras
Tharso Ferreira*

    Estou embevecido, em grande honra, aos cinquenta e sete anos me tornei imortal, me encaixei entre os homens que gozam da mesma honraria, estou na Academia de letras. 

Esta honraria se faz muito mais importante por eu estar entre poetas como Tito Damásio, escritores políticos como Hélio Consolaro, o gandavo Lourival Amilton. Doutores em simpatia como Geraldo da Costa e Silva, o Pratinha, escritor com nome de general. Mulheres da envergadura de Cidinha Baracat e Marilurdes Campezi e muitos outros e outras. 

No fim da vida a sorte me brindou com esta surpresa agradável.  É um espelho de homens e mulheres em que eu possa refletir para continuar fiel à dignidade da poesia e em defesa de nossa combalida língua portuguesa.

   Somos letrados e indômitos defensores de nossa fala escrita na nossa casa dura, feita de barro e tijolos, que sobrevive a duras penas frente ao relógio desativado da antiga estação ferroviária, tão antiga quanto seus ocupantes imortais. A Academia foi fundada por visionários que viviam muito além do seu tempo. É uma casa velha de janelas azuis, pintadas a pincel, que faz parte da história da cidade.

É lá que se reúne um punhado de homens e mulheres de energias incansáveis em defesa da essência dos códigos da língua. Fica no coração da cidade a casa entupida de livros onde já a visitou o poeta amazonense Thiago de Mello, amigo de Pablo Neruda, Loyola Brandão que passou por lá e me fez as honras de me entregar meu primeiro prêmio de literatura e me disse que é um pecado não ouvir os poetas.


Agradeço a todos os imortais que me receberam no meio deles como que eu merecesse tal honraria fraterna e me deram a autoridade tanto pedida de defender a poesia, o conto, porque a minha vocação para as letras é insana e doentia. Acho que estou cumprindo o sonho de todo e qualquer escritor que se preze, pois todos eles gostariam de se unir em torno da defesa de suas línguas de origem. Qualquer escritor americano, europeu, asiático, africano, australiano gostaria de estar no meu lugar. E a vida, com suas surpresas, me dispôs no meio deles, que me reúna uma vez por mês, com as cabeças mais inteligentes, os poetas mais deslumbrantes de minha cidade. Morram de inveja, escrevinhadores do mundo todo!

Estamos numa época trágica de muito sangue e violência por todo canto, de radicais religiosos, de políticos viciados em defeitos seculares, de guerras incompreensíveis pelo mundo, de homens bombas que matam crianças com sua fé, de narcotraficantes que envenenam o mundo com seus rastilhos de cocaína e desgraça, de pastores infiéis que roubam tudo de seus fiéis, até o dinheiro. É uma montanha de desonestos intocáveis pelo mundo.

Os escritores devem encabeçar o mundo, ferir estes intocáveis com nossas espadas de faz de conta. Doutrinar o mundo todo com nossos contos, nossas crônicas de alerta, nossas resenhas para incitar no povo o raciocínio crítico e estancar as dores. Sabotar os violentos, feri-los com nossas palavras escritas suas personalidades megalomaníacas. Superando-os em raciocínio, coragem, abnegação e valentia. Superando-os na grandeza das ideias. O mundo nunca precisou tanto de seus poetas, suas profecias e seus bordões de inteligência.

É uma luta universal e cabe aos escritores tomarem a iniciativa, darem o primeiro passo para acenderem a luz da razão, pois a vida do homem na terra depende em quem pensa por eles, quem os defenda dos maus, que lhes deite amor no coração, e quem melhor para fazer isso do que um poeta? Para que se mude o mundo há de se ouvir os poetas. É uma lição que o mundo deverá aprender.


Eu não sou apenas imortal eu tenho que me fazer imortal, não posso viver apagado neste mundo, pois minha honraria é para poucos, quase ninguém. Não posso viver no silêncio dos inocentes, daqueles que não pensam por si, que não podem discernir a ingratidão com eles mesmos. Porque, nós, os escritores, os poetas, temos que transbordar como os rios, se levantar como as árvores, pois conhecemos pelas palavras o mundo como um marujo conhece o mar, os plantadores de cebolas, a cebola, o amante, o amor, o vendedor de garapa, sua moenda. Temos que localizar a ingratidão que fere os homens de bem e alertá-los através das palavras. 

Temos que construir isso passo a passo, da casa velha, auréola aguerrida, de íntima estrutura, de janelas azuis que todo mundo vê, sob o relógio parado da central, rodeada de museus, gente e ônibus circulares, encurvada pelo tempo, tombada como patrimônio nas ruas desordenadas e entrecruzadas do centro velho da cidade somente para abrigar os imortais mais energizados do mundo sedentos para praticar a justiça e as verdades do nosso tempo.

*Tharso José Ferreira é escritor e ocupa uma cadeira na Academia Araçatubense de Letras                           


2 comentários:

José Hamilton Brito disse...

Ótimo, você fez por merecer. Cumprimento-o meu caro.
Agora, é sair da vala comum, praticar ações que dinamizem a casa de Machado de Assis. Por opotuno, conversei com a professora Cidinha Baracat e ela esta precisando de ajuda para esse mister.

Anônimo disse...

Parece um sonho. Sim, parece mesmo um sonho tudo isto que acabo de ler a respeito da evolução cultural de Araçatuba. Lembro-me muito bem dos primeiros passos dados nessa direção pela Cidinha (permita-me assim chamá-la. Morávamos na mesma rua - Primeiro de Maio. Residi por ali de junho l966 a fevereiro de l981,quando tomei o rumo de Campinas. Anos mais tarde, ao convidar o meu saudoso e inesquecível amigo Dr. Maurício de Aguiar Ribeiro para a solenidade da entrega de um prêmio literário a mim outorgado, tive a grata surpresa de saber que ele era um dos membros da Academia Araçatubense de Letras, assim como a Cidinha, O Dr. Geraldo Costa e Silva, o Consa e muitos e muitos outros e outras. Fico daqui chupando o dedo, a tomar conhecimento de toda essa movimentação, em especial por parte do Consa, incansável e persistente e idealista homem das LETRAS.

GAbriel, "Bié,o Prosador."