AGENDA CULTURAL

5.11.06

Medo de cemitério

Hélio Consolaro

Existem pessoas que gostam de visitar o cemitério sempre. Muitas cuidam dos túmulos de parentes e amigos ou vão mesmo rezar e conversar com os mortos. Como se restos mortais e ossos exercessem a intermediação entre céu e terra.

Nunca precisei adentrar os portais de um cemitério à noite. Não sei se teria medo numa necessidade. Muitos tremem apenas em pensar nisso, com medo de encontrar duas caveiras namorando, como na música de Alvarenga e Ranchinho: Romance de uma Caveira.

Reproduzo a letra da música, como forma de homenagear a dupla sertaneja:

Eram duas caveiras que se amavam/ E à meia-noite se encontravam/ Pelo cemitério os dois passeavam/ E juras de amor então trocavam./ Sentados os dois em riba da lousa fria/ A caveira apaixonada assim dizia/ Que pelo caveiro de amor morria/ E ele de amores por ela vivia./ Mas um dia chegou de pé junto/ Um cadáver, um vudu, um defunto./ E a caveira por ele se apaixonou/ E ao caveiro antigo abandonou./ O caveiro tomou uma bebedeira/ suicidou-se de um modo romanesco/ Só por causa dessa ingrata caveira/ Que trocou ele por um defunto fresco.

Durante a realização da oficina “Texto & Imagem: Uma Experiência Criativa”, realização do Sesc, o grupo decidiu fotografar o cemitério e elaborar textos sobre vida e morte, aproveitando a proximidade do Dia de Finados.

E fomos lá, no dia 21 de outubro, um bando munido de câmeras fotográficas e muita criatividade para elaborar textos. Muitos visitantes estranharam aquele magote de gente fotografando o campo santo. E lá encontramos muitos vivos fazendo faxina geral, preparando a casa dos mortos para receber as visitas de hoje.

Meu amigo Heitor Gomes, Poeta das Multidões, membro do grupo, rosnou grosso:

- Pô! Cemitério! Porque não fotografar um jardim?

Mas foi. Não levou câmera fotográfica, ficou com medo de fotografar espíritos, mas deu carona ao escultor Geraldo Pereira.

Cada membro do grupo escafedeu-se entre mausoléus, túmulos e cruzes, escolhendo o melhor ângulo para suas fotos. E Heitor saiu de fininho, sumiu, largando seu amigo a pé.

No sábado, 28/10, novo encontro do grupo para juntar textos e imagens. Cadê as fotos do Heitor? Nenhuma. E Geraldo Pereira bravo com a trairagem do amigo que se explicou:

- Não, no cemitério não tem ninguém morto não! É lugar de respeito... Tirar fotografia de cemitério? Onde se viu?

Houve até alguém que sugeriu que ele queria mesmo é visitar a zona, para que o eu-lírico de seu poema “Minha mãe está na zona” encontrasse sua querida mãezinha, mas a partir de agora seu slogan será “O homem que fugiu do cemitério”. De medo, claro.

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