Hélio Consolaro*
Para usar a queima do alho, o chapéu precisa ser comprado na Expô |
Às vezes, por uma simples brincadeira, acabamos por
complicar nosso cotidiano. Na última Virada Cultural (maio de 2013), aquela
multidão na frente do palco, fui encerrar o evento juntamente com a autoridade estadual
da Secretaria Estadual de Cultura antes do show de Almir Sater, usando o meu chapeuzinho panamá.
Meu amigo (ou inimigo) Carlos Nova me incentivou:
- Você ficou bem de chapéu!
Por que não usar?
Elogio falso e fácil nasce como tiririca. Quando minha mulher
me diz que fico bem com tal roupa ou adereço, desconfio: “será que ela me quer
mesmo bonito?”. Não sei não.
Pelo sim, pelo não, comecei a usar mais amiúde o chapéu.
Apenas minhas fãs do clube da terceira idade reclamaram. Como sou um sujeito
conformado, mais feio do que sou não fico, lá vai chapéu no cocuruto pelado do
Consa, pois sou portador de tonsura (careca de padre).
Até me perguntaram se era um novo perfil do secretário
municipal de Cultura de Araçatuba. Antigamente, o chapéu dava ar de mais
responsabilidade aos homens, principalmente o tipo fedora. Explico a quem me
pergunta que a velhice vai nos tirando as coisas e nós, já velhos, precisamos ir repondo com adereços. Pelo menos mudamos a referência:
- Aquela moça perto do velhote!
- A fila termina naquele barrigudinho!
Com chapéu, a referência muda:
- Ela está do lado do sujeito com chapéu...
Chapéu comprado no camelódromo da Cidade Del Leste - Paraguai - na visita que fizemos à Foz do Iguaçu-PR |
Conheci o meu pai usando chapéu de feltro, marca Cury, que
vinha numa caixa redonda. Na roça, ele usava chapéu de palha mesmo, aba larga,
para se esconder do sol. Para mim, o chapéu tem sua origem no mundo rural, por
isso as boas maneiras do uso dele precisam ser mudadas, adaptadas.
Comecei a usar chapéu e arrumar algumas encrencas.
Deram-me um cutucão:
- Secretário, tire o chapéu, está cantando o Hino Nacional!
Rapidamente, me corrigi, mas os manos de boné, que é um
tipo de chapéu, não foram repreendidos. A lista de boas maneiras, bem antigas,
do uso do chapéu é longa. Não se entra em lugar coberto com o chapéu na cabeça.
Com o chapéu, o homem fazia uma série de mesuras, principalmente quando passava
por uma mulher bonita.
Na língua, criou-se a expressão “tirar o chapéu”, porque o
ato de se descobrir demonstrava respeito. Então, dizer que os intelectuais
tiram o chapéu para o Lula, apesar de ele só ter o curso ginasial e o diploma
do Senai, quer dizer que admiram o
ex-presidente da República.
Acabei, caro leitor, tendo uma coleção de chapéus. E sem nunca
ter fumado, passei a visitar a tabacaria que é o lugar onde há uma variedade de
chapéus.
*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor.
Secretário municipal de Cultura de Araçatuba-SP
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