AGENDA CULTURAL

23.12.07

Madalena do calçadão


Hélio Consolaro

Na terça, é Natal. E falo da data sob o olhar de um cristão que não teme a Deus, mas tem com Ele um relacionamento de amor. Deus não é meu chefe, nem meu patrão, Ele é meu amigo.

Um funcionário público andava pelo calçadão do centro de Araçatuba com seu celular tirando fotos de calcinhas. No primeiro momento, achei que ele fotografasse as peças íntimas expostas nas vitrinas.

Não, não era assim. Ele deixava cair o celular próximo a mulheres que vestiam saias curtas, com o dispositivo de foto disparado. E assim, tinha uma visão debaixo para cima do corpo feminino com a calcinha, como se ela estivesse trepada numa árvore. As fotos, talvez, lhe proporcionassem visões eróticas para que à noite buscasse o prazer solitário.

Todos nós temos taras, nosso lado animal que não pode ser revelado por repressão da moral cristã. Ele colecionava fotos, até que não era uma perversão tão prejudicial às mulheres. Só por isso, se tornou uma madalena apedrejada. E não apareceu nenhum Cristo em seu socorro.

Mais interessante é que o fotógrafo se revelou evangélico e seu pastor lhe foi solidário. Os presbíteros devem mesmo se preocupar com os pecadores, pois não existe gente com mais pecado do que os freqüentadores de igreja, onde o complexo de culpa é ativado a toda hora. E tenho minhas dúvidas se isso é bom, se o Deus da vida e do amor quer ver seus filhos vivendo a vida como se ela fosse um vale de lágrimas.

O mais interessante da notícia é que ele justificou sua atitude como sendo tentação do demônio. A vida de um cristão não é nada fácil, pois ele não sabe se atende ao demônio (as forças da natureza que estão vivas em seu corpo) ou ao artificialismo da Fé. Assim, a vida vira um inferno.

Na incapacidade de realizar a autocrítica, de se olhar por dentro e conhecer-se, como ensinava o filósofo Sócrates, o fotógrafo jogou a culpa nas costas largas do demônio. Pelo menos o demônio serve para alguma coisa.

Não acredito que o aniversariante de terça-feira, em seus 33 anos de vida humana, tenha dito que a vida se resume a um vale de lágrimas. Houve muita manipulação de suas palavras, porque ele quer que vivamos felizes, com a plenitude da vida. Enquanto as religiões o aprisionam, deturpam suas palavras para manter o poder sobre seus fiéis.

Essa discussão é longa, quase impossível de chegar a um acordo. Então, um feliz Natal, caro leitor. E ao fotógrafo de calcinhas também. Afinal, o nosso lado instintivo, natureza, às vezes, se torna incontrolável, tornando-nos verdadeiras madalenas no calçadão.

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