AGENDA CULTURAL

7.5.23

Que bagunça e um santo remédio - Alberto Consolaro

 


Livro de Descartes e sua foto como homenagem ao pai da Ciência contemporânea.

Era uma bagunça e todo mundo opinava desde a época do paraíso. Filosofia é a mãe de todas as ciências e até hoje ensina as pessoas questionar e refletir. Opinava-se sobre tudo o que vinha na cabeça e dá para imaginar como era difícil para quem queria aprender algo!

Tudo muito semelhante com o panorama atual e não é coincidência, pois o ser humano é o mesmo: cérebro, dedos, dentes, cabelo e postura continuam iguais. Mudaram alguns instrumentos, mas o mundo da internet manteve tudo como era antes, uma bagunça só!

O GÊNIO CARTESIANO

Os gênios da raça se incomodaram com a bagunça e um deles resolveu dar uma organizada há 384 anos e disse que opinião, crença e a verdade deve ser coisas distintas. Opinião é política, crença é religião e a verdade é ciência e um não deve interferir no outro.

E a ciência passou a ser definida de forma simples como a busca da verdade, mas para isso requer-se critérios para determinar o que é conhecimento científico. Até então, se permitia influência de opiniões, dogmas, magias, experiências pessoais ou crenças e não era preciso provar nada! A partir desta data ditadores, facínoras e ignorantes passaram a detestar a ciência e as universidades e todas eram públicas.

Em 1637, o francês René Descartes (leia-se Renê Decarts) apresentou os princípios do conhecimento científico no livro “O discurso sobre o Método” e passou a ser o criador da ciência contemporânea. Editado até hoje, representa a cartilha sobre como fazer um trabalho de pesquisa perfeito, é um manual universal da investigação científica onde está escrito: “só se pode dizer que algo existe se puder ser provado, sendo o ato de duvidar inquestionável”.

Qualquer pessoa envolvida com ciência, como professor, pós-graduando e curioso, deve ter um exemplar traduzido ou não, uma resenha, um arquivo ou outra forma de acesso a essa “constituição da ciência mundial”. Só assim se consegue afirmar se algo é científico, ou seja, se é uma verdade comprovada. Graças a Descartes, o lado culto da humanidade deixou de considerar a vontade de acertar, o abstrato, a reflexão e o artístico como conhecimento científico, sem interferência da fé e ou política.

Para ser científico tem que ser provado com um método lógico de análise descrito minuciosamente ao público para permitir que outros repitam tudo e obtenha os mesmos resultados, sob as mesmas condições, em qualquer lugar do planeta. Ser cientista é ser cartesiano, pois o seu nome latinizado é “Renatus Cartesius”. Ser cartesiano é ser metódico, criterioso e quase sempre exige repetição comprovatória.

OS PRINCÍPIOS

Para Descartes, é obrigação profissional ser cético e não aceitar nada como certo antes de verificar se existem evidências indubitáveis do que e como foi concluído e interpretado. O método de Descartes tem quatro regras básicas:

1. Ser cético e não aceitar nada como certo antes de verificar se existem evidências reais e indubitáveis do que foi estudado,

2. Analisar parte por parte, dividindo-se ao máximo as coisas e problemas em unidades mais simples e estudá-la desta forma,

3. Ordenar os problemas do mais simples ao mais complicado, até que não haja mais problemas e sim evidências e ou conclusões. Depois, sintetizar ao reagrupar novamente as unidades estudadas em um todo verdadeiro para uma compreensão mais ampla,

4. Enumerar e rechecar todas as conclusões e princípios utilizados a fim de manter a ordem do pensamento.

REFLEXÃO FINAL

Se diz que tudo está uma bagunça na mídia, inclusive científica, como estas histórias maldosas das vacinas. Mas já era assim, ou pior, e Descartes desanuviou o horizonte da humanidade com seus princípios. Se tomarmos cuidados e aplicá-los em nossas leituras e afazeres, eles dissiparão as nuvens como um vento e a serenidade voltará aos arrebóis de nossas vidas! 

Tenhamos um bom dia, bom Dia do Trabalho, do Trabalho Científico! 

Alberto Consolaro  

Professor Titular da USP  
FOB de Bauru 

consolaro@uol.com.br     

Nenhum comentário: