AGENDA CULTURAL

22.6.16

Garganta e punhos - tributo a Muhammad Ali

Tharso Ferreira*

Como homenagem singela, pus uma vela acesa, que achei solitária no fundo de uma gaveta antiga e me permiti verter uma lágrima antiga de menino. Morreu Mohamed Dali.

Dali, meus caros, pra vocês que são jovens que não conheceram os antigos dias dos anos sessenta, de tenebrosos ventos que abririam brechas no futuro, eu digo, era um gênio de gênio extraordinário que o mundo em seus arroubos concebeu.

Era um negro robusto, belo, que fazia as ondas do mundo se quebrarem na areia social com sua fala de acinte, lá nos barulhentos anos sessenta, tempos em que a asneira do politicamente correto ainda não tinha tomado o mundo.

Ele dizia alto e em bom tom, “é difícil ser modesto quando se é tão bom quanto eu”. Eram tempos de humanidade louca, destrambelhada, êxtase total. Mulheres começando a se negar mulher, queimando sutiã nas praças. A Apollo dando inéditas voltas na terra com gente dentro. Com o Vietnã fervilhando de agente laranja e fazendo pilhas de soldados mortos. Os Beatles mudando o barulho do mundo para sempre. Os antigos bandidos daqui aprovando o AI-5 na calada da noite. Dali dava socos para ganhar a vida no meio desta balbúrdia irascível, imprecisa, que os homens chamam de história.
   
Quando penso nele, o vejo na juventude. Seu belo retrato de homem negro emerge em meus pensamentos mais satisfeitos. Vejo sua grandeza, uma das maiores criaturas do século vinte. Retenho nos absconsos do cérebro sua grandiosa inteligência, seus bailados de combate, seus socos rígidos de derrubar gigantes. Dali era uma lição para homens frouxos, ou não.

   Lembro-me de sua memorável luta na floresta, em 1974, no Congo de hoje, moldando o tempo do seu jeito, quando chegou correu na rua feito moleque, divinal, no meio dos negros, “meus irmãos”, deu a eles o que não tinham: um carnaval desatinado, feliz, cumprindo nas ruas de seus antepassados seu destino monumental, sua verdade, sem ilusão, de gênio sem antecessor, sem sucessor, isolado na história do boxe como um diamante negro, único.

Nesta luta com Foreman se deixou bater como um mortal qualquer até o sétimo round, sem desfalecimento, sem retroceder, até quando quis e terminou a luta no oitavo assalto num “jab” triunfal de direita, fatal.

E transtornou a plateia de, “meus irmãos”, num urro de esperança dos povos esquecidos do mundo. No tablado do ringue só se pode contar consigo mesmo, foi o que disse.


Quando lhe perguntaram por que não acabara com a luta no primeiro assalto, respondeu que aquele povo merecia um espetáculo. Foi uma das lições do homem extraordinário que dava socos como vocação, mas se recusava a participar de guerras. De bondade endurecida, “Nenhum Vietcongue me chamou de crioulo”.

   Descanse em paz guerreiro de garganta e punhos. Diamante de alta resplandecência que nos deixou para sempre sem suas ondas de franca brandura. Morarás na selva de mortos memoráveis, deixando nossas areias secas. O mundo sem Cassius Marcellus Clay se torna um pouco mais desolado sem seus milagres. Durma em paz meu antigo herói.

*Tharso José é escritor e ocupa uma cadeira na Academia Araçatubense de Letras


Um comentário:

Larissa Alves disse...

Gostei. Amigo Tharso, seu talento, que já se consagrou em belíssimos Contos, agora, neste texto, mostra-se também, fazendo-lhe um cronista de valor. Parabéns! E que venham mais. Aguardamos suas produções. Abraço. Deus continue lhe abençoando e protegendo.